III Paulínia Festival de Cinema

Cinema, suor e lágrimas em Paulínia

Alysson Oliveira

Sobraram poucos olhos sem lágrimas durante a coletiva de 5X Favela – Agora por nós mesmos no III Paulínia Festival de Cinema, no final da manhã deste domingo, após a exibição do longa em competição na noite de sábado.  Filme coletivo, projeto coordenado pelo cineasta Cacá Diegues, o projeto, em episódios, conta com a direção de sete jovens cineastas que participaram de oficinas. Uma coisa fica bem clara, não só no filme, mas no discurso dos realizadores durante a coletiva: “Nosso filme não é sobre favela. É sobre solidariedade, ética e esperança”, disse Manaíra Carneiro, codiretora do primeiro episódio, Fonte de Renda.
Se o depoimento dos diretores deu-se num tom bem empolgado, os atores foram responsáveis pelas lágrimas – não de tristeza ou melancolia, mas de vitória. O ator Washington Rimas, mais conhecido como Feijão, levou o público da coletiva das lágrimas ao riso. Quem vê o rapaz, que faz parte do AfroReggae, do alto de seu 1,58 m de altura, não imagina o gigante que ele se transforma na tela. Ele mesmo ri disso. Mas foi Cintia Rosa, que participa de um dos episódios mais fortes do filme, quem se emocionou mais. “Em vários momentos quase desisti de ser atriz”, confessa. Se havia alguma dúvida, a sua performance no episódio Concerto para violinos dissipa o questionamento.
Já os diretores, além de tudo, ressaltaram a importância de Diegues, que é diretor de um dos episódios do filme original, de 1961. “É mentira dizer que houve um dedinho do Cacá no filme. Houve muito mais do que isso. A generosidade dele foi enorme”, explica Luciana Bezerra, diretora do último episódio, Acende a Luz.
Como ressalta o título, mais do que levar o pessoal da comunidade às telas, o novo 5X favela dá voz a eles. O original, de 1961, que teve direção de Diegues, Leon Hirszman, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias e Miguel Borges, foi feito por um grupo de jovens estudantes de classe média. “É claro que eles tinham um amor muito grande pela favela. Não fosse isso, não teriam ido até lá fazer o filme”, pondera Luciana.
Alem disso, a homenagem ao longa original está presente em todos os cantos neste longa coletivo, seja no elenco, no qual há participações de Ruy Guerra – montador do antigo segmento de Diegues e que aqui está no elenco, ao lado de Hugo Carvana e Zózimo Bulbul.
A coprodutora – ao lado de Diegues-, Renata de Almeida Magalhães ressalta que o papel deles foi mostrar para o mundo o talento desses jovens. “O projeto foi um exercício de democrático profundo”, acredita. O ator Silvio Guindane complementa: “O projeto é de importância social e nos dá a oportunidade de apresentar ao mundo cineastas de talento”.
 
Histórias reais embaladas em poesia – mas nem todas funcionam
 
Tanto o longa documental quando o curta nacional da segunda noite de competição do festival têm vinculo com a realidade. O documentário São Paulo Companhia de Dança, do fluminense radicado em São Paulo Evaldo Mocarzel, acompanha as preparações para a primeira montagem do grupo de balé que empresta o nome ao título do filme.  Durante o debate com o público, o diretor insistiu na tecla da montagem do filme – segundo ele, repleta de falsos raccord – e na poesia da imagem dos corpos. A bem da verdade, o filme, que não tem falas (ao contrário da maioria dos documentários do diretor) tem lá seus bons momentos. Mas no conjunto é bela embalagem para pouco conteúdo. Filmar dança é algo complicado, pois não é fácil gravar a poesia do momento.
Com argumentos bastante vagos, o diretor defendeu o filme, insistindo na “desconstrução” do espetáculo. Mas em meio a tantas divagações poético-visuais de Evaldo, houve uma constatação bastante ponderada dele mesmo. “Meus filmes funcionam mais quando calo a boca”, como é o caso deste e de Quebradeiras, que lhe rendeu prêmio de direção no Festival de Brasília do ano passado.
Outra história real, mas que ganhou um tratamento ficcional, é o curta Estação, que marca a estreia n direção de Marcia Farias – do poderoso clã de cineastas e atores que inclui Roberto Faria e Reginaldo Farias. O filme, que estreou na competição do formato em Cannes, em maio passado, mostra o cotidiano de uma aspirante a atriz que mora no maior terminal rodoviário da America Latina, o Tietê (SP).
A garota, interpretada por Caroline Abras (Se nada mais der certo) faz do guarda-volumes seu armário, do toalete seu banheiro e do saguão sua sala de estar e quarto. É um filme que conta nas entrelinhas com uma aguçada sensibilidade feminina. A história começou quando Marcia Farias fazia seleção de elenco para uma série de televisão e uma das candidatas contou-lhe sua história de vida – exatamente esta.
 
“A Marcia chegou a pensar na própria garota para fazer o papel”, conta Caroline. “Ela desistiu e, quando eu entrei  no projeto, mergulhei nele. Passei três dias vivendo nas mesmas condições que a personagem. Foram momentos muito duros. Depois disso precisei de um dia para descansar e filmamos em cinco”.
Um dos dias de laboratório foi 10 de novembro do ano passado, quando parte do país viveu um blecaute. “Foram momentos mais do que inusitados. As pessoas começaram a me ligar, preocupadas. E eu falando que estava tudo bem, para me deixarem em paz que eu estava lá trabalhando”, relembra, agora, rindo da história.
Márcia não pode vir para o Paulínia Festival de Cinema, pois está em Tocantins, trabalhando com o cineasta Cao Hamburguer na pré-produção de seu próximo longa, Xingu. Fabiano Gullane, produtor do curta, explica que ele e a diretora já estão pensando num projeto para ela estrear na direção de longas em breve. Além disso, ele se orgulha que nos últimos anos sua empresa se tornou celeiro de talentos, ao revelar curtametragistas que hoje são cineastas de renome, como Eliane Caffé e Laís Bodanzky. “Gostamos de ter um relacionamento com novos diretores, descobrir talentos”. E Marcia prova tê-lo de sobra em seu curta. Que seja o começo de uma bem sucedida carreira.

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