Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

“Dois Papas” encerra 43ª edição da Mostra

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Dois Papas
A partir das 19h30, nesta quarta (30), no auditório Ibirapuera, a cerimônia de premiação encerra a 43ª edição da Mostra Internacional de Cinema, que resistiu bravamente às incertezas da política e economia apostando no vigor da arte. Até o final de semana, deverá ainda haver uma repescagem de alguns títulos, a ser divulgada.
Logo depois dos prêmios, a atração da noite é a première brasileira de Dois Papas, o novo longa do diretor brasileiro Fernando Meirelles, que já passou pelo Festival de Toronto. Trata-se, mais uma vez na carreira do cineasta, uma coprodução internacional, unindo Inglaterra, Argentina, Itália e EUA, falada quase em sua totalidade em inglês e castelhano, além de algumas partes em italiano e até latim, entre outros idiomas.
Para quem não garantiu seu ingresso, a última chance será uma hora antes da sessão, quando serão distribuídos os últimos 50 ingressos gratuitos, na bilheteria do próprio Auditório. Os demais foram obtidos pelos credenciados na Mostra, que os retiraram até ontem (29).
Diretor conhecido por filmes como Cidade de Deus, Ensaio sobre a Cegueira e O Jardineiro Fiel, Meirelles demonstra mais uma vez uma mão segura para conduzir uma superprodução, filmada em boa parte nas dependências do Vaticano - inclusive na Capela Sistina -, retratando um embate de inteligência e sensibilidade entre dois personagens reais, o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) e o cardeal argentino Jorge Bergoglio, futuro papa Francisco (Jonathan Pryce).
Assinado pelo veterano produtor e roteirista Anthony McCarten (autor do script de A Teoria de Tudo e Bohemian Rhapsody), o enredo começa na eleição de Bento XVI - na qual Bergoglio foi bem votado - e a subsequente crise em que mergulhou a Igreja Católica por conta de escândalos com abusos sexuais de sacerdotes. 
O cerne da história está nestes dois pólos representados pelo papa alemão, um conservador empedernido e apegado à tradição e aos cerimoniais do poder, e o cardeal argentino, religioso despojado, associado a um trabalho junto aos pobres e claramente identificado com os reformistas da instituição. Espertamente, o roteiro os coloca um diante do outro, num encontro mantido na residência de verão do papa, Castel Gandolfo, quando o cardeal argentino vinha com o firme propósito de convencer Bento XVI a deixá-lo aposentar-se.
Toda a rivalidade entre os dois expressa-se numa série de diálogos inteligentes, não raro ferinos, traduzindo com clareza as posições em jogo. Se, de imediato, todos podem ter sua simpatia pelo argentino, o filme trabalha com eficiência no sentido de humanizar também a figura do papa alemão.
Este jogo dramático é muito bem sustentado pela definição de dois personagens cheios de nuances e camadas, interpretados com brio por estes dois grandes atores. Certamente, Bergoglio tem direito a mais flashbacks, mostrando-o em dois momentos definitivos (e aí interpretado, em sua versão mais jovem, pelo argentino Juan Minujín): quando decidiu abandonar a noiva para abraçar sua vocação sacerdotal; e quando viveu a maior crise moral de sua vida, ao decidir suspender dois jesuítas a seu serviço, Yorio e Jalics, de uma missão executada na periferia, que deu pretexto para que militares da ditadura recém-instalada os prendessem e torturassem.
Afinal, trata-se de um ótimo grand finale para a Mostra. Toda esta densidade, além das qualidades da produção - como a fotografia do habitual parceiro de Meirelles, César Charlone -, transformam Dois Papas num espetáculo cinematográfico superior, independente da fé ou ausência de fé religiosa de quem o assistir. Produzido pela Netflix, o filme tem previsão de entrar na plataforma a partir de dezembro. Mas seria ótimo que também tivesse um lançamento nos cinemas, como ocorreu no ano passado com Roma, de Alfonso Cuarón, pois é igualmente um filme que merece ser visto em tela grande.  (Neusa Barbosa)
 
