Começa a repescagem com destaques da Mostra

Uma seleção de filmes da Coréia do Sul, Líbano, Camboja e Israel

Equipe Cineweb
Ainda da seleção de Cannes, chegam à programação dramas viscerais como Em Chamas, do sul-coreano Lee Chang-Dong, e o libanês Cafarnaum, de Nadine Labaki. Outros destaques são o documentário Torre das Donzelas, de Susana Lira, a coprodução Brasil/Colômbia/França, de Beatriz Segnier, ambos premiados em Brasília, o novo Amos Gitai, Um trem em Jerusalém”, e o novo Rithy Panh, Túmulos sem nome.
 
 EM CHAMAS
Adaptando obra do escritor japonês Haruki Murakami, Lee Chang-dong (diretor de Poesia, prêmio de melhor roteiro em Cannes há oito anos), explora muitos gêneros numa história cativante, em torno de um trio de jovens: a moça Haemi (Jun Jong-seo) e dois homens, o rico Ben (Steven Yeun) e o desempregado Jongsu (Yoo Ah-in). Não se trata de um mero triângulo amoroso e sim de um jogo de aparências, de verdades e mentiras, exercido nos mínimos detalhes – inclusive a existência, ou não, de um gato de estimação, cujo cuidado dá início ao próprio relacionamento entre Haemi e Jongsu.
Na verdade, os dois se conheceram na infância e se reencontram, anos depois. Depois de uma noitada, ela, que vai viajar à África, pede ao amigo que cuide de seu gato em sua ausência. O fato de que esse gato nunca é visto quando Jongsu vem alimentá-lo dá a largada sobre o que é, afinal, digno de ser acreditado, ou não. Tudo depende dos relatos, das palavras, de como se constrói a versão – e Jongsu é um aspirante a escritor, por isso, morde a isca.
Não só por isso. Jongsu é o personagem mais sensível, mais frágil, neste duelo que se forma entre ele e Ben, um jovem rico cuja atividade profissional é misteriosa e cujos relatos são igualmente hipnóticos para Jongsu, num sentido sinistro.
Há de tudo aqui – erotismo, suspense, drama, humanismo, comentário político-social – tudo isso construído com ritmo dramático e imagens impactantes, que ficam nos olhos muito depois que o filme acabou. Pode-se até não sentir a passagem das 2 horas e 28 minutos, tamanho é o poder de Chang-dong de colar os olhos dos espectadores na tela, suspendendo sua respiração em torno das vicissitudes de seu frágil herói, Jongsu. O final é poderoso. Mais não se diga sobre este filme que levou o prêmio da FIPRESCI como melhor longa da competição em Cannes 2018. (Neusa Barbosa)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS - 26/10/18 - 20:30 - (Sexta)
CINESALA                                27/10/18 - 16:00 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   28/10/18 - 17:20 -  (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA POMPÉIA 1         29/10/18 - 21:00 - (Segunda)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    31/10/18 - 14:00 - (Quarta)

CAFARNAUM
Boa parte Deste filme, que venceu o Prêmio do Júri no mais recente Festival de Cannes, passa-se nas ruas de Beirute, o cenário da impressionante jornada de um menino de 12 anos, Zain (Zain Alrafeea). Explorado por seus pais, dois lúmpens, ele simplesmente não tem existência civil – devido aos custos, ele nunca foi registrado, o que o mantém fora da escola e dos serviços de saúde. Para ajudar a sobrevivência da família, ele trabalha em várias coisas, o que não impede que seja maltratado. Sua obsessão é tentar proteger a irmã (Cedra Izam), que os pais querem entregar ao comerciante que é patrão do menino assim que a garota, aos 11 anos, tem a primeira menstruação.
A jornada de Zain o levará longe da família, sendo incorporado ao núcleo formado por uma imigrante africana ilegal (Yordanos Shifera) e seu filho pequeno, Yonas (Treasure Bankole). Juntos, Zain e Yonas protagonizam algumas das sequências mais angustiantes do filme, que ilustram a total exposição deles a um mundo dos adultos incapazes de protegê-los.
Honesto e contundente como é, em seus princípios, o filme de Nadine peca por um excesso de boas intenções, além de querer contemplar assuntos demais, embora seja justo observar que representa um notável crescimento da diretora. Outro pecado é colocar na boca do pequeno Zain um discurso, representando evidentemente o pensamento da diretora, que não convence, porque não cabe no universo dele. Fica difícil aceitar que Zain, vivendo como vive, procure a justiça para acionar os pais por “tê-lo trazido ao mundo”. Enfim, Cafarnaum peca por este excesso no melodrama e no discurso, mas acerta quando deixa seus pequenos protagonistas viverem em cena situações que experimentaram de verdade, como fica evidente. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 26/10/18 - 20:30 - (Sexta)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    27/10/18 - 21:20 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2  30/10/18 - 21:30 - (Terça)
CINESESC                                31/10/18 - 17:40 - (Quarta)

