Cannes 2019

Tarantino divide opiniões, Bong Joon Ho impacta

Neusa Barbosa, de Cannes

Como se esperava, Cannes parou ontem para ver o novo filme de Quentin Tarantino, Once Upon a Time in Hollywood, uma frenética fusão de homenagens dentro do mundo do cinema, a começar pelo título, que tira o chapéu para um dos mestres idolatrados pelo diretor norte-americano, o italiano Sergio Leone.

Embora o spaghetti western seja bastante citado ao longo do caminho - Sergio Corbucci, o diretor do Django de 1966, será explicitamente lembrado -, o centro da história é a indústria de sonhos da Hollywood de 1969, cujas entranhas são mostradas através da amizade entre um ator de seriados e faroestes, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), e seu motorista e dublê, Cliff Booth (Brad Pitt).

Pelo perfil de ator que está no centro dos acontecimentos, logo se vê que se trata de uma dupla de outsiders, não da “grande” Hollywood, mas dessa máquina que oferece sem parar produtos de entretenimento que não são tidos como “nobres”, mas alimentam a imaginação e a diversão de milhões de pessoas e são, portanto, parte essencial que faz funcionar toda a engrenagem.

Astros consagradíssimos, DiCaprio e Pitt aproveitam deliciosamente a chance de se entregar a personagens tipo B, bem longe do que representam na vida real. Rick é um ator muito ativo, não tendo medo de encarar vilões em todos os seriados e faroestes, ainda que isso represente que ele sempre morre no fim - e é por aí que um produtor, Schwarz (Al Pacino), procura convencê-lo a dar um tempo de Hollywood, dirigindo-se à Itália dos spaghetti westerns.

Reais, mas não muito

Há várias referências a personagens reais por aqui e Clint Eastwood, que foi atuar em spaghetti westerns, é apenas uma delas. Há inúmeros personagens reais, com seus próprios nomes, caso de Steve McQueen (Damien Lewis) e, o caso mais dramático, Sharon Tate (Margot Robbie) e Roman Polanski (Rafal Zawierucha) - então um dos casais mais famosos de Hollywood, na esteira do sucesso de O Bebê de Rosemary (1968).

Todo mundo pode saber a tragédia real que acometeu aquele casal, em 1969 praticada por jovens adeptos do fanático Charles Mason (Damon Herriman). Mas documentário não é, decididamente, o gênero de Tarantino. Ele revisita a História para recontá-la, para injetar novos pontos de vista, como fez em Django, ou em Bastardos Inglórios. E mais não se diga sobre isso, para não dar spoiler.

Os temas dentro do filme são inúmeros - a angústia de Rick sobre se deve ou não ir para a Itália, seus problemas com alcoolismo (aí, a lista de astros com perfil  semelhante é infinita) e as dúvidas sobre o próprio talento. Ao seu lado, o dublê Cliff é um suporte, amigo para todas as horas, injetando confiança.

Pitt compõe com muita segurança um tipo durão, que é suspeito de ter matado a mulher num barco - um caso muito semelhante, por exemplo, ao da atriz Natalie Wood - e que representa, de várias maneiras, uma masculinidade com alguma toxicidade. Mas isso tem nuances. Quando ele segue uma das adeptas de Mason (Margaret Qualley) até o rancho Spahn, onde eles viviam placidamente, guiando passeios a cavalo, naquela altura, ele se mostra surpreendentemente prudente diante da desinibição da garota.

Na pele de Sharon Tate, que tem uma participação pequena e marginal na narrativa, centrada no relacionamento de Rick e Cliff, Margot Robbie destacou, na coletiva de imprensa, ter procurado retratá-la “como um raio de luz” - que foi como ela lhe foi descrita por muitas das pessoas que a conheceram. Mesmo não tendo muitas falas no filme - uma observação que irritou Tarantino na coletiva, quando foi feita por uma repórter do The New York Times - , Margot realmente resplandece numa sequência em que vai a um cinema assistir a um filme de que participou, a comédia Arma Secreta contra Matt Helm (1968), em que contracena com Dean Martin.

Quem espera violência, sabe que é só uma questão de tempo. Há toda uma grande sequência no fim em que comparece aquele Tarantino capaz de se esbaldar no sangue na tela. Na coletiva, ele admitiu que este filme é uma espécie de soma de todos os oito anteriores. Ele remexeu na panela de Hollywood, que ele conhece com uma obsessão de nerd, mas sobretudo na própria auto-referência. Entretanto, a mistura não parece magistral. O filme apaixonou muitos, mas desagradou outros tantos.

Radical sul-coreano
O cinema sul-coreano, que sempre impressiona Cannes - ano passado, Em Chamas, de Lee Chang-dong, levou prêmio da Fipresci, mas poderia muito bem ter arrebatado a Palma de Ouro - este ano está muitíssimo bem-representado pelo já veterano Bong Joon-Ho e seu impactante Parasite. É, provavelmente, o filme mais criativo e impressionante de toda a seleção, a ponto de ter levantado um cheiro de Palma de Ouro.

Também é o tipo de filme sobre o qual dar spoilers é um crime hediondo. O diretor, conhecido no Brasil por O Hospedeiro e Expresso do Amanhã, é muito seguro na condução de um clima de suspense quando coloca os quatro membros de uma família pobre, desempregada, um a um conseguindo adentrar a casa de uma família rica, os Park. Tudo começa quando o jovem Ki-woo (Woo sik-Choi) torna-se professor particular da adolescente da casa (Jung Ziso). Logo a seguir, acha uma brecha para que sua irmã (So-dam Park) se torne professora de desenho do garotinho da família (Jung Hyeon-jun) - escondendo dos patrões seu parentesco. Na sequência, seus pais (Kang-ho Song e Hyae Jin Chang) também tomarão os lugares do motorista e da governanta, sem que os Park saibam que são todos parentes.

Há um perverso senso de humor negro nestas maquinações da família pobre, que mora num cortiço, um ambiente que contrasta absurdamente com a ampla e elegante residência dos Park, que foi projetada por um arquiteto. O abismo social e a  luta de classes vão assumindo caminhos imprevisíveis, num filme que sonda a emergência econômica e as vilanias humanas em tempos críticos.

Parasite tem um ritmo avassalador, que deixa o espectador inquieto, pensando - afinal, como tudo isto vai acabar? O filme é uma pancada. Uma não, várias, a ponto de deixar o espectador atordoado, mas feliz. A sessão de imprensa da noite de terça, na sala Debussy, foi a em que se ouviram os aplausos mais entusiasmados até aqui. Vamos ver se o júri sente o mesmo.


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