Gramado realiza sua edição mais aguerrida

Gramado realiza sua edição mais aguerrida

Neusa Barbosa, de Gramado

Marcada por protestos e defesa do cinema diante de cortes e ameaças de censura, o festival gaúcho tornou-se palco de resistência, sem deixar de contemplar a criatividade - que se expressou, de maneira particular, no grande vencedor desta edição, o cearense Pacarrete, de Allan Deberton. 
 
A política cruzou o tapete vermelho de Gramado em 2019. Mais uma atitude de autodefesa e reivindicação de respeito do que qualquer manifestação partidária, diante das seguidas ameaças e cortes promovidos pelo governo federal - cujos representantes, que passaram por eventos de mercado do festival, mostraram-se surdos às reivindicações do setor audiovisual, que movimenta uma fatia nada desprezível da combalida economia brasileira. Como aponta a Carta de Gramado, documento assinado na cidade gaúcha por 63 entidades, a cadeia produtiva do setor movimenta mais de R$ 25 milhões por ano, representando 0.46% do PIB nacional. Tem uma taxa de crescimento de 8.8% ao ano e é responsável por mais de 330 mil empregos.
 
Contrariando o protocolo normalmente polido e celebratório do segundo festival mais antigo do Brasil - 47 anos sem interrupção, quando Brasília, o mais antigo, não aconteceu por dois anos -, quase todas as noites, diretores, atores e técnicos foram apresentar seus filmes como quem vai para a guerra, engajados na batalha da defesa de sua arte e de seu trabalho, que exigem respeito. Houve indignação, protestos e poesia, porque é assim que os artistas se expressam - e, mais do que nunca, isso é necessário.
 
O fenômeno Pacarrete
 
Pacarrete, este mágico filme cearense, levou oito merecidos Kikitos - incluindo melhor filme para os júris oficial e popular, melhor direção (para o estreante em longas Allan Deberton), melhor atriz para a iluminada Marcélia Cartaxo e melhor coadjuvante para Soia Lira. Foi, sem sombra de dúvida, o melhor filme brasileiro desta edição, combinando uma originalidade de linguagem com interpretações inspiradas de um elenco sublime, instaurando, com rigor, um clima mesclando fantasia, realismo e crítica social com impressionante segurança. 
 
Pacarrete, antes de tudo, é um filme que faz sonhar e empolga pela luta individual de sua peculiar protagonista, que empresta seu nome da palavra francesa que define um tipo de margaridinha e homenageia em sua linhagem diversas heroínas do cinema, passando pelas mulheres de Giulietta Masina, Amélie Poulain e um quê de Charlie Chaplin, até. 
 
Nem por isso, esta Pacarrete elegante, coquete, é desprovida de pontas - sua inteligência, cultura, independência são contrabalançadas por uma certa teimosia e impertinência. Mas nenhuma atriz melhor do que Marcélia para encarnar esta mulher às vezes engraçada, às vezes curiosa, às vezes patética, numa jornada solitária contra um mundo que se estupidifica a passos largos - esta uma metáfora até política, num dos inúmeros caminhos abertos por essa história  de apelo universal, cujas camadas somente visões reiteradas do filme poderão contemplar.
 
Ao lado do singular filme cearense, desfilaram por Gramado outras visões de cinema - como a crítica social de tempos de redes sociais enfurecidas esboçada sem total sucesso em O Homem Cordial (foto), de Iberê Carvalho, que registra outra interpretação inspirada do ex-Titã Paulo Miklos; mais um representante das biografias sanitizadas de pessoas reais registrada em Hebe - A Estrela do Brasil, que só tem mesmo a seu crédito a interpretação dedicada de Andréa Beltrão; o melodrama nostálgico Veneza, de Miguel Falabella, que conta com um luminoso elenco de atrizes (Carmen Maura, Dira Paes e Carol Castro, esta premiada também como melhor coadjuvante em Gramado) mas peca por uma visão um tanto datada e romantizada da prostituição e um ineficiente manejo da construção da fantasia no cinema; a competente construção do drama Raia 4, do estreante Emiliano Cunha, num drama ambientado no universo adolescente e no mundo das competições de natação, marcando novo território para um cinema gaúcho antigamente tão marcado pelos épicos; Vou Nadar até Você, de Klaus Mitteldorf, que se enamora da beleza de Bruna Marquezine como uma filha à procura do pai; e 30 Anos Blues, dos diretores Andradina Azevedo e Dida Andrade, vencedor de um inacreditável Prêmio Especial do Júri, que se afoga na inconsistência de um retrato egotríptico do vazio de seus personagens masculinos. 
 