ASSUNTO DE FAMÍLIA
Vencedor da Palma de Ouro, o consagrado cineasta japonês Hirokazu Kore-eda, voltou mais uma vez à família, tema recorrente de seus filmes, focalizando um clã altamente anticonvencional, uma família que sobrevive precariamente de trabalhos esparsos e do furto de mercadorias em lojas e supermercados.
Muita gente fora do Japão pode não imaginar que exista num país aparentemente tão desenvolvido tamanha promiscuidade e pobreza como a sofrida por Osamu (Lily Franky), um trabalhador precário em construção civil, que vive com a mulher (Sakura Ando), funcionária de uma lavanderia, na casa da avó dela (Kirin Kiki). O casal tem um filho (Sosuke Ikematsu) e acaba adotando informalmente uma menina de cinco anos, que encontram quase morrendo de fome e frio do lado de fora de uma casa.
Evidentemente, o foco está igualmente nesta precarização, em que os trabalhadores trabalham menos horas, recebem menos e têm menos direitos, como acesso a indenizações no caso de acidentes. Neste sentido e também na maneira como retrata seus personagens, fica muito claro que Kore-eda quer mostrar quem são, o que fazem, como se relacionam, seus afetos e emoções, antes de julgá-los pela transgressão às leis que praticam diariamente – como usar as crianças para furtar em lojas.
Alguns dos traços admiráveis do cineasta japonês estão presentes aqui, como a capacidade de dirigir crianças – como visto anteriormente em Ninguém Pode Saber, por exemplo. A naturalidade que flui de sua interpretação e do núcleo familiar humanizam os personagens, especialmente os adultos, mesmo diante de revelações não muito edificantes que oportunamente surgem a seu respeito. Há todo um jogo de verdades e mentiras em curso, mas Kore-eda é profundo o bastante para contrapor esse mundo ilegal e improvisado da família com o que as instituições do Estado têm a oferecer e que, evidentemente, deixam muito a desejar, mesmo num país alegadamente desenvolvido.
A outra grande qualidade de Kore-eda é deixar fluir as emoções de uma história intimista sem transbordar para a pieguice jamais. Uma contenção com a qual muitos diretores teriam a aprender. (Neusa Barbosa)

CINESESC                                26/10/18 - 18:40 - (Sexta)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               27/10/18 - 16:00 - (Sábado)

A CARGA
O momento é o fim dos anos de 1990. A Sérvia é constantemente atacada pela OTAN. Riscos cortam o céu e bombas explodem no chão. Nada disso, no entanto, impede que o caminhoneiro Vlada (o excelente ator croata Leon Lučev) siga sua viagem. O filme, escrito e dirigido pelo sérvio Ognjen Glavonić, acompanha um dia na vida desse homem e das pessoas que cruzam o seu caminho.
A Carga é um filme austero, duro e com uma fotografia pálida que, em alguns momentos beira o preto-e-branco, assinada por Tatjana Krstevski. Nada mais coerente com a vida levada por essas personagens, em que não há muito espaço para a ternura. Ainda assim, o longa não é de todo brutal, criando momentos de cor e leveza, como as bexigas que se soltam da mão e voam para o céu.
Rumando em direção a Belgrado, Vlada conduz um caminhão branco e não muito grande. Não sabe qual é carga que carrega e, quando para num checkpoint, entrega apenas um papel à polícia que lhe permite continuar a viagem sem que vistoriem o veículo. Esse conteúdo misterioso, obviamente, adquire também dimensões metafóricas, do peso de carregar nas costas um país que precisa ser reconstruído, mas o mundo parece não deixar.
Pelo caminho, o motorista dá carona a um jovem (Pavle Čemerikić), que quer ser músico, faz algumas paradas, presencia uma festa de casamento, faz ligações para casa, seu isqueiro (herança do avô que lutou na Guerra) é roubado e a viagem segue sempre em frente.
Nesse caminho, o filme faz pequenas digressões. A câmera abandona temporariamente Vlada e segue alguns personagens, como os dois garotos que roubaram o isqueiro, que fogem e vão brincar em construções gigantescas e abandonadas – antigos monumentos da arquitetura na região, testemunhas de um fracasso, lembranças de uma utopia que nunca se concretizou.
As crianças roubando o isqueiro, brincando nas construções abandonadas, dão um sentido do diálogo entre o passado e o futuro. Mas o que esperar do futuro numa região devastada? Ainda assim, o filme, de certa forma, é esperançoso em seu final, com o filho do protagonista (Ivan Lučev) e um grupo de amigos. (Alysson Oliveira)

