III Paulínia Festival de Cinema

Filmes com Marcelo Serrado e Regina Casé elevam o nível da competição em Paulínia

Alysson Oliveira

A ficção “Malu de Bicicleta”, de Flavio Tambellini, baseada no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva, levantou as expectativas e a qualidade das ficções em competição no III Paulínia Festival de Cinema, depois de sua exibição na noite de terça-feira. O longa é protagonizado por Marcelo Serrado e Fernanda de Freitas, que fez “A casa da mãe Joana” e está no programa de televisão “S.O.S. Emergência”.
 
Ao lado do coletivo “5 X Favela – Agora por nós mesmos”, exibido no sábado, “Malu de Bicicleta” desponta como um dos melhores longas de ficção do festival. Os dois apresentaram um nível muito superior de realização em relação a outros dois concorrentes “As 12 Estrelas”, de Luiz Alberto Pereira, e “Dores & Amores”, de Ricardo Pinto e Silva, exibidos sexta e domingo, respectivamente.
 
Hoje à noite, última competitiva do festival, serão exibidos o documentário “Lixo Extraordinário”, de Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim, e a ficção “Bróder”, de Jefferson De. As premiações serão anunciadas na noite de amanhã.
 
Marcelo Serrado entrou no longa desde seu início e também assina como produtor. O ator convidou Flavio Tambellini para a direção, que abraçou o projeto logo de cara. “É um filme que tem sua inspiração em Woody Allen e em ‘Beijos Roubados’ [de François Truffaut]. Queríamos fazer uma comédia introspectiva”, ressaltou o ator, numa coletiva de imprensa.
 
Quando a questão são as referências de “Malu de Bicicleta”, o diretor e Fernanda ressaltam que o romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, também foi uma influência. “O Flávio [Tambellini] me falou que não estávamos adaptando Machado de Assis, mas a questão da dúvida sobre a traição é a mesma. Até fui reler o livro e percebi uma série de paralelos. A insegurança está na cabeça do protagonista, não de Malu”, explica a atriz.
 
Em “Malu de Bicicleta”, previsto para estrear em circuito em novembro, Serrado é um empresário da noite paulistana, que vive romance fugazes até  se apaixonar pela carioca Malu, que o atropela com uma bicicleta na orla de uma praia do Rio de Janeiro. O jeito espontâneo da garota e uma série de coincidências infelizes instalam uma grande dúvida na cabeça do rapaz: estaria sendo traído?
 
Tambellini, que já dirigiu “Passageiro, Segredos de adultos” (2006) e “Buffo e Spalanzani” (2001), contou que há alguns anos queria fazer um filme sobre relacionamentos. “Nunca pensei em fazer uma comédia romântica aos moldes tradicionais. Buscava falar da insegurança de se gostar de alguém, da paranóia em que isso pode se transformar”.
 
O clima no set de filmagem, como ressaltou Marcelo Rubens Paiva, que também assina o roteiro além da obra original, era de total cumplicidade. “É muito bom para um roteirista ter a chance de visitar as filmagens, ter ideia de como um filme é feito, poder opinar”. O diretor de fotografia do longa, Gustavo Hadba (“Lula, o filho do Brasil”), ressalta a generosidade de Tambellini: “O filme é coletivo. O Flávio nunca fala ‘meu filme’. É sempre ‘nosso filme’. Seria legal se mais projetos fossem feitos com essa modéstia e coletividade como ‘Malu de Bicicleta’”.
 
Do rádio para o cinema
 
“Gosto muito de velho, mas não pode ser muito chato. Se for médio chato eu aguento.” Foi com frases como essa que a humorista e apresentadora Regina Casé animou o debate sobre o longa “Programa Casé”, que tem como figura central o seu avô, um dos pioneiros do rádio no Brasil, Adhemar Casé. Também exibido na noite de terça, e dirigido por Estevão Ciavatta, marido de Regina, o filme resgata a trajetória de Adhemar Casé, que em 1932, foi o responsável pelo primeiro programa de rádio comercial do país.
 
“Uma das minhas preocupações era não cair num filme que se tornasse apenas uma homenagem familiar”, explicou o diretor. “Alguns depoimentos, inclusive, ficaram de fora porque acabaríamos resumindo a importância dele à família”.
 
A própria Regina contou que ficou brava com o marido quando viu a versão final do documentário. “A minha família deu mil depoimentos, inclusive eu. Quando vou ver o filme pronto tem três depoimentos meus, e em dois deles eu falo mal do meu avô, que é uma pessoa que eu amo”, conta com seu conhecido bom humor. “Quem sabe ele [o diretor] não coloca como extra no DVD”.
 
Ciavatta, que atualmente prepara sua primeira ficção em longa metragem, “Saara”, foi o último a entrevistar os músicos Braguinha e Dorival Caymmi, mortos em 2006 e 2008 respectivamente. O projeto começou no final dos anos de 1990, quando a família de Regina guardou na produtora do casal material sobre Adhemar. O diretor, que tem em seu currículo o premiado curta “Nelson Sargento no Morro da Mangueira”, começou a vasculhar esse arquivo e descobriu um material rico.
 
Mas, como Regina fez questão de ressaltar mais de uma vez, durante a montagem do filme, tiveram problemas com diretos autorais de imagens que não eram desse arquivo e seriam usadas para ilustrar depoimentos de Adhemar, especialmente aqueles que foram concedidos a programas de rádio.
 
Ela comentou que tem enfrentado esse mesmo problema com seu programa de televisão “Um pé de que”, exibido pelo canal educacional “Futura”. “Todo mundo no Brasil acha que tudo é o Mickey Mouse e vai dar um baita dinheiro. Fizemos um programa em que eu queria citar Guimarães Rosa, mas não podemos, os direitos são caríssimos, mesmo sendo um programa educacional que vai levar a obra do escritor a mais gente”, reclama Regina.

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