Começa a repescagem com destaques da Mostra

MOSTRA 2018 - Retratos de família e documentários de personagens famosos

Equipe Cineweb
Mergulhos familiares profundos, como no turco A árvore dos frutos selvagens, de Nuri Bilge Ceylan, no drama peruano Retablo, de Alvaro Delgado Aparicio, e no britânico Ray & Liz, de Richard Billingham, e documentários, como Procurando por Ingmar Bergman, da alemã Margarethe von Trotta, e A valsa de Waldheim, da austríaca Ruth Beckermann, são algumas das melhores pedidas desta terça (23) na Mostra. 
 
A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS
Diretor de Distante (2002), Climas (2006), Três macacos (2008), Era uma vez na Anatólia (2011) e Sono de Inverno, que lhe deu a Palma de Ouro em 2014, 
o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan compôs neste novo e potente trabalho um incisivo mergulho num núcleo familiar.
A partir da volta para casa de Sinan (Aydin Dogu Demirkol), numa cidadezinha do interior, depois da formatura na universidade, explodem as contradições de uma família disfuncional, sofrendo as consequências do vício no jogo do pai, o professor Idris (Murat Cemcir).
Como sempre, a narrativa evolui com sutileza, revelando-se aos poucos através de um excelente trabalho de câmera (de Gökhan Tiryaki) e em diálogos profundos, explorando não só as vicissitudes familiares, como os dilemas de uma juventude que, mesmo dispondo de um diploma universitário, não encontra trabalho, muitas vezes tendo de engajar-se na polícia ou no exército por falta de opções. O filme turco traça assim o retrato de novas gerações sem saída, que foram objeto também do competentíssimo russo Verão, de Kirill Srebrennikov, e, numa outra chave, do sul-coreano Em Chamas, de Lee Chang-dong, todos eles parte da competição em Cannes 2018 e atrações da programação desta 42ª Mostra.
O denso roteiro de A Árvore dos Frutos Selvagens, da autoria de Ceylan, Ebru Ceylan e Akin Aksu, comenta também as divisões de pensamento dentro da comunidade religiosa, num longo diálogo entre dois imans e o protagonista Sinan, numa longa sequência que os acompanha na descida de uma montanha, de intensa beleza visual, inclusive. É o tipo do filme de que se poderia falar muito, ainda mais que se estende ao longo de 3 horas e oito minutos – e também que se pode assistir muitas vezes para descobrir novas camadas. Os atores também são extraordinários. (Neusa Barbosa)

CINESALA                                23/10/18 - 19:45 - (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA POMPÉIA 1         24/10/18 - 21:00 -(Quarta)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               26/10/18 - 14:00 - (Sexta)
CINESESC                                27/10/18 - 18:00 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   31/10/18 - 15:30 - (Quarta)

RETABLO
Este primeiro filme de Alvaro Delgado Aparicio L., é um estudo delicado sobre as dores do amadurecimento de um adolescente numa região montanhosa e isolada do Peru. Ele é Segundo (Junior Bejar) filho de um artista de retábulos (Amiel Cayo).
O menino pensa em abandonar a região, ir tentar a vida em outro lugar em alguma plantação, mas sua mãe (Magaly Solier) adverte: “Você, como seu pai, é um artista.” E Segundo tem profunda admiração pelo pai, até o dia em que presencia algo que não compreende direito e sua vida sai do eixo.
Na região onde mora, retábulos são como retratos para uma família rica. Todos se reúnem e, ao invés de uma foto, o artista fará pequenas esculturas das pessoas que serão colocadas numa caixa de madeira decorada. As cores vibrantes, típicas da cultura peruana, acrescentam uma nova camada estética para o filme.
Mas esse é o retrato de uma intolerância, do doloroso processo no qual Segundo deixa de ser adolescente e se torna adulto. Delgado Aparicio L. constrói a narrativa sem pressa, o que não quer dizer que seu filme seja lento, apenas que precisa de um tempo próprio para que as coisas aconteçam – talvez um tempo parecido com o da região onde vivem os personagens. (Alysson Oliveira)

CIRCUITO SPCINE OLIDO - 23/10/18 - 19:00 (Terça)
CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 -VILLA LOBOS24/10/18 - 15:10 (Quarta)
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP - 27/10/18 - 19:00 (Sábado)

