Fale com Ela

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Crítica Cineweb

23/01/2003

São dois para lá, dois para cá. Não é um bolero nem um tango, é um quarteto de paixões desfeitas e refeitas, como ondas ao sabor de sua própria natureza. Nenhuma surpresa ou não se estaria num universo de Pedro Almodóvar, aqui habitado por dois homens - o enfermeiro Benigno (Javier Cámara) e o jornalista Marco (Darío Grandinetti) - e duas mulheres - a toureira Lydia (Rosario Flores), a bailarina Alicia (Leonor Watling).

O inusitado é que as duas mulheres estão em coma, o que, desde logo, estabelece um eficiente paradigma para a dificuldade de comunicação entre as pessoas e a intangibilidade da paixão. Colocar as duas mulheres nesta situação permite ao diretor inverter o estereótipo segundo o qual a fêmea da espécie fala demais, deixando toda a palavra aos dois homens, que exercem de modo completamente distinto essa possibilidade de discurso contínuo.

Benigno é o mais loqüaz. Fala incessantemente com a bela Alicia, a musa que cortejava como voyeur, pela janela de seu apartamento e que, depois de um acidente, está inerte sob seus cuidados - como uma boneca que ele manipula com uma devoção no limite da perversão. Em outro quarto do mesmo hospital, o jornalista Marco debate-se com sua afasia diante de sua toureira paralisada depois de um enfrentamento desastrado na arena. Entre os dois homens brota uma solidariedade natural e um princípio de afeto que transcende toda a classificação. Almodóvar encharca sua história de um amor em sentido largo, em que despreza os padrões sexuais e ultrapassa, como sempre, a estreiteza da moral convencional, aqui de uma maneira mais serena do que fazia no começo da carreira.

Com seu novo filme, Fale com Ela, o cineasta Pedro Almodóvar desafia os críticos. Um desafio estimulante, sem dúvida. Porque, por mais vezes que se assista ao filme, é uma façanha encontrar palavras precisas para descrevê-lo, quanto mais achar defeitos nesta construção tão elaborada e sólida, tão emotiva e contida, tão sofisticada e simples ao mesmo tempo. Neste seu 14º filme, Almodóvar assinala mais um tento de uma maturidade criativa, conquistada em sua plenitude desde Carne Trêmula (97), ironicamente o único filme que não veio de um roteiro original seu (foi adaptado livremente de um livro da escritora inglesa Ruth Rendell).

Carne Trêmula marca também o encerramento do segundo ciclo de sua carreira, em que ele encontrou consagração e reconhecimento, iniciado por Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (88) até A Flor do Meu Segredo (95). De todo modo, quem viu os primeiros filmes de Almodóvar, recheados de energia anárquica e personagens marginais - como em Pepi, Luci e as Outras (80) e Maus Hábitos (83) - não poderia imaginar a evolução, inclusive técnica, que marcaria sua obra futura, solidificando a ponte que o aproxima cada vez mais de um monstro sagrado seu compatriota, Luis Buñuel. O gosto de ambos pelo profano e pelo melodrama sendo os dois elos mais visíveis desse parentesco intelectual.

Mesmo assim, não há que negar personalidade a Almodóvar - muito pelo contrário. O colorido de seu melodrama é de uma temperatura muito mais alta do que o de Buñuel, como se mergulhasse mais fundo e a quente nas veias de seus personagens. O Brasil entra fundo nesta pulsação, com a voz de Elis Regina entoando a canção de Jobim, Por Toda a Minha Vida, e mais ainda com uma participação em cena de Caetano Veloso, cantando Cucurrucucú Paloma - o que merece um comentário do personagem Marco: "Esse Caetano me deixa todo arrepiado". Como em Tudo sobre Minha Mãe, Alberto Iglesias responde pelo resto da excelente trilha sonora. As coreografias de Pina Bausch abrindo e fechando o filme e o saboroso trecho de cinema mudo em preto-e-branco, Amante Minguante, fecham o arco e criam outro desafio, este para Almodóvar: como é que ele poderá se superar e nos surpreender em seu próximo filme?

Cineweb-1/11/2002

Neusa Barbosa


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