A odisseia dos tontos
Apesar da comédia A odisseia dos tontos situar-se na Argentina do começo do século, seu diretor, o argentino Sebastián Borensztein, acredita que o longa é muito atual e universal. “É uma história que acontece no mundo inteiro. Nenhuma parte do mundo é ingênua com as instituições financeiras, basta olhar, por exemplo, o que está acontecendo no Chile atualmente”, disse em entrevista.
Protagonizado por Ricardo Darín, o longa retrata um grupo de moradores de uma pequena cidade que juntam suas economias para reabrir uma cooperativa agrícola Porém, quando a economia argentina entra em crise, em 2001, percebem que foram enganados pelo gerente do banco e um advogado, que de apoderaram de todo o seu dinheiro. “Quando um grupo de tontos, como eles consegue se unir para recuperar o dinheiro que perderam, é uma sensação muito gratificante para mim.”
Borensztein aponta que o cinema é o lugar perfeito para se fazer aquilo que não se pode fazer na vida. “Nos filmes pode haver a vingança, o derramamento de sangue. O cinema não tem que ser politicamente correto, não tem que ser justo com a lei. No cinema dá para voar com a fantasia, e parte da fantasia de todo mundo é fazer isso.”
Uma das maiores bilheterias nacionais na Argentina – com mais de um milhão de ingressos vendidos  desde sua estreia em agosto -, o diretor acredita que o filme serve como uma catarse para as pessoas. “É uma recepção muito comum em todo lugar onde o filme passa. Foi assim em Toronto, foi assim em San Sebastián, e acho que aqui no Brasil também pode acontecer a mesma coisa.” (o filme tem estreia brasileira prevista para esta quinta, 31/10)
O produtor do longa, Federico Posternak, assinala também que o longa não levanta nenhuma bandeira ideológica e, por isso, acaba sendo acolhido tanto pela direita quanto pela esquerda. “Pessoas de um partido se identificam com um partido e com outros também. Para uns, é um filme peronista, para outros, antiperonista.” O diretor destaca que a equipe era “multi-ideologica”, como define: “Temos o Luis Brandoni, que é antiperonista e o Daniel Aráoz e a Rita Cortese, que são muito peronistas. Então o que fizemos era o mesmo que fazia os personagens: trabalharmos juntos para fazermos um filme bom, passarmos um tempo juntos nos divertindo e tendo bons momentos no set”, completa Borensztein. (Alysson Oliveira)
 
ÚLTIMA SESSÃO: CINEARTE 1 -  30/10/19 - 19:15 
 
O desejo de Ana
O diretor estreante mexicano Emilio Santoyo estava saindo da faculdade de cinema quando descobriu sobre o que queria falar em seu primeiro longa: família, desejo e nostalgia. O resultado é O desejo de Ana, um filme sobre uma mulher apaixonada pelo meio-irmão. “Sei que o incesto é um tema polêmico, mas também pode render boas obras de ficção”, frisou em entrevista ao Cineweb. Trabalhando com sua professora de roteiro, Gabriela Vidal, ele conta que tentou criar uma história sem julgamentos morais.
Além disso, ele destaca que não pretendia escrever uma história incestuosa aos moldes clássicos. “Precisava levar à tela a natureza de Ana e seu irmão, que acabam se apaixonando e vivendo um dilema, enfrentando preconceitos.” Para chegar ao roteiro final, sua pesquisa incluiu especialmente filmes sobre o tema. “Fui percebendo que apenas no Ocidente o incesto é punido. Mas por que punir o amor? Qualquer tipo de amor, entre duas pessoas do mesmo gênero, ou de idades bastante distantes, qualquer coisa.”
Boa parte dos recursos do filme foi captada via crowdfunding. “Descobri que essa pode ser uma forma bastante eficiente para se realizar um filme, especialmente para os cineastas mais jovens. Muitos amigos diretores e diretoras colaboraram com meu filme, depois colaborei na campanha deles. É uma forma alternativa de driblar o sistema, de encontrar maneiras de realizar as produções.” (Alysson Oliveira
 
ÚLTIMA SESSÃO: CINEARTE 2 - 30/10/19 - 14:00

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