SESC BELENZINHO -26/10/18 - 19:00 (Sexta)
PLAYARTE MARABÁ - SALA 4 - 27/10/18 - 14:50 - Sessão: 877 (Sábado)
CINESESC - 30/10/18 - 15:50 (Terça)

TORRE DAS DONZELAS
O documentário de Susana Lira venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Brasília 2018. Parece incrível que as cerca de 30 personagens deste documentário, ex-presas políticas  de um setor isolado do presídio Tiradentes, em S. Paulo, nos anos 1970, tenham passado quatro décadas em quase silêncio sobre esta extraordinária experiência, um verdadeiro exercício de resistência e autogestão dentro da cadeia, em plena ditadura. Elas mesmas contam que não haviam tocado no assunto nem com maridos, nem com filhos por muitos anos, algumas até agora.
Do relato destas mulheres – entre as quais, a jornalista Rose Nogueira, a fotógrafa Nair Benedito, a educadora Dulce Maia e a ex-presidenta Dilma Rousseff – emerge a descrição de suas vivências, isoladas das presas comuns, num local em que elas não só reconstruíram o espaço físico (mediante o trabalho de duas arquitetas que havia entre elas) como criaram rotinas que lhes permitiam resistir ao medo, às eventuais torturas (fora dali) e à imprevisibilidade do tempo que permaneceriam ali dentro, longe de filhos, maridos, familiares.
Um grande acerto do filme é evitar um tom lamentoso e também fugir do modelo tradicional das “cabeças falantes”. Evidentemente, há algumas entrevistas em separado – como foi o caso de Dilma e Ilda Martins da Silva, entre outras. Mas grande parte do documentário se vale de um dispositivo, a construção de um cenário que reproduz a “torre das donzelas” (assim chamada por seu formato e a ocupação feminina), a partir dos desenhos que elas fizeram, nenhum igual ao outro, é bom que se diga.
Este espaço, que ficou montado num estúdio em S. Paulo por dez dias, permitiu que as ex-colegas de cela voltassem a conviver num mesmo lugar, reproduzindo tarefas, como cozinhar juntas e conversar. Dilma não pode participar dessa vivência porque, naquele momento, defendia-se no processo do impeachment. Ela é, no entanto, uma personagem que sobressai por seu carisma para articular as memórias daquela comunidade, que usou esse tempo em comum para a própria educação pessoal e política, já que trocavam informações, livros, davam cursos de línguas entre si, resistindo à desumanização e desesperança comuns em situações de aprisionamento.
Há episódios absolutamente impagáveis, como a chegada de três malas, doadas pela família rica de uma das prisioneiras, contendo vestidos de festa – coisa das mais inúteis para elas, mas que serviu para que organizassem um desfile na cadeia. O diretor do presídio, acreditando que estavam enlouquecendo, como resultado, autorizou que tomassem banho de sol a partir dali.
As presas criaram inclusive um ritual para quando uma delas era libertada, cantando a Suíte do Pescador, de Dorival Caymmi, como despedida. Ainda assim, nesta libertação havia perigos. Pelo menos uma das prisioneiras soltas, Eleni Teles Guariba, desapareceu três meses depois. (Neusa Barbosa)

