De Repente num Domingo

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Dono de uma imobiliária (Jean-Louis Trintignant) é acusado de um assassinato. Mas ele jura que é inocente e se esconde. Sua secretária (Fanny Ardant)decide, então, ajudá-lo a desvendar o crime e salvá-lo.


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Crítica Cineweb

08/01/2003

François Truffaut nem sabia ainda que estava doente, nem que seria este seu último filme. Por isso, talvez, não se sentirá nele o menor sinal da grande tragédia que estava por acontecer: Truffaut morreria de câncer um ano após o seu lançamento, em 84, deixando a viúva, a atriz Fanny Ardant, com uma filha exatamente da mesma idade, Joséphine.

Longe ainda da tragédia que viria, o filme de Truffaut transpira aquela leveza que ele, como poucos, conseguia tirar de seus trabalhos, mesmo os menos sofisticados, caso da última obra. Filmado inteiramente em preto-e-branco, De Repente num Domingo remete ao fascínio que sentia o diretor francês pelas histórias policiais desde a adolescência, o que explica que ele tenha cultivado como ídolo o mestre do suspense, Alfred Hitchcock - com o qual fez uma histórica série de entrevistas, reunidas num livro precioso.

Outra paixão traduzida no filme é pela musa Fanny Ardant, a última mulher de Truffaut, atriz magnífica com quem ele acabara de filmar A Mulher do Lado, com Gérard Depardieu. Foi esse mesmo filme trágico, aliás, quem sugeriu a Truffaut a idéia de que a longilínea Fanny tinha o tipo ideal para uma história policial, que logo se transformou em seu próximo projeto.

A habitual colaboradora de Truffaut, Suzanne Schiffman, foi quem lhe propôs a adaptação de "The Long Saturday Night", de Charles Williams - um livro que, coincidentemente, Truffaut já pensara em filmar nos anos 60, tendo em mente a sua diva de então, Jeanne Moreau. Desta vez, a idéia prosperou, sendo que o diretor insistiu na mudança do argumento do livro, no sentido de aumentar a participação da personagem feminina, a secretária Barbara. Assim, ao contrário do livro, no filme é ela quem toma as rédeas da investigação em torno das suspeitas de assassinato que cercam seu patrão, o dono de imobiliária Julien Vercel.

Para o papel de Vercel, Truffaut decidiu chamar Jean-Louis Trintignant, ator veterano e consagrado com quem nunca trabalhara antes e que já havia manifestado, numa carta bastante direta, seu interesse em trabalhar com ele. Aqui, a ocasião se apresentou, tornando-se um dos encontros mais festejados pelo diretor. Mesmo tendo trabalhado esta única vez com Trintignant, Truffaut acabou considerando-o uma espécie de alter ego, dizendo que apenas esse ator teria sido capaz de interpretar os papéis que ele mesmo fizera em seus filmes, como o dr. Itard de O Garoto Selvagem, Julien Davenne de O Quarto Verde e Ferrand de A Noite Americana.

Curiosamente, o próprio diretor sempre foi muito cético quanto a este seu 21o. trabalho, que acabaria sendo seu último. Achava fraco o roteiro que escrevera com a parceria da própria Suzanne Schiffman e de Jean Aurel. O público francês foi o primeiro a discordar. Quando o filme foi lançado, em agosto de 83, foi tão bem de bilheteria que fazia concorrência a um blockbuster do porte de Superman II, lançado na mesma época.

Dezessete anos depois, é tempo de um balanço. De Repente num Domingo pode até não ser a obra maior do cineasta, mas sem dúvida guarda algumas de suas melhores qualidades, como o bom-humor, a leveza e um romantismo que nunca é adocicado demais. Fanny Ardant comprova seu talento de comediante na pele da secretária disposta a tudo para livrar a cara do patrão, por quem está apaixonada. Nunca é demais lembrar o trabalho esplêndido da fotografia do espanhol Nestor Almendros (1930-1992), que valoriza e muito os cenários, figurinos e adereços, todos eles feitos originalmente nas cores preto, branco e cinza.

De Repente num Domingo não é e nem poderia ser um testamento artístico. Mas se Truffaut pudesse escolher uma imagem pela qual seria lembrado, aliás, bem que poderia ser a cena final do filme, quando um bando de crianças decide atormentar um fotógrafo que registra um casamento, chutando de um lado para outro o aro da lente de sua máquina, que caiu no chão. O cineasta certamente teria preferido que o público risse desta singela brincadeira final do que chorasse a saudade de sua partida.

Neusa Barbosa


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