Começa a repescagem com destaques da Mostra

MOSTRA 2018: Dramas policiais e perfis contemporâneos são atrações da quarta

Equipe Cineweb
Outra atração de Cannes 2018, Amor até às cinzas, de Jia Zhang-ke, começa a ser exibido na Mostra, assim como O Barco, novo filme do autoral diretor cearense Petrus Cariry. O pacote de atrações inclui ainda o drama norte-americano Friday’s Child, com Tye Sheridan e Imogen Poots, o documentários Las Sandinistas e o drama argentino O Anjo.
  
FRIDAY’S CHILD
Não é preciso saber que o diretor A. J. Edwards trabalhou na montagem de dois filmes de Terrence Malick (Amor pleno, Cavaleiro de copas) para notar a forte influência do cineasta veterano em Friday’s child – protagonizado por Tye Sheridan, que foi revelado em A árvore da vida, também de Malick.
Sheridan é Richie, que acaba de completar 18 anos e, depois de uma vida com uma série de famílias adotivas, finalmente deverá seguir seu rumo. Ele aluga uma pequena casa, consegue um emprego que paga pouco, por isso tem de trabalhar em dois turnos. Ele tenta andar na linha mas parece faltar algo ao rapaz, que é de poucas palavras e não muito seguro de suas ações. Ele acaba conhecendo Swim (Caleb Landry Jones), dono de uma energia avassaladora – mas também de uma tendência de destruição que tira o protagonista dos trilhos.
Logo a polícia está batendo na porta de Richie, acusando-o de um crime, que não sabemos se cometeu ou não. O rapaz pensa em fugir, mas acaba conhecendo Joan (Imogen Poots), uma personagem que entra de forma quase banal em Friday’s child, mas muda toda a configuração da vida do protagonista e da narrativa. Ela se torna a pessoa que o rapaz nunca teve em sua vida, algo que o ancora, ainda que o passado insista em bater à sua porta.
A fluidez da câmera de Edwards lembra claramente a de Malick. A leveza com que as imagens correm dão uma urgência e atemporalidade à história, cuja fotografia, de Jeff Bierman, é sempre luminosa, especialmente quando evidencia as diferenças entre a paisagem natural e a arquitetura construída pelo homem. A trilha sonora de Colin Stetson também contribui para criar um clima onírico que, de tempos em tempos, flerta com o pesadelo.
A influência de Malick e admiração de Edwards por ele são claras. O que não é necessariamente um problema, mas é preciso que o diretor, que está em seu segundo longa, encontre um caminho e voz próprias. Talento ele tem, seja na condução da narrativa, na criação de personagens, ou na construção de imagens. Por isso é de se prestar atenção nas obras futuras dele – especialmente se conseguir deixar o mestre de lado e falar por si próprio. (Alysson Oliveira)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 - VILLA LOBOS24/10/18 - 17:10 (Quarta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 27/10/18 - 17:40 (Sábado)

GAROTAS EM FUGA
Dirigido pela francesa Virginie Gourmel, trata-se de uma espécie de versão adolescente belga de Um estranho no ninho. Começa com uma garota, Kathy (Lisa Viance), sendo levada à força para uma instituição psiquiátrica. A diretora e roteirista conta, em entrevista ao Cineweb, que o universo adolescente – especialmente de filmes como Conta comigo – é o que mais a interessou para realizar seu longa de estreia. “São personagens que me fascinam, é uma fase da vida repleta de possibilidades”.
Filmado em Liége, essa produção belga contou com uma clínica psiquiátrica de verdade como cenário. “Pudemos usar uma parte que não estava em atividade. A direção de arte criou a decoração dos quartos e tudo mais, mas o cenário era real”. Isso ajudou na construção do clima e verossimilhança do filme. Além disso, ela contou com a consultoria de um médico que realmente criou os tratamentos com remédios, pelo qual passa o trio de garotas do filme.
O roteiro, assinado por Micha Wald, tem a estrutura de road movie, no qual as garotas encontram diversas pessoas pelo caminho. Antes de rodar o filme, a diretora fez o trajeto de suas personagens, escolhendo locações e trabalhando com a equipe de direção de arte.
As cenas na instituição, no entanto, não duram muito, pois logo Kathy foge para encontrar seu pai. Junto dela, vão duas novas amigas: Nabila (Yamina Zaghouani) e Carole (Noa Pellizari). Gourmel conta que encontrar o trio de atrizes foi um longo processo, sendo todas as escolhidas estreantes. “Trabalhar com cada uma delas foi desafio diferente. Lisa é mais calada, introspectiva. Precisei criar jogos e encenações para que pudéssemos criar a personagem. Já Yamina é o oposto, ela fala muito, deu vários palpites nos diálogos, especialmente para torná-los mais naturais”. (Alysson Oliveira)

MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM - 24/10/18 - 17:45 Quarta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 -28/10/18 - 19:30 (Domingo)

