Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

Brasília encerra edição 2019 com saldo positivo, apesar dos pesares

Neusa Barbosa

Afinal, a 52ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro acabou tendo mais o que comemorar do que lamentar. O festival foi adiado de setembro para novembro, mudou-se a curadoria, mas não houve o fim do mundo, nem mostra religiosa, como boatos chegaram a anunciar.
 
 Verdade que alguns acontecimentos lamentáveis poderiam ter sido evitados - caso da interrupção da leitura de uma carta das entidades cinematográficas de Brasília, logo na noite de abertura, com segurança entrando no palco, ameaçando retirar o ator Marcelo Pelúcio que a lia e tendo afinal seu microfone cortado; e os xingamentos desferidos pelo coordenador geral, Pedro Lacerda, contra curta-metragistas na plateia, durante a apresentação do documentário O tempo que resta. Mas nem por isso o festival parou. Todas as noites, as apresentações dos filmes no Cine Brasília, como sempre na longa história do festival, foram marcadas por manifestos e protestos contra o governo que corta verbas da cultura e atrasa editais. A carta interrompida foi, afinal, lida em sua íntegra no dia seguinte pelo produtor do filme A Febre, Leo Mecchi (o momento na foto acima, e aqui em vídeo). A plateia vaiou (especialmente o secretário da Cultura e Economia Criativa do DF, Adão Cândido, por conta dos cortes de verbas - na foto abaixo), aplaudiu, gritou seus bordões, como sempre. 
 
Filmes e representatividade
Que o longa vencedor de mais prêmios, A Febre, dirigido por uma mulher, Maya Da-rin, represente o universo indígena, com direito a prêmio de melhor ator para um deles (Régis Myrupu), foi um manifesto a favor da diversidade - também carimbada na presença de um indígena, o cineasta Takumã Kuikuro, diretor de Hipermulheres, no júri oficial de curtas metragens. 
Com nova curadoria, era esperada uma mudança no perfil dos filmes escolhidos, o que de certa forma aconteceu, nem sempre para melhor. Foi positiva a escolha de produções da qualidade de Piedade, novo drama ambiental-amoroso do veterano Cláudio Assis, ao lado do trabalho notável de jovens diretores, como Alice Junior, de Gil Baroni - vencedor do prêmio de melhor atriz pela primeira vez a uma intérprete trans, Anne Celestino - e O tempo que resta, de Thais Borges, colocando na tela e no palco do Cine Brasília duas ativistas do Pará, Maria Ivete Bastos e Osvalinda Marcelino Pereira, que estão juradas de morte e vivem longe de seus locais de origem por conta de sentenças de morte contra elas. A política, afinal, não faltou em Brasília, e foi contestadora das devastadoras ações do governo federal.
 

 Dois longas da competição, no entanto, destoaram do perfil aguerrido do festival: Loop, de Bruno Bini, e Volume Morto, de Kauê Telloli, decepcionaram em forma e conteúdo. Poderiam ter sido substituídos por alguns dos longas que foram relegados às mostras paralelas, onde se viu muita coisa boa - caso de Filme de verão, uma notável experiência com adolescentes de Jo Serfaty (na foto ao lado, lembrado numa Menção Honrosa do júri); Fakir, de Helena Ignez, uma inteligência que não cessa de nos surpreender; Dorivando Saravá - o preto que virou mar, de Henrique Dantas,  belíssimo documentário em torno da figura de Dorival Caymmi; Siron - tempo sobre tela, de André Guerreiro Lopes e Rodrigo Campos, um mergulho no processo criativo do talentoso pintor goiano Siron Franco.. 

Mulheres
A representatividade também permeou o festival por dentro. Na seleção competitiva de longas, dois dos sete eram dirigidos por mulheres; na de curtas, a proporção subiu para 9 entre os 14. Também foi notável o lançamento da Manifesta Feminista, assinado por várias profissionais e os coletivos Elviras, elaSCine e o DAFB, defendendo uma nova ética da imagem, maior participação feminina em órgãos de decisão e “não exploração irresponsável” dos corpos femininos nas telas, entre outros pontos. Não poderia ter havido encerramento melhor.

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