Começa a repescagem com destaques da Mostra

Road movies, retratos adolescentes, aventura e suspense na Mostra

Equipe Cineweb
O segundo final de semana da Mostra reserva atrações como o drama A Rota Selvagem, o suspense italiano O Segredo de Nápoles, o drama francês Maya, a cinebiografia sueca Tornando-se Astrid e o longamente esperado The Man who Killed Don Quixote, de Terry Gilliam.
 
MAYA
Talvez Maya não fosse a obra que se esperava da francesa Mia Hansen-Løve depois de seu devastador O que está por vir. É tudo diferente, e por isso mesmo desconcertante, de certa maneira. Este é um filme, por assim dizer, menor em sua ambição, mas não pequeno em seu alcance. É um retrato sutil do mundo do presente e de suas consequências emocionais.
Os personagens dos filmes de Hansen-Løve enfrentam pequenos momentos que podem gerar grandes mudanças em suas vidas, como a professora de Isabelle Huppert em O que está por vir, em que ela descobre uma nova liberdade (e não sabe o que fazer com ela) quando o marido a abandona por uma mulher mais nova. Em Maya, o protagonista é Gabriel (Roman Kolinka), jovem repórter de guerra, que volta à França depois de ser refém na Síria. Ele reencontra o pai, a antiga namorada, médicos e um psicólogo que o apoiará para retomar sua vida. Mas nada disso o ajuda mesmo. A saída é viajar para a Índia, onde tem uma casa, em Goa.
O deslocamento do personagem implica no deslocamentos dos referenciais da diretora – sempre, digamos, bem francesa em seus filmes. Aqui, o cenário e a língua (a maior parte dos diálogos são em inglês) implicam em adaptações, mas felizmente, nada disso afeta o cinema de Hansen-Løve. Sua investigação do descontentamento e das chances de mudança que a vida oferece segue intacta. Gabriel reencontra seu padrinho (Pathy Aiyar), e conhece a filha dele, Maya (Aarshi Banerjee), que um dia deverá ir para a Austrália estudar.
Como o filme se chama Maya sabemos, é claro, que a personagem terá um papel importante na trajetória de Gabriel, no exorcismo de seus fantasmas. Tudo acontece de forma orgânica, quase banal. O romance entre eles, sempre anunciado, se dá quando já nem lembrávamos que isso poderia acontecer. Kolinka e Banerjee, assim como seus personagens, são opostos em suas criações. Ele é contido, um tanto descrente com o mundo (e novas notícias sobre o Oriente Médio o afetam ainda mais). Ela, por sua vez, é incendiária, mas de uma forma delicada, é a juventude explorando o mundo e pronta para aceitar as novidades e descobertas.
Maya é um filme sobre viagens – Gabriel vai para a Índia, Maya vai para a Austrália. Mas mais do que as jornadas físicas – há um interlúdio belíssimo, em que o protagonista viaja de trem pela Índia – são aquelas de autodescoberta que contam mais. Ele se redescobre, ela se descobre pela primeira vez, e o resultado pode ser um filme menor de Hansen-Løve, mas, ainda assim, um grande filme. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 27/10/18 - 17:50 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 31/10/18 - 17:40 (Quarta)
THE MAN WHO KILLED DON QUIXOTE
Depois de levar 25 anos para ser produzido, sofrido diversos percalços de produção, a morte de dois atores (Jean Rochefort e John Hurt) e a última dificuldade, uma tentativa de embargo por parte do português Paulo Branco (que procurou impedir sua exibição no encerramento do Festival de Cannes 2018), o
filme mostra, infelizmente, sinais de toda essa turbulência.
A aventura deflagrada quando um cineasta que passou à publicidade (Adam Driver) reencontra o intérprete de D. Quixote que ele escalou, anos atrás, em seu filme de formatura (Jonathan Pryce), um ex-sapateiro que entrou na pele de seu personagem e nunca mais saiu, é um tanto excêntrica, para dizer o mínimo.
A maneira como se coloca o cineasta entrando na pele de Sancho Pança e vivendo peripécias descabeladas com seu Quixote, numa trama que inclui um mafioso russo, uma bela garota e um tipo de humor que às vezes parece um tanto pastelão, não atinge o tom de comédia pretendido. The man who killed Don Quixote entra na história do cinema, no entanto, como um dos processos de produção mais confusos de todos os tempos. Terry Gilliam quase morre disso. (Neusa Barbosa)