O BARCO
O diretor cearense Petrus Cariry mais uma vez pratica um cinema rigoroso, pleno de referências simbólicas, inconscientes, míticas e que, desta vez, de forma particular, transformou-se numa metáfora poderosa do País.
Dono de uma das obras mais autorais do cinema brasileiro contemporâneo, com O GrãoMãe e Filha e Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois, Petrus partiu de um conto do escritor Carlos Emílio Corrêa Lima, de apenas três páginas. Pensou, de início, em transformar a história num filme poderosamente visual, como é até sua marca – o diretor também fotografa seus próprios filmes – e sem palavras. Desistiu desse projeto certamente hermético ao longo do processo de criação do roteiro, do qual participaram seu pai, o também cineasta Rosemberg Cariry, e Firmino Holanda. E, como é também marca de Petrus, a história foi sendo modificada no set, no cenário paradisíaco da praia das Fontes, em Beberibe, próximo de Fortaleza, e por uma peculiar e sombria intromissão da vida real.
Filmada em 2016, esta história focaliza um vilarejo de pescadores isolados, cuja rotina é rompida pela chegada de uma mulher pelo mar, Ana (Sâmia de Lavor).
A narrativa é estruturada acompanhando a tentativa de duas mulheres, a matriarca Esmíria (Verônica de Lourdes), mãe de 26 filhos, nomeados cada um com uma letra do alfabeto, e a forasteira Ana, que encanta os pescadores com a sexualidade de seu corpo e o feitiço de suas histórias, de disputar o controle e as vontades desta comunidade que parece fora de tempo e lugar. Cada uma por seu lado, estas mulheres puxam, cada uma para um lado, A (Rômulo Braga), o filho mais velho de Esmerina, que oscila entre a ligação visceral com seu clã e o desejo de partir que é suscitado por Ana.
Ao mesmo tempo, O Barco pode ser lido como metáfora de um país disputado por muitas narrativas e que, em alguns momentos, parece estranhamente privado dos sentidos básicos – uma condição que é encarnada tanto por um pescador cego (Everaldo Pontes) quanto pelo pescador Pedro (Nanego Lira), pai da enorme família, que abre mão de falar depois de uma grande perda.
Muitas leituras, certamente, são possíveis a partir das imagens sedutoras, impactantes, hipnóticas deste filme que, apesar das aparências, foi fotografado praticamente apenas com luz natural e de alguns lampiões e candeeiros nas cenas noturnas. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1  24/10/18 - 19:30 - (Quarta)
CINEARTE PETROBRÁS 2                    26/10/18 - 14:00 - (Sexta)
PLAYARTE MARABÁ - SALA 4                30/10/18 - 14:45 - (Terça)

AMOR ATÉ ÀS CINZAS
O diretor chinês Jia Zhang-ke faz um giro reflexivo, mais uma vez em torno de seu grande país, revisitando tanto seu filme anterior, As Montanhas se Separam (2015), quanto outros mais antigos, como Em Busca da Vida (2006) – neste caso, até porque revisita o emblemático cenário da barragem das Três Gargantas. O cineasta chinês não está buscando um choque de referências e sim uma análise sobre o processo histórico em seu país, focalizando mais uma vez a ocidentalização e a virada capitalista dos anos 2000.
À medida que entra na maturidade (tem 48 anos), o diretor torna-se cada vez mais cético, centrando sua história em torno da admirável Zhao Tao, sua mulher e atriz-fetiche. Sua personagem compõe um denso arco ao longo dos cerca de 18 anos que atravessa, passando de namorada mimada de um chefete gângster (Liao Fan) a uma mulher endurecida, comandando seu próprio negócio no mundo do jogo.
O rosto de Zhao Tao é uma espécie de mapa emocional de Amor até às Cinzas, alternando as notas emocionais que a percorrem, do amor à decepção, do conformismo à raiva, incorporando também momentos de humor e doçura. Este rosto atravessa também muitas paisagens da China, nas quais Zhang-ke edifica sua reflexão sobre o que se tornou, afinal, este país que impressiona o mundo todo e permanece uma espécie de continente à parte – não isolado, no entanto, do Ocidente, como o filme mostra de várias maneiras, incluindo as impagáveis passagens musicais pop, que vibram de maneira peculiar, satírica e também pungente.
Como em As Montanhas se Separam, há uma história de amor fraturada no centro de tudo, carregada de amargura e realismo. As sequências de violência, como lutas de gangues, são de um realismo impecável, dignas de um filme policial – uma qualidade que Zhang-ke veio aperfeiçoando ao longo dos anos. Mas, acima de tudo, o filme mais parece um espelho oriental colocado diante do Ocidente, que exporta suas modas, estilos musicais e o onipresente capitalismo. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL - SALA 1               24/10/18 - 18:30 - (Quarta)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               29/10/18 - 14:00 - (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  30/10/18 - 16:00 - (Terça)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    31/10/18 - 21:10 - (Quarta)

