Femme Fatale

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Crtica Cineweb

23/01/2003

Depois de dez anos sem filmar um roteiro original de sua autoria, Brian De Palma volta à cena com um filme de boa linhagem - isto é, nutrido pelo espírito de Alfred Hitchcock, a quem o diretor americano sempre homenageou, especialmente em seus melhores trabalhos como Dublê de Corpo (1984). Aqui, De Palma pisca um olho a Hitch desde a escolha da protagonista, loura como Kim Novak e Tippi Hedren, embora a atual (Rebecca Romijn-Stamos) seja incrivelmente mais quente e sensual do que as intérpretes de Um Corpo que Cai e Os Pássaros.

Laura Ash (Rebecca) é uma trapaceira de alto quilate, que faz jus ao título do filme. Audaciosamente, enganou dois parceiros num roubo de jóias, sumiu no eixo Paris-Nova York e reapareceu na capital francesa, vários anos depois. Só para ir de encontro ao acerto de contas com seu passado meio sem querer, depois de flagrada por uma foto indiscreta de um ex-paparazzo (Antonio Banderas) em apuros financeiros.

A música de fundo, de Ryuchi Sakamoto, em alguns momentos também lembra os bons trabalhos de Bernard Herrmann, habitual parceiro musical do mestre do suspense. Mas seria completamente injusto reduzir De Palma ao papel de um mero imitador de Hitch. Seu senso de humor, por exemplo, é nitidamente americano, não britânico, como demonstra de sobra na ironia, transcrita em frases rápidas trocadas por Laura e o fotógrafo Nicolas Bardo (Banderas).

De Palma também gosta e sabe filmar a sensualidade de um ponto de vista mais explícito - e nunca vulgar. Casos típicos neste filme: a seqüência de abertura, entre as duas garotas (Rebecca e Rie Rasmussen) e o strip-tease da protagonista num bar. Todas cenas coreografadas sob supervisão do diretor.

Aqui, De Palma dedica-se ao seu esporte favorito: enganar o olhar, embora tudo o que queira mostrar esteja em cena. Todos os elementos que a câmera expõe ou esconde, bem como tudo o que o espectador vê ou pensa que vê, estão presentes na tela. Às vezes, é preciso assistir ao filme uma segunda vez para perceber a quantidade de pistas colocadas no caminho e que não serão, evidentemente, mencionadas aqui, para não estragar o prazer da descoberta de cada um.

Fundamental sempre é a montagem, o postulado número um no cinema de De Palma, bem como um trabalho de câmera sofisticado, mas não exibicionista. Ou seja, nunca se permite esquecer que cada tomada está lá não para enaltecer o preciosismo do diretor de fotografia (o francês Thierry Arbogast), e sim para contar a história.

É um mundo masculino, claro, o que informa a fantasia e o fetichismo de De Palma. Mas nesse universo há uma mulher determinante, a malvada que sempre se dá bem, uma figura alegremente malandra, sensualmente ambivalente e sempre guiada por sua fome de viver. Não é por acaso que logo no começo a protagonista assiste na televisão a uma seqüência de Pacto de Sangue (1944), de Billy Wilder. Há toda uma filiação da personagem de Barbara Stanwyck, ali, para a de Rebecca, aqui, com direito a uma atualização em toda linha.

No personagem do fotógrafo em apuros, Banderas reencontra seu lado cômico, nunca devidamente explorado em seus filmes hollywoodianos, que em geral o encaixotam num clichê latino dos mais pobres, deixando-o muito longe do seu melhor como intérprete, que ficou nos tempos em que trabalhou na Espanha com Pedro Almodóvar (como em Áta-me!).

No final, tem-se aqui um suspense erótico que não ultrapassa a ambição de entreter, com uma certa classe, veneno, elegância e especialmente uma sensualidade nada comum no cinema americano, sempre mais pudico com o sexo do que com a violência. De Palma é outro desses veteranos do cinema dos EUA - como Woody Allen e Robert Altman - que têm sido esnobados em casa e encontrado mais reconhecimento fora de seu país. Tanto pior para Hollywood.

Neusa Barbosa


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