CINEARTE PETROBRÁS 1                    26/10/18 - 21:30 - (Sexta)
CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS27/10/18 - 13:40 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5  30/10/18 - 15:50 - (Terça)

LOS SILENCIOS
Desaparecidos estão no centro desta coprodução Brasil/Colômbia/França, falada em castelhano e vencedora em Brasília do prêmio de direção para Beatriz Segnier, em seu segundo longa. A presença destes desaparecidos é materializada pela visão de seus fantasmas por sua família, criando uma narrativa com um toque surreal, fantástico, que nunca encobre a tragédia dos acontecimentos reais - no caso, a guerra contra o narcotráfico e as FARC, na Colômbia, que vitima preferencialmente as populações pobres.
O filme, que tem no elenco Enrique Díaz, Marleyda Soto e vários não atores da comunidade indígena da Ilha da Fantasia – incrível nome real de um bairro de Letícia, na Colômbia -, articula estas narrativas, dando conta da luta de refugiados destas guerras e as necessidades de ajustes e reconciliação. No final, há uma sequência de rara beleza, que simboliza esta busca de um novo equilíbrio, de uma nova ordem que supere as polarizações, sem esquecer de dar conta das necessidades fundamentais das populações. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL - SALA 1               26/10/18 - 19:30 - (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   27/10/18 - 22:10 - (Sábado)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    29/10/18 - 15:45 - (Segunda)

UM TREM EM JERUSALÉM
Diretor israelense habituê da Mostra, com uma densa obra em seu currículo, Amos Gitai entrega mais uma obra que dialoga com as tensões e diferenças entre árabes e judeus em seu país – e cuja polarização pode ser entendida por qualquer país no mundo hoje, inclusive o Brasil.
O cenário é um trem urbano que atravessa vários bairros de Jerusalém, percorrendo zonas palestinas e judias. Acompanha-se várias pequenas histórias que, como esquetes, abordam temas diversos. Há um turista francês (Mathieu Amalric) e seu filho (Elias Amalric), o pai lendo um texto do escritor Gustave Flaubert, que descreve uma viagem a Jerusalém no século 19, um texto que guarda misteriosas conexões com a situação de hoje. O mesmo turista conversa depois com um casal local, que insiste em pontuar as qualidades de seu exército, enquanto o forasteiro se apega às qualidades do sol e outras atrações da cidade.
Há de tudo, intrigas amorosas – como a separação de um jovem casal, ele soldado, partindo para seu serviço militar; um casal à beira do divórcio; a tentativa de reatamento de uma ligação por um segurança do trem (Liron Levo); uma jovem descrevendo um caso tórrido à sua melhor amiga. Não falta também uma impagável “iídiche mama”, capaz de confrontar, num determinado momento, um jovem judeu ortodoxo sobre seu comportamento. Há muita música, e da boa, unindo as pontas das várias histórias, que alinham emoções de todos os graus, compondo um caleidoscópio atraente e reflexivo, em que não falta nem mesmo uma menção a Leon Trotsky. (Neusa Barbosa)

CINEARTE PETROBRÁS 2                    26/10/18 - 19:30 - (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 27/10/18 - 14:00 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3  30/10/18 - 19:50 - (Terça)

TÚMULOS SEM NOME
O premiado cineasta cambojano Rithy Panh volta ao tema central de sua obra – o genocídio promovido pelo regime do Khmer Vermelho entre 1975 e 1979, que vitimou cerca de 1,5 milhão de pessoas, inclusive, vários membros de sua própria família, como ele retrata em A Imagem que Falta (2013).
O diretor é visto em cena na sequência inicial deste documentário, participando de um ritual budista para “quebrar o infortúnio”, no seu caso a perda de 19 familiares. Mas não se trata apenas de uma recordação pessoal, já que o diretor parte em busca de outros testemunhos de pessoas que viveram aquele período, algumas delas procurando ainda informações de onde podem estar os despojos de seus parentes que, como a maioria dos mortos, foi sepultado em covas coletivas e sem identificação.  
Alguns destes depoimentos impressionam pelo detalhamento deste absurdo momento histórico do país asiático, quando o regime comunista, liderado por Pol Pot, implantou uma espécie de ditadura agrária, esvaziando as cidades e transformando praticamente todo mundo em camponês, escravo e ainda por cima submetido a um regime de fome – muitas vítimas, inclusive, morreram pura e simplesmente de desnutrição e doenças decorrentes dela, inclusive crianças.
Os testemunhos permitem também reconstituir um tempo de medo, delações mútuas e esgarçamento de valores e relações sociais. Não seria possível sair de uma experiência assim radical sem cicatrizes profundas, com as quais o Camboja, quarenta anos depois, ainda procura lidar. (Neusa Barbosa)

CINESESC                               - 26/10/18 - 14:00 - (Sexta)
CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 - VILLA LOBOS28/10/18 - 20:50 - (Domingo)

O TERMÔMETRO DE GALILEU
Pelos filmes de ficção sérios e tão empenhados em mapear as mazelas do nosso presente, é difícil imaginar que a cineasta portuguesa Teresa Villaverde seja tão descontraída como ela é. Por outro lado, o seu novo trabalho, o documentário O termômetro de Galileu, pode dar a dimensão exata do humor da cineasta, que também tem no currículo Colo, Cisne e Transe. No longa exibido na 42a Mostra, a diretora acompanha o cotidiano da casa e família do roteirista e cineasta italiano Tonino De Bernardi.
“Nós nos conhecemos no começo dos anos de 1990, na estreia do meu primeiro longa [A idade maior], no Festival de Turim, cidade onde ele mora. Desde então ficamos amigos, pois ele é muito caloroso e logo me levou para jantar na casa dele”, conta a diretora que, além de exibir na 42a Mostra seu novo filme, também participa do júri. Quase 30 anos depois desse primeiro encontro, na primavera de 2017, Villaverde resolveu documentar a família do amigo. “Eles são maravilhosos e isso é possível ver no filme. Eu tinha vontade de compartilhar isso com todo mundo. Fazer o filme foi a opção que encontrei”.
Além de resgatar um pouco da obra do cineasta e roteirista italiano, especialmente sua adaptação da peça clássica Electra, de 1987, mostra-se o dia-a-dia da família, sua relação com sua mulher e netos. Para as filmagens, a diretora passou cerca de 15 dias na casa dos De Bernardi, filmando quando achava que lhe convinha. “Foi um processo muito peculiar, mesmo para mim. Eu nunca havia trabalhado com tanta liberdade. Estava eu lá com a câmera e era a única equipe. Ligava e filmava quando achava algo interessante”. Ela chegou até a cogitar não se instalar na casa deles, mas viu que não haveria outra maneira de fazer o filme senão assim. “Foram minhas férias, e, ao final, eu tinha um documentário pronto”.
Ao todo, Villaverde tinha cerca de 20 horas de material, o que não é muito para um documentário. Mas, ao contrário das filmagens que, nas palavras dela, “foram pura diversão”, a montagem do longa foi mais trabalhosa. “Foi difícil encontrar uma estrutura. Tentei seguir a lógica da minha visita, mas vi que não funcionava, até que deixei o filme se encontrar sozinho e a questão das gerações, a relação dos netos com os avós foi tomando conta”. Ela mesma editou o documentário em sua casa em Lisboa.
Ao final, além de um documentário pronto, a diretora conta que também descobriu coisas sobre si mesma. “A questão das permanências e mudanças nas gerações é realmente muito importante. Vendo o filme, minha irmã notou como eu sou parecida com nossa avó. Nem eu tinha me dado conta disso, mas ela tem toda razão”.
Além de O termômetro de Galileu, Villaverde tem apenas outro longa documental em sua carreira, A favor da claridade (2004), sobre o artista plástico português Pedro Cabrita Reis, feito por encomenda da Bienal de Veneza. A diretora confessa que não se sente uma documentarista: “Não é minha praia, não me sinto confortável. Sou uma diretora de ficção e nela consigo falar com mais conforto do que está à nossa volta, do que sinto”. (Alysson Oliveira) 
 

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 - 26/10/18 - 21:20 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4  - 29/10/18 - 17:50 (Segunda)
CIRCUITO SPCINE OLIDO - 31/10/18 - 19:00 - Sessão: 1155 (Quarta)

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