O ANJO
O drama argentino, de Luis Ortega, radiografa a peculiar personalidade de Carlitos (Lorenzo Ferro), que foi um célebre ladrão e assassino dos anos 1970. Cabelos cacheados e louros, rosto imberbe e realmente angelical, ele vivia com os pais (Cecilia Roth e Luis Gnecco), gente honesta e trabalhadora que não se dá conta, por muito tempo, da vida dupla do filho único.
Talentoso para entrar em casas vazias, ele se torna um hábil ladrão e encontra um parceiro em Ramón (Chino Darín), este, filho de uma família criminosa. A associação entre os dois provoca uma escalada de crimes, como roubo de armas e joias e até assassinatos.
O filme é um agudo estudo de personalidade, encontrando em Lorenzo Ferro o intérprete perfeito para este “anjo da morte” glacial, incapaz de sentir culpa e disposto a viver suas pulsões de momento aqui e agora, como se não houvesse amanhã.  (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   24/10/18 - 18:45 - (Quarta)
CINESALA                                29/10/18 - 20:00 - (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 30/10/18 - 18:45 - (Terça)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               31/10/18 - 14:00 - (Quarta)

LAS SANDINISTAS
O documentário de Jenny Murray procura resgatar as figuras de diversas militantes da Revolução Sandinista que acabaram apagadas da História pelo único fato de serem mulheres. Pessoas como Dora Maria Tellez, Daisy Zamora, Lupita Lazo, Nora Astorga, Claudia Alonso, Olga Aviles e tantas outras, que lutaram ombro a ombro com os homens para a derrubada da ditadura de Anastacio Somoza, lidando com preconceitos e falta de sensibilidade diante de algumas de suas necessidades – como o fato de que menstruavam e, algumas, até dando à luz na clandestinidade, no meio da selva, em condições muito precárias.
Entrevistas com estas mulheres, bem como materiais de arquivo, permitem reconstituir não só os bastidores da luta sandinista como a trágica história da Nicarágua, pequeno país da América Central que, desde 1912, quando foi ocupado por fuzileiros navais norte-americanos, foi por muitos anos submetido a essa influência imperialista, mantida pela dinastia local dos Somoza, num histórico de eleições fraudadas, pobreza, analfabetismo e violência contra os camponeses. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   24/10/18 - 19:30 - (Quarta)
PLAYARTE MARABÁ - SALA 4                26/10/18 - 14:45 - (Sexta)
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP     30/10/18 - 17:00 - (Terça)

3 FACES
Apesar das restrições judiciais – ele está proibido de viajar para o exterior e, teoricamente, de filmar -, o cineasta iraniano Jafar Panahi continua criando e compôs um filme muito interessante em 3 Faces, vencedor do prêmio de roteiro no mais recente Festival de Cannes.
No caso, as faces do título são femininas – o cinema de Panahi mostra-se, mais uma vez, intensamente interessado nas mulheres. E suas explorações em torno da própria linguagem cinematográfica revelam-se muito instigantes.
As três mulheres – todas usando seus próprios nomes - são uma famosa atriz de TV, Behnaz Jafari, que recebe um vídeo pela internet, retratando o suposto suicídio de uma garota, Marziyeh Rezae, que se queixa de a ter insistentemente procurado e não recebido resposta. Marziyeh, segundo conta, queria a intercessão de Behnaz para que sua família lhe permitisse estudar fora de sua aldeia, ela que sonha em tornar-se atriz, mais do que tudo. Começa aí a interrogação da própria história, sobre os limites entre realidade e encenação, que são tão caros ao cinema iraniano em particular e à arte cinematográfica como um todo.
Como em seus fimes mais recentes (Isto não é um filmeTáxi em Teerã), depois da perseguição política, o próprio Jafar Panahi aparece como personagem, ajudando a amiga Behnaz a investigar se é verdadeira ou falsa a história de Marzieyeh e seu vídeo. Esta viagem permite a Panahi retratar um pouco o interior mais profundo de uma zona rural na fronteira com a Turquia, que expõe as contradições de uma cultura machista e esconde ali o terceiro rosto da história – o de uma atriz de outros tempos, malvista na comunidade, que é um “mau exemplo” para meninas que buscam maior independência e de quem não veremos, propriamente, o rosto.
É neste jogo do que conta e do que esconde, do que sugere e do que nega em seguida, do que segue e deixa de lado que a narrativa constrói sua sedução. Com roteiro assinado pelo próprio Jafar e Nader Saeivar, 3 Faces reproduz, em escala minimalista, o encanto de Sherazade compactado não em 1001 noites, mas numa enxuta e densa 1 hora e 40 minutos. (Neusa Barbosa)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS - 24/10/18 - 19:00 -(Quarta)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               30/10/18 - 20:00 -(Terça)


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