Ganhador do Urso de ouro retrata resistência e critica pena de morte no Irã

Filme vencedor em Berlim retrata resistência e critica a pena de morte

Mariane Morisawa, especial de Berlim

O iraniano There is No Evil (“não há o mal”, em tradução livre), de Mohammad Rasoulof, reunia os ingredientes ideais para ganhar o Urso de Ouro no Festival de Berlim, que costuma privilegiar os filmes de temática política e social. O longa é uma destemida denúncia da pena de morte – especialmente quando ela envolve presos políticos – que faz a pergunta fundamental: se você fosse convidado a colaborar com a execução de outro ser humano num regime autoritário, diria sim? Ou se recusaria, aguentando as consequências? É esse o dilema apresentado aos personagens nas quatro histórias que compõem There is No Evil.
 
Rasoulof tem experiência com o governo autocrático de seu país. Ele está aguardando o cumprimento de uma pena de um ano de prisão, está proibido de filmar, não pode deixar o Irã e não esteve em Berlim nem para apresentar o filme nem para receber o prêmio. Inspirou-se num episódio de sua vida para fazer o longa. Um dia, andando pelas ruas de Teerã, viu seu interrogador. Sentiu um ímpeto de segui-lo, tirar foto, talvez confrontá-lo. Mas percebeu que ali não estava um monstro, mas um ser humano que se tornou parte da maquina autocrática. E que em algum momento disse sim.
 
A questão está apresentada a todos os personagens da história, seja Heshmat (Ehsan Mirhosseini), um homem de família, ou Pouya (Kaveh Ahangar), que acabou de começar seu serviço militar obrigatório, seja Javad (Mohammad Valizadegan), que acabou de deixar o quartel para comemorar o aniversário da namorada Nana (Mahtab Servati), a Bahram (Mohammad Seddighimehr) e Zaman (Jila Shahi), que precisam fazer uma revelação importante à sua sobrinha Darya (Baran Rasoulof), que mora na Alemanha.
 
O filme segue a tradição do melodrama do cinema iraniano, e de vez em quando é previsível. Mas não dá para negar que é corajoso. Rasoulof, que teve seus sete filmes proibidos em seu país, foi vencedor do troféu de direção da mostra Um Certo Olhar em Cannes com Goodbye (2011) e do prêmio principal da mesma seção por A Man of Integrity (2017). Assim que voltou da França, foi preso por colocar em perigo a segurança nacional e espalhar propaganda contra o governo islâmico. Julgado, foi banido de fazer cinema por dois anos, teve seu passaporte confiscado e aguarda a qualquer momento ser levado para a prisão para cumprir sua pena, que foi confirmada pouco antes das filmagens. Tudo isso apenas por fazer filmes. Mas mesmo assim não mede palavras. Em dado momento, um dos personagens diz que não há lei no Irã, tudo o que importa é o dinheiro.
 
No fim, There is No Evil é muito eficaz ao perguntar a cada um dos espectadores se ele vai simplesmente aceitar o status quo ou se vai lutar contra ele. E que por mais que pareça que não, resistir sempre é possível.

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