Festival de Veneza 2010

Veneza premia o cinema independente dos EUA e dá o Leão de Ouro a Sofia Coppola

Neusa Barbosa
Afinal, foi uma grande operação entre amigos e que beneficiou os norte-americanos que predominavam na competição do Festival em Veneza, com seis concorrentes. O júri presidido pelo diretor Quentin Tarantino premiou Sofia Coppola, vencedora do Leão de Ouro pelo drama Somewhere (veja o trailer no canal do Cineweb no Youtube) e até inventou um segundo Leão de Ouro especial, este pelo conjunto de sua obra, para outro norte-americano, o veterano Monte Hellman, que aqui concorreu com o experimental Road to Nowhere - um filme tão inventivo e complexo que mesmo seus atores confessaram não tê-lo entendido na coletiva de imprensa.
A premiação para estes dois, amigos de Tarantino e, certamente, representantes da vertente mais independente do cinema dos EUA, desmentiu os boatos que circularam insistentemente hoje no Lido, sede do festival, que davam conta de que as principais premiações iriam na direção do espanhol Álex de la Iglesia – que no final, venceu mesmo dois prêmios importantes, os de melhor direção e roteiro, com sua frenética tragicomédia política Balada Triste de Trompeta – e do russo Silent Souls, de Aleksei Fedorchenko, que afinal teve que contentar-se com o troféu de melhor contribuição técnica, atribuída à fotografia, assinada por Mikhail Krichman.
Outro boato que afinal se confirmou foi a premiação como melhor ator para mais um norte-americano, Vincent Gallo, como protagonista do drama polonês (mas também com dinheiro norueguês, húngaro e irlandês) Essential Killing, do veterano Jerzy Skolimowski. O cineasta polonês arrebatou também outro prêmio importantíssimo, o Especial do Júri.
Como Gallo, alegadamente, não frequenta tapetes vermelhos, foi Skolimowski quem subiu ao palco da Sala Grande, no Palazzo del Cinema, para fazer o agradecimento, que foi bem irônico: “Tenho a certeza de que Vincent vai agradecer a seu diretor, roteirista e ao produtor que foi procurar o dinheiro para pagar seu salário”. O diretor falava, claro, de si mesmo, já que desempenhou todas essas funções para concretizar o drama, que retrata a situação-limite de um afegão (Gallo), fugitivo de uma prisão militar clandestina em plena Europa.
Novas atrizes
Foi uma grande surpresa também a premiação da jovem atriz francesa Ariane Labed com a Copa Volpi de melhor interpretação feminina, pelo filme grego Attenberg, de Athina Rachel Tsangari. Muita gente apostava na cubana Yahima Torres, protagonista do forte drama francês Venus Noire, de Abdellatif Kechiche, ou mesmo em Alba Rohrwacher, do concorrente italiano La solitudine dei numeri primi, de Saverio Costanzo. Nada disso. O júri preferiu a jovem Ariane que, segundo o jurado Gabriele Salvatores, “carrega nas costas boa parte do peso do filme”. Na história, Ariane interpreta uma jovem de 23 anos que se divide entre assumir a própria sexualidade (ela ainda é virgem) e a doença fatal de seu pai, numa Grécia contemporânea e cética em relação ao seu passado histórico.
Outra jovem atriz premiada foi Mila Kunis, coadjuvante do drama norte-americano Black Swan, de Darren Aronofsky, que abriu o festival, no último dia 1º. Foi dado a Mila o Prêmio Marcello Mastroianni, dedicado a um intérprete novato (não necessariamente estreante, como é o caso de Mila, uma ucraniana de 27 anos que tem feito sucesso no cinema dos EUA, em filmes como a aventura de ação O Livro de Eli, ao lado de Denzel Washington). Ela mandou seu agradecimento por um filmete, que foi exibido na premiação.
Muita gente, portanto, saiu da festa do Lido de mãos vazias. Apesar das apostas de parte da crítica, isto aconteceu com os concorrentes orientais, como os até aqui bem-cotados chineses Detective Dee and the Mystery of Phantom Flame, de Tsui Hark, e o político The Ditch, de Wang Bing. Os franceses (como o citado Venus Noire e a elogiada comédia Potiche, de François Ozon), e os quatro concorrentes italianos (La Pecora Nera, Noi Credevamo, La Passione e o citado drama de Saverio Costanzo) foram solenemente esnobados. O mesmo aconteceu com o único latino-americano da seleção principal, o sólido drama político chileno Post Mortem, de Pablo Larraín (diretor de Tony Manero).

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