CINESALA                                27/10/18 - 20:50 - (Sábado)
CINESESC                                28/10/18 - 18:10 - (Domingo)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    30/10/18 - 14:00 - (Terça)
CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS31/10/18 - 21:10 - (Quarta)

A ROTA SELVAGEM
O filme do diretor inglês Andrew Haigh tem no jovem ator Charlie Plummer (Todo o dinheiro do mundo) um intérprete dedicado, que sustenta este bom drama em torno de um adolescente à procura do próprio destino.
Ele é Charley Thompson, de 16 anos, que vive com o pai (Travis Fimmel), anos depois de ter sido abandonado com ele pela mãe. O pai é afável mas um tanto irresponsável, deixando o garoto entregue a si mesmo na maior parte do tempo. Os dois vivem mudando de casa, o que prejudica os estudos e as amizades de Charlie.
Um dia, ele ajuda Del (Steve Buscemi), um criador de cavalos quarto-de-milha que os usa para um circuito interiorano de corridas. O rapaz se apaixona pelos animais e acaba tornando-se seu assistente.
Charlie apega-se particularmente a um dos cavalos, Lean on Pete. Quando este desenvolve um problema na pata e ele descobre que Del se livrará dele, o rapaz toma uma atitude impulsiva, que o lança numa aventura pelo país. Esta será, também, sua dura jornada de amadurecimento. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   28/10/18 - 18:50 - (Domingo)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               29/10/18 - 21:00 - (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   31/10/18 - 19:30 - (Quarta)

O SEGREDO DE NÁPOLES
Conhecido por filmes como A Janela da Frente (2003) e O Primeiro que Disse (2010), o turco radicado na Itália Ferzan Ozpetek dirige aqui um drama com um toque psicológico/fantástico.
Adriana (Giovanna Mezzogiorno) é uma médica legista bela e solitária. Numa festa, ela conhece um jovem, Andrea (Alessandro Borghi), vivendo com ele uma tórrida noite de amor. No dia seguinte, ele falta a um encontro marcado. Descobre-se depois que ele foi barbaramente assassinado.  
A médica fica profundamente abalada e não consegue esquecê-lo. Parece ver seu rosto em todos os lugares. Até que, finalmente, encontra Luca (Alessandro Borghi), que seria irmão gêmeo do morto.
Enquanto prosseguem as investigações sobre o assassinato, a médica tem um comportamento ambíguo, que chama a atenção tanto da polícia quanto de seus familiares. O filme, roteirizado pelo diretor e por Gianni Romoli e Valia Santella, ampara-se num jogo de aparências, ambientado na sempre bela e misteriosa cidade de Nápoles. Mas, afinal, Ozpetek não é nenhum Hitchcock. (Neusa Barbosa)

CINESESC                                28/10/18 - 16:00 - (Domingo)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               29/10/18 - 18:45 - (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   30/10/18 - 13:30 - (Terça)

