III Paulínia Festival de Cinema

Paulínia começa com cópia restaurada de "O beijo da mulher aranha"

Alysson Oliveira

“Fazer O Beijo da Mulher-Aranha foi um milagre. Ou melhor, não foi a mão de Deus. Foi a mão dos profissionais que estavam lá”. É isso que constatou Hector Babenco ao olhar para seu filme O Beijo da mulher-aranha 25 anos depois de sua primeira exibição no Festival de Cannes, onde rendeu a William Hurt o prêmio de melhor ator. “Fizemos o filme quase sem dinheiro, apenas com a cara e a coragem”.
O cineasta, argentino de nascimento, mas radicado no Brasil há décadas, é o homenageado do III Paulínia Festival de Cinema, que em sua noite de abertura, ontem, exibiu a cópia restaurada do filme. Duas décadas e meia depois, O Beijo da Mulher-Aranha ainda impressiona e comove, com sua temática atemporal e universal, interpretações magníficas e trama intricada e, ao mesmo tempo humana, baseada em romance homônimo do argentino Manuel Puig.
 
Durante a coletiva, no  Pólo de Cinema de Paulínia, Babenco contou que rodar esse filme não foi nada fácil. A primeira dificuldade foi convencer Puig a vender os direitos da obra. “Conhecia o romance há anos, e sempre quis adaptá-lo. Durante um ano e meio o visitei, levei doces para ele (o escritor, exilado, morava no Rio na época). Depois estreou uma peça no teatro, que tinha um tom bastante diferente daquele que eu via para a história. Eu queria algo mais sério”.
 
Inicialmente, o homossexual Luis Molina seria interpretado por Burt Lancaster – que Babenco havia conhecido numa viagem aos EUA para receber prêmios pelo seu filme Pixote.  “Foi ele quem  me indicou o Raul Julia [que acabou interpretando o preso político Valentin Arregui]. Quando Burt ficou doente, achei que o filme nem aconteceria mais. Tínhamos pouco dinheiro. Cogitava até em fazer com Paulo José e Chico Diaz. Foi quando Raul me colocou em contato com o William Hurt”, lembrou o diretor.
 
“Quando cheguei para a leitura dramática do roteiro e vi aquele homem de quase dois metros [Hurt], não achei que fosse dar conta de fazer o personagem. Pensei: ‘é um caubói, vai ser uma propaganda da Marlboro’. Mas quando os dois, Raul e ele, começaram a ler, em menos de 10 páginas, ele era como um passarinho de quem haviam cortado as asas”, explica Babenco. Hurt, cuja carreira estava em ascensão naquele momento, por conta de filmes como Corpos Ardentes, aceitou trabalhar por menos do que costumava receber. Apesar de não ter feito o longa, Lancaster, por sua vez, recebeu merecidos agradecimentos nos créditos finais.
 
Babenco confessa que, revendo o filme o acha um pouco acadêmico. “Tem uma disciplina e um rigor que até me envergonham hoje em dia. Mas eu tinha uma necessidade formal muito grande, que talvez nem passe pela cabeça do espectador quando ele vê o filme, mas isso me interessava na época”.
 
Essa é a São Paulo de Babenco
 
A cidade de São Paulo, profusamente mostrada no filme, também mereceu comentários do diretor, nela radicado: “São Paulo é uma das cidades mais feias que já vi. Parece que está sempre de costas. Essa é a São Paulo que eu amo e me interessa. Me identifico muito com a estátua do Borba Gato [na Avenida Santo Amaro, na cidade], algo cafona, mas que é a cara de São Paulo”.
 
O Beijo da Mulher-Aranha  também ganhou, na época do lançamento em cinema,  uma versão dublada em português – com Geraldo Del Rey e Odilon Wagner – para os cinemas. “Foi trabalho jogado fora. A versão original [legendada] teve muito mais público. Mas, ao menos fiquei em paz comigo mesmo. Eu tinha medo de ser tachado por ter feito um filme de temática sulamericana em inglês, com atores não-latinos”.
 
Já a cópia restaurada reestreou no Festival de Cannes, em maio passado, onde abriu a seção Cannes Classics 2010 numa sessão de gala e também em outro dia em digital, numa tenda na praia. Babenco confessou-se espantado com a qualidade do digital. “O celuloide está condenado. Em pouco tempo a cópia junta poeira, fica riscada”. Além disso, Babenco lançou nos últimos meses vários títulos em DVD, como Lucio Flavio – Passageiro da Agonia, Brincando nos Campos do Senhor, Pixote, e o próprio O beijo da Mulher-Aranha.
 
Se por um lado, O beijo da Mulher-Aranha está disponível em DVD, Babenco conta que no passado, na época do lançamento, foi ‘olimpicamente roubado’. “Vendemos os direitos de negociação do filme para um sujeito por US$ 1 milhão. No dia seguinte ele vendeu só o direito da comercialização em VHS por US$ 1,5 milhão. Tudo o que ele ganhou com o lançamento em outros lugares do mundo e em outro formato foi lucro”.
 
Babenco observa que o retorno que teve com o filme foi mais profissional do que financeiro, pois logo depois foi convidado para dirigir um filme nos EUA, Ironweed, e  que, com o salário como diretor, conseguiu comprar sua primeira casa.
 
Atualmente, os produtores do longa, David Weisman e David S. Philips, se associaram e pretendem transformar o longa num objeto de colecionador, como se fosse um quadro ou original de um livro clássico, ou seja, vender não apenas o filme, mas também o material que o cerca, como cenas não usadas na montagem final, versões de roteiro (uma delas escritas por Lancaster) e até cartas de rejeição de estúdios que diziam ser impossível fazer O Beijo da Mulher Aranha. “Isso tudo representa que o filme é uma obra de arte”, comemora Babenco.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança