Cidade de Deus

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Extras

Edição para locadoras (lançamento em 18/6/2003)

Documentário de Ana Braga sobre a preparação do elenco, com duração de 53 minutos


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

23/01/2003

Ultimamente tem havido uma insistência de parte da crítica brasileira em diminuir a importância e o alcance de filmes com temática social à flor da pele. Principalmente quando esses trabalhos obtêm alguma projeção internacional e ganham repercussão favorável na mídia especializada lá de fora. Em parte isso ocorreu com O Invasor e com Abril Despedaçado. Agora as canhoneiras voltam-se contra Cidade de Deus, o longa de Fernando Meirelles e Katia Lund. Era esperado. Quando o filme foi exibido no último Festival de Cannes, entre as dezenas de entrevistas concedidas durante nove dias por Meirelles e Katia, apenas duas foram dadas a jornalistas brasileiros, entre os quais Neusa Barbosa, do Cineweb. No balneário francês, a imprensa brasileira ignorou a dupla.

Procura-se agora, na boca da estréia, reduzir o impacto da obra com o pretexto de que os diretores tornaram glamourosa a miséria (eufemismo que embute uma pretensa familiaridade com o tema) e filmaram sob ótica publicitária. No lançamento de O Invasor, alguns ficaram incomodados com as imagens estouradas de Beto Brant e o rap de Sabotage a todo volume. Houve quem achasse o sertão de Walter Salles muito bonito para ser real. Como se o deserto, mesmo desprovido de água, não pudesse esconder alguma vida rastejante.

Cidade de Deus, retrato do surgimento de uma favela no Rio de Janeiro, quer mostrar para o pobre do morro e para o jovem dos shopping centers o país que nos foi entregue depois de duas décadas de ditadura militar e de governos civis hesitantes e incompetentes. A leitura precisa ser política, porque é disso que se trata.

Inspirado no best seller homônimo de Paulo Lins, Fernando Meirelles e Katia Lund recrutaram um primoroso elenco de jovens atores, de ONGs que desenvolvem trabalho cultural na periferia do Rio, para representar uma história semelhante às inúmeras que presenciam diariamente. O narrador é Buscapé (Alexandre Rodrigues), um jovem negro (como a maioria do elenco), que acompanha o surgimento de Cidade de Deus e sua rápida transformação de bairro dormitório em linha de montagem do tráfico de drogas. Seus amigos de pelada na rua também ganham nova projeção, na hierarquia do crime, passando de ladrões pés-de-chinelo a traficantes e matadores.

Como tantos outros jovens brasileiros, Buscapé gostaria de mudar de vida mas não sabe como. Seu irmão, metido com ladrões, foi morto gratuitamente por uma criança com pouco mais de meio metro de altura, mas de uma crueldade gigantesca. Buscapé sonha em se tornar fotógrafo e conseguir dinheiro para o sustento. Pode ser a porta de saída da favela.

A cena inicial, com os traficantes atrás de uma galinha que escapou da panela, numa frenética corrida pelos becos da favela, lembra as primeiras imagens carregadas de adrenalina de Amores Brutos, quando os protagonistas fogem numa perseguição de carro, com um cachorro ensangüentado no colo. Nos dois filmes é impossível prever o que está por vir. No filme de Fernando Meirelles, a cena traz um efeito cômico que pode servir de paradigma para o destino do próprio protagonista, sempre encurralado e precisando fugir para sobreviver. Na favela, se ficar o bandido pega, se correr a polícia mata.

Meirelles volta ao passado e retorna ao presente diversas vezes para mostrar as mudanças na vida e nas personalidades dos personagem principais. Mesmo um honesto cobrador de ônibus pode se transformar num matador frio, desde que um estalar de dedos desencadeie essa mudança. Como ocorreu com Mané Galinha (Seu Jorge), personagem verídico, que virou bicho quando o traficante Zé Pequeno (Leandro Firmino da Hora) estuprou sua mulher e matou seu irmão. Essa é a vida pretensamente glamourizada que Meirelles é acusado de criar.

As platéias mais jovens, com as quais os diretores querem falar, deverão gostar do alívio cômico introduzido ao longo do filme, num recurso não apenas de humor negro mas de puro cinismo.

A montagem extremamente ágil, obra de Daniel Rezende, é também mais um atrativo na forma de contar a história. É natural que o filme tenha imperfeições - poucas - pelas próprias dimensões e ambição do projeto, mas isto não compromete o resultado final. O roteiro, limado pacientemente por Braulio Mantovani em vários processos de tratamento, conseguiu tirar da obra de Paulo Lins seu caldo mais grosso e forte, por isso mesmo de difícil digestão para platéias mais sensíveis. Ao lado de O Invasor, Abril Despedaçado e Latitude Zero, de Toni Venturi, Cidade de Deus já reservou seu lugar entre os melhores filmes do ano.

Cineweb-30/8/2002

Luiz Vita


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