OPERAÇÃO OVERLORD
Mesclando vários gêneros, o filme mostra-se, afinal, um trash com orçamento polpudo; um longa de guerra com zumbi; uma versão videogames de Bastardos inglórios sem humor ou cinismo – mas nada disso incomoda tanto quanto sua patriotada americana. Produzido por J. J. Abrams, o enredo traz, como tudo em que ele toca, uma reviravolta que parece ser mais interessante e surpreendente do que realmente é.
Dirigido por Julius Avery, tem como protagonistas um grupo de paraquedistas norte-americanos na França, com a missão de destruir uma torre numa vila no interior do país. Uma série de incidentes levam-nos a se esconder numa casa, onde vivem uma moça, seu irmão caçula e a tia doente, sempre trancada num quarto.
Na tal torre, conforme descobre o protagonista (Jovan Adepo) coisas horrendas acontecem – comandadas por um médico nazista, que pretende ajudar a criar o Reich de Mil Dias. Há momentos risíveis e outros apenas nojentos mesmo. Há também uma cena em que uma mulher emula Ellen Ripley de maneira anódina.
Para não dizer que Operação Overlord seja de todo ruim, talvez o longa sirva para lembrar que os nazistas são, usando uma expressão da moda, “do mal” – o que pode ser um recado ainda necessário em nosso tempo. Sob a forma de videogame, como o longa é feito, a mensagem pode chegar com mais eficiência a gerações que precisam dela. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   27/10/18 - 21:40 (Sábado)
TORNANDO-SE ASTRID
Esta simpática produção sueca biografa Astrid Lundgren (1907-2002), a autora do sucesso infantil Pippi Meialonga. Muitos talvez não conheçam sua interessante história de vida.
Interpretada por Alba August (filha do diretor Bille August), Astrid é vista a partir dos 16 anos, quando é aceita como estagiária de um jornal numa pequena cidade, dando início ao desenvolvimento de seu talento para escrever.
Ela era também uma garota muito vivaz e independente, que acaba se envolvendo com o patrão, um homem bem mais velho, casado e com filhos. A história leva a um escândalo, pois Astrid engravida. Isto a força a uma viagem à Dinamarca, onde entrega o bebê a Marie (Tryne Dyrholm, de Nico, 1988), uma mulher que cuida de várias crianças, filhas de mães solteiras, na mesma condição.
Astrid volta à Suécia, agora sozinha, trabalhando em Estocolmo, num escritório. Sua luta será conseguir condições para trazer seu filho de volta para viver com ela, sem poder contar com o apoio da própria família. Poucos imaginariam que a vida desta autora infantil fosse tão cheia de vicissitudes, tornando-a uma verdadeira heroína feminista. (Neusa Barbosa)

SESC OSASCO -         27/10/18 - 20:00 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   28/10/18 - 14:00 - (Domingo)

THE DEMINER
O fascinante documentário, Prêmio Especial do Júri no Festival de Documentários de Amsterdã (IDFA), traça o perfil do coronel curdo Fakhir Berhari, um voluntário para o desarme de minas que trabalhou ativamente em guerras, como do Iraque e da Síria. Pai de família – com 8 filhos -, ele frequentemente abriu mão da própria segurança e conforto, expondo-se a perigos, com vários acidentes – num deles, perdeu metade de uma perna.
Mediante o acesso a vários vídeos caseiros, outros feitos por seus colegas, reconstitui-se a trajetória deste militar das Forças Iraquianas, que salvou várias vidas, munido apenas de uma faquinha, alguns alicates e uma coragem extraordinária. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL - SALA 1               28/10/18 - 14:00 - (Domingo)
CINESALA                                31/10/18 - 20:00 - (Quarta)