A surpresa costarriquenha
Vindas de um país sem tradição cinematográfica na América Latina e, segundo os realizadores que vieram a Gramado, sem leis de incentivo à produção, foi uma grata surpresa constatar a qualidade de dois filmes da pequena Costa Rica - com El despertar de las hormigas (foto), de Antonella Sudassassi Furnis, que levou o troféu de melhor longa estrangeiro para a crítica e menção honrosa para suas duas atrizes mirins (Isabellla Mozcoso e Avril Alpizar); e o fascinante Las Dos Fridas, de Yshtar Yasin, que obteve menção honrosa para sua espetacular direção de arte.  
 
Dirigidos por mulheres, os dois filmes pontuam temas femininos de maneira muito distinta. Primeiro longa da diretora, El despertar de las hormigas delimita, através de imagens repletas de detalhes, não raro dispensando diálogos, a situação de opressão das mulheres que, desde a infância, são treinadas a servir os homens, sempre sentados à mesa enquanto elas se movimentam sem descanso. Potencializando as tensões crescentes, o filme focaliza os dilemas de sua protagonista (Daniella Valenciano), uma jovem mulher casada, pressionada pelo marido (Leynar Gómez) a ter um terceiro filho, o que a conduz numa jornada de auto-afirmação à qual o marido não escapa ileso. Talvez uma das grandes qualidades deste filme sutilmente intenso é sublinhar caminhos alternativos para contornar a violência de gênero.
 
Jogando numa chave mais surrealista, Las Dos Fridas (foto) recupera uma figura essencial na vida da pintora mexicana Frida Kahlo (interpretada com verve por Yshtar Yasin), a enfermeira Judith Ferreto (Maria de Medeiros). Há todo um clima onírico permeando a relação destas duas mulheres incríveis, que viveram uma trajetória parecida - o caso do acidente de automóvel - e trocaram sentimentos neste cuidado de uma pela outra, ao qual não falta um enfrentamento. 
 
É fascinante como a diretora, uma russo-iraquiana que foi viver no México para captar a essência de suas personagens, inscreve a presença da Morte - que ganha até uma encarnação humana, além de ser chamada por alguns de seus muitos nomes na cultura mexicana, injetando um tom fantástico que se consolida na ótima sequência final. Nesta, convocam-se personagens essenciais do século XX, do astronauta Yuri Gagárin a Karl Marx, passando pelo dramaturgo Antonin Artaud, o poeta André Breton, o psicanalista Sigmund Freud e o revolucionário Leon Trotsky, entre outros, materializando um verdadeiro “renascimento da utopia que alimentou a geração de Frida”, como disse Yshtar em Gramado.
 
Curtas
Uma grande variedade de estilos e técnicas norteou a irregular seleção de curtas, que incluiu desde uma animação de técnica espetacular e conteúdo realista como Sangro (foto), de Tiago Minamisawa e Guto BR, até uma pegada de realismo fantástico encharcada de Guimarães Rosa, no curta mineiro Teoria sobre um planeta estranho, de Marco Antônio Pereira. 
 
Amor aos 20 anos, de Toti Loureiro e Felipe Arrojo Boroger (SP), remeteu, desde o título, a François Truffaut, atualizando a dinâmica dos desencontros do romance. Ganhador do prêmio de melhor atriz para Cássia Damasceno, A mulher que sou, de Natalia Tereza, abriu caminho para uma saudável renovação do estereótipo da mulher madura que, sim, ama, transa, sonha. Invasão espacial, de Tiago Foresti (DF),por sua vez, tematiza, como um antidocumentário, o efeito avassalador da base de Alcântara (MA) sobre as populações ao seu redor, impactante e misteriosa como um disco voador. 
 
Numa chave mais realista e socialmente relevante, foram notáveis Marie, de Leo Tabosa, premiado pelo júri da crítica, melhor ator (Rômulo Braga), o prêmio aquisição Canal Brasil e o prêmio especial do júri para Wallie Ruy, a impressionante mulher trans desta história do reencontro de dois amigos; e também Menino Pássaro, prêmio de melhor direção para Diogo Leite, um relato baseado em fatos reais, sobre preconceito e violência contra um adolescente sem teto, abrigado numa árvore no elitizado bairro paulistano de Higienópolis.  
 
Fotos de Pacarrete: Luiz Alves/Divulgação

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