RAY & LIZ
O cinema de realismo social britânico é elevado a outro patamar em Ray & Liz, a estreia na direção do fotógrafo Richard Billingham, um claro discípulo de Mike Leigh e Terence Davies. Isso não quer dizer, no entanto, que ele faça mera cópia do cinema praticado por esses dois cineastas. Aliando sua formação como artista, aqui ele encontra um rigor formal essencial à atmosfera de claustrofobia nesse filme inspirado em sua infância.
O Ray e a Liz do título são os pais do diretor. Três episódios tentam dar conta da história da família Billingham na cidade de Birmingham. Os pais podem dar título ao filme, mas são os dois filhos pequenos o centro da ação. O ponto de partida – estético, narrativo e até emocional – do filme é uma série de fotos que Richard fez dos pais e do irmão caçula, publicadas num livro chamado Ray’s a laugh.
Os anos do filme são os de 1980, quando o proletariado inglês vive sob a austeridade do neoliberalismo de Margaret Thatcher. O resultado é avassalador e, ao mesmo tempo, engraçado e terno, pois boa parte da ação é vista pelos olhos do irmão caçula, um garoto com muita energia, tempo e criatividade sobrando, que, aos 11 anos, foi retirado da guarda dos pais, acusados de negligência.
São episódios como esse que se apresentam no filme de maneira direta, sem floreios, o que não quer dizer que Ray & Liz não tenha um grande poder emocional. A fotografia de Daniel Landin (Sob a pele) dá um quê de envelhecimento às imagens, criando uma história do passado em movimento, viva, que está acontecendo enquanto se narra, muito embora a moldura do filme seja dada por um Ray (Patrick Romer) já idoso, relembrando sua família.
O casal é interpretado por Justin Salinger e Ella Smith, que criam um par de personagens memoráveis, cujas presenças são sentidas mesmo quando estão fora de cena – como no primeiro episódio, no qual o Tio Lol (Tony Way), que deveria tomar conta do caçula, toma um porre homérico, incentivado pelo inquilino dos Billingham.
Como a inglesa Andrea Arnold (especialmente em seus primeiros filmes Red Road e Fish Tank), Richard Billingham aborda a cultura da classe trabalhadora com um olhar de dentro para fora. Os personagens, por isso mesmo, são extremamente humanos e convincentes. A pobreza e as dificuldades da vida nunca são um fetiche estético ou narrativo, mas as condições que transformam essas pessoas exatamente no que elas são. (Alysson Oliveira)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 - VILLA LOBOS 23/10/18 - 13:40 (Terça)
CINEMATECA - SALA BNDES - 28/10/18 - 16:00 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1- 29/10/18 - 21:40 (Segunda)

PROCURANDO POR INGMAR BERGMAN
Dirigido pela cineasta alemã Margarethe von Trotta (Anos de Chumbo), o documentário explora zonas sombrias e luminosas da vida e da obra de um dos mais importantes realizadores de todos os tempos, o sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Partindo de sua própria fascinação com O Sétimo Selo (1957), que a estimulou a tentar a direção, Margarete entrevista diversas pessoas, como o cineasta Ruben Ostlund (The Square), dois filhos de Bergman, Liv Ullman, Olivier Assayas (cujas análises da obra do colega fornecem alguns dos melhores insights do filme).
Hábil diretora, Margarethe consegue colocar-se dentro do filme sem ser banal, demonstrando grande sagacidade e leveza nestas conversas verdadeiramente iluminadoras, percorrendo também alguns lugares caros a Bergman, como sua adorada ilha de Farö, da qual ele foi, até agora, o habitante mais ilustre.
Precede o longa o hilariante curta de animação Vox Lipoma, de Jane Magnusson e Liv Stromquist, que derrete qualquer reverência pelo mestre sueco imaginando que um antigo sinal em seu rosto ganha vida e se torna uma espécie de consciência falante e questionadora de alguns aspectos polêmicos de sua personalidade, como sua compulsiva sedução de mulheres. (Neusa Barbosa)

ITAÚ CULTURAL - Sala Itaú Cultural      23/10/18 - 19:00 - Sessão: 508 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   29/10/18 - 21:20 - Sessão: 1011 (Segunda)

A VALSA DE WALDHEIM
O documentário explora a questão do polêmico passado nazista do ex-secretário geral da ONU, o austríaco Kurt Waldheim. Ele sempre negou este passado, mas documentos que surgiram quando ele concorreu à presidência de seu país – que ele comandou entre 1986 e 1992 – comprovaram que ele omitiu de seu currículo sua passagem pelas fileiras da SS nos anos 1940, quando integrou batalhão que promoveu massacres na região dos Bálcãs e da Grécia.
Basicamente, o filme é construído com materiais de arquivo, inclusive alguns produzidos pela própria diretora, Ruth Beckermann, uma ativista na Áustria nos anos 1980. Neste momento em que a própria Áustria e outros países europeus assistem a um ressurgimento do neonazismo e ideologias de extrema-direita, o documentário constitui material incontornável. (Neusa Barbosa)

CINEARTE PETROBRÁS 2                    23/10/18 - 16:00 - (Terça)
CINESALA                                28/10/18 - 19:40 - (Domingo)

BELMONTE
O filme uruguaio, escrito e dirigido por Federico Veiroj, é um curioso estudo de personagem, no caso, o do pintor quarentão e divorciado Belmonte (Gonzalo Delgado). Sua ex-mulher (Jeannette Sauksteliskis) está casada de novo e prestes a ter um bebê, o que acrescenta mais um tempero à sua crise existencial neste momento.
A vida profissional dele, no entanto, é um sucesso. Ele pinta quadros estranhos, de homens nus, de bocas escancaradas e posições esquisitas, que fazem grande sucesso entre clientes da elite econômica. Mas esse dinheiro não lhe traz qualquer conforto, bem como o fato de ele ser disputado sexualmente pelas madames que compram seus quadros.
Sua filha de 8 anos, Celeste (Olivia Molinaro Eijo), é sua grande companhia. Ela também está em relativa crise, diante do iminente nascimento do irmão. De certo modo, ela e o pai compartilham este momento de transição, de não saber muito bem que lugar ocupam no mundo. O filme capta muito bem e com leveza esta fluidez de existência dos personagens, embalados em situações de dia a dia, sem muito discurso. Mesmo abordando tanta coisa, o filme é enxuto e curtinho. (Neusa Barbosa)

CINUSP NA ECA - USP                     23/10/18 - 19:00 - Sessão: 455 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   26/10/18 - 21:00 - Sessão: 775 (Sexta)

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