O NOME DO MEU IRMÃO É ROBERT E ELE É UM IDIOTA
Elena (Julia Zange) e Robert (Josef Mattes) são irmãos gêmeos e estão entediados. Na primeira metade do filme, o diretor alemão, Philip Gröning, procura traduzir o estado de espírito deles, colocando aqui e ali belas imagens, mas criando uma interrogação enorme: “Que fazem esses dois num campo em frente a um posto de gasolina ?”. Eles bebem para matar o tempo, ela estuda filosofia para uma prova. A certa altura, comem biscoito Leibniz – mas nem sinal de balas Kant, ou chocolates Nietzsche. Que pena.
Há uma tensão sexual no ar, mas a violência gratuita é mais forte. Eles começam a barbarizar a loja de conveniências do posto e seu dono (Urs Jucker), que inclusive era amigo deles e a quem Elena tentou seduzir sem sucesso. Seja lá o que Gröning e sua corroteirista, Sabine Timoteo, tinham em mente, claramente, não deu certo. O formalismo do diretor alemão, como em seu A mulher do policial – exibido na Mostra em 2012 – testa a paciência de qualquer um. Não à toa que boa parte do público levanta e vai embora antes de esperar o final.
É bem clara a intenção do diretor de investigar a percepção e o desenrolar do tempo. Um fato quase banal aqui pode durar uma cena de longos minutos. A questão central é como um final de semana pode parecer vida toda. Mas um dos maiores problemas é a dupla de irmãos. Não é que apenas eles sejam chatos e sem graça, é que o filme é incapaz despertar qualquer interesse por eles. Suas filosofadas são pretensiosas e superficiais, envolvendo Heidegger, Santo Agostinho, entre outros. A figura mais interessante, no fundo, em todo o filme, é um gafanhoto que nada para salvar sua vida – possivelmente para evitar a companhia de Elena e Robert.(Alysson Oliveira)

CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP - 27/10/18 - 19:00 (Sábado)

FUTEBOL INFINITO
Conforme prova o cinema romeno filme após filme, a Romênia é um país peculiar – mas também não muito diferente do Brasil, apesar da distância geográfica. Futebol Infinito é mais uma adição ao cânone do absurdo-local figurado pelo cinema do país que ganhou um novo fôlego no final da primeira década do século XXI. O documentário dirigido por Corneliu Porumboiu (Polícia, Adjetivo) é uma pequena joia de humor e utopia e, especialmente, da inocência perdida por conta da roda da história.
No filme, Porumboiu volta à cidade de Vasliu, sua terra natal, e reencontra o irmão de um amigo de infância, Laurentiu Ginghină, um ex-jogador de futebol amador que abandonou o esporta há algumas décadas quando durante uma partida amadora quebrou a tíbia. Ele abandonou a prática de futebol, mas não a teoria. E nesses mais de 30 anos, entre outras coisas, redesenhou o esporte para, conforme explica, dar mais emoção.
Ginghină é uma figura ímpar que se estivesse num filme de ficção (romeno, ou não) alguns diriam se tratar de um personagem exagerado. Dono de um carisma e melancolia na mesma proporção, o sujeito explica suas sugestões de melhorias para o esporte com riqueza de detalhes, e as discute como se fosse questão de vida ou morte – a forma, aliás, como alguns praticam futebol. Sua ideia é dar “mais liberdade à bola”, "a estrela do jogo”. Sua reorganização do esporte geraria o futebol 2.0, 2.9, 3.0, ou até o 4.0 – ou seja, as opções de evolução são infinitas, e daí o título do documentário.
Mas, Ginghină não vive de futebol (se é feliz ou infelizmente é uma questão de debate). Ele tem um escritório onde trabalha como burocrata e a longa entrevista que concede é a parte central do longa. Ele se compara a Clark Kent: ambos levam uma vida dupla. Ele é cheio de sonhos e planos, mas tudo foi, aos poucos, sendo frustrado seja por erros que ele cometeu ou pela roda da história que esmagou possibilidades. Ginghină talvez seja o fruto da Romênia pós-união soviética, onde uma utopia se esvaiu ao longo dos anos. O acidente desse homem, no final dos anos de 1980, serve como um evento simbólico do fim da utopia. No fundo, ele é um sonhador, e as mudanças no futebol são apenas uma de suas propostas para um mundo melhor. O longa encontra o que há de mais humano nele, transcendendo tempo e espaço, e abre um diálogo até com quem nada entende de futebol, mas, mesmo assim, como Ginghină, sonha com um mundo melhor.  (Alysson Oliveira)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS - 28/10/18 - 13:40 (Domingo)
CINESESC - 29/10/18 - 14:00 (Segunda)
INSTITUTO CPFL - SALA UMUARAMA - 31/10/18 - 19:00 (Quarta)

EM CHAMAS
Adaptando obra do escritor japonês Haruki Murakami, Lee Chang-dong (diretor de Poesia, prêmio de melhor roteiro em Cannes há oito anos), explora muitos gêneros numa história cativante, em torno de um trio de jovens: a moça Haemi (Jun Jong-seo) e dois homens, o rico Ben (Steven Yeun) e o desempregado Jongsu (Yoo Ah-in). Não se trata de um mero triângulo amoroso e sim de um jogo de aparências, de verdades e mentiras, exercido nos mínimos detalhes – inclusive a existência, ou não, de um gato de estimação, cujo cuidado dá início ao próprio relacionamento entre Haemi e Jongsu.
Na verdade, os dois se conheceram na infância e se reencontram, anos depois. Depois de uma noitada, ela, que vai viajar à África, pede ao amigo que cuide de seu gato em sua ausência. O fato de que esse gato nunca é visto quando Jongsu vem alimentá-lo dá a largada sobre o que é, afinal, digno de ser acreditado, ou não. Tudo depende dos relatos, das palavras, de como se constrói a versão – e Jongsu é um aspirante a escritor, por isso, morde a isca.
Não só por isso. Jongsu é o personagem mais sensível, mais frágil, neste duelo que se forma entre ele e Ben, um jovem rico cuja atividade profissional é misteriosa e cujos relatos são igualmente hipnóticos para Jongsu, num sentido sinistro.
Há de tudo aqui – erotismo, suspense, drama, humanismo, comentário político-social – tudo isso construído com ritmo dramático e imagens impactantes, que ficam nos olhos muito depois que o filme acabou. Pode-se até não sentir a passagem das 2 horas e 28 minutos, tamanho é o poder de Chang-dong de colar os olhos dos espectadores na tela, suspendendo sua respiração em torno das vicissitudes de seu frágil herói, Jongsu. O final é poderoso. Mais não se diga sobre este filme que levou o prêmio da FIPRESCI como melhor longa da competição em Cannes 2018. (Neusa Barbosa)

CINESALA                                27/10/18 - 16:00 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   28/10/18 - 17:20 -  (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA POMPÉIA 1         29/10/18 - 21:00 - (Segunda)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    31/10/18 - 14:00 - (Quarta)

CAFARNAUM
Boa parte Deste filme, que venceu o Prêmio do Júri no mais recente Festival de Cannes, passa-se nas ruas de Beirute, o cenário da impressionante jornada de um menino de 12 anos, Zain (Zain Alrafeea). Explorado por seus pais, dois lúmpens, ele simplesmente não tem existência civil – devido aos custos, ele nunca foi registrado, o que o mantém fora da escola e dos serviços de saúde. Para ajudar a sobrevivência da família, ele trabalha em várias coisas, o que não impede que seja maltratado. Sua obsessão é tentar proteger a irmã (Cedra Izam), que os pais querem entregar ao comerciante que é patrão do menino assim que a garota, aos 11 anos, tem a primeira menstruação.
A jornada de Zain o levará longe da família, sendo incorporado ao núcleo formado por uma imigrante africana ilegal (Yordanos Shifera) e seu filho pequeno, Yonas (Treasure Bankole). Juntos, Zain e Yonas protagonizam algumas das sequências mais angustiantes do filme, que ilustram a total exposição deles a um mundo dos adultos incapazes de protegê-los.
Honesto e contundente como é, em seus princípios, o filme de Nadine peca por um excesso de boas intenções, além de querer contemplar assuntos demais, embora seja justo observar que representa um notável crescimento da diretora. Outro pecado é colocar na boca do pequeno Zain um discurso, representando evidentemente o pensamento da diretora, que não convence, porque não cabe no universo dele. Fica difícil aceitar que Zain, vivendo como vive, procure a justiça para acionar os pais por “tê-lo trazido ao mundo”. Enfim, Cafarnaum peca por este excesso no melodrama e no discurso, mas acerta quando deixa seus pequenos protagonistas viverem em cena situações que experimentaram de verdade, como fica evidente. (Neusa Barbosa)

CINEARTE PETROBRÁS 1                    27/10/18 - 21:20 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2  30/10/18 - 21:30 - (Terça)
CINESESC                                31/10/18 - 17:40 - (Quarta)

UM TREM EM JERUSALÉM
Diretor israelense habituê da Mostra, com uma densa obra em seu currículo, Amos Gitai entrega mais uma obra que dialoga com as tensões e diferenças entre árabes e judeus em seu país – e cuja polarização pode ser entendida por qualquer país no mundo hoje, inclusive o Brasil.
O cenário é um trem urbano que atravessa vários bairros de Jerusalém, percorrendo zonas palestinas e judias. Acompanha-se várias pequenas histórias que, como esquetes, abordam temas diversos. Há um turista francês (Mathieu Amalric) e seu filho (Elias Amalric), o pai lendo um texto do escritor Gustave Flaubert, que descreve uma viagem a Jerusalém no século 19, um texto que guarda misteriosas conexões com a situação de hoje. O mesmo turista conversa depois com um casal local, que insiste em pontuar as qualidades de seu exército, enquanto o forasteiro se apega às qualidades do sol e outras atrações da cidade.
Há de tudo, intrigas amorosas – como a separação de um jovem casal, ele soldado, partindo para seu serviço militar; um casal à beira do divórcio; a tentativa de reatamento de uma ligação por um segurança do trem (Liron Levo); uma jovem descrevendo um caso tórrido à sua melhor amiga. Não falta também uma impagável “iídiche mama”, capaz de confrontar, num determinado momento, um jovem judeu ortodoxo sobre seu comportamento. Há muita música, e da boa, unindo as pontas das várias histórias, que alinham emoções de todos os graus, compondo um caleidoscópio atraente e reflexivo, em que não falta nem mesmo uma menção a Leon Trotsky. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 27/10/18 - 14:00 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3  30/10/18 - 19:50 - (Terça)

TÚMULOS SEM NOME
O premiado cineasta cambojano Rithy Panh volta ao tema central de sua obra – o genocídio promovido pelo regime do Khmer Vermelho entre 1975 e 1979, que vitimou cerca de 1,5 milhão de pessoas, inclusive, vários membros de sua própria família, como ele retrata em A Imagem que Falta (2013).
O diretor é visto em cena na sequência inicial deste documentário, participando de um ritual budista para “quebrar o infortúnio”, no seu caso a perda de 19 familiares. Mas não se trata apenas de uma recordação pessoal, já que o diretor parte em busca de outros testemunhos de pessoas que viveram aquele período, algumas delas procurando ainda informações de onde podem estar os despojos de seus parentes que, como a maioria dos mortos, foi sepultado em covas coletivas e sem identificação.  
Alguns destes depoimentos impressionam pelo detalhamento deste absurdo momento histórico do país asiático, quando o regime comunista, liderado por Pol Pot, implantou uma espécie de ditadura agrária, esvaziando as cidades e transformando praticamente todo mundo em camponês, escravo e ainda por cima submetido a um regime de fome – muitas vítimas, inclusive, morreram pura e simplesmente de desnutrição e doenças decorrentes dela, inclusive crianças.
Os testemunhos permitem também reconstituir um tempo de medo, delações mútuas e esgarçamento de valores e relações sociais. Não seria possível sair de uma experiência assim radical sem cicatrizes profundas, com as quais o Camboja, quarenta anos depois, ainda procura lidar. (Neusa Barbosa)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 - VILLA LOBOS28/10/18 - 20:50 - (Domingo)


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