Começa a repescagem com destaques da Mostra

Reta final da Mostra tem destaques nacionais e ibero-americanos

Equipe Cineweb
Na reta final da Mostra, uma conversa com a atriz francesa Astrid Adverbe, musa em “O Trem das Vidas ou A Viagem de Angélique”, de Paul Vecchiali, dois sólidos filmes brasileiros, “Sequestro-relâmpago”, de Tata Amaral, e “O Olho e a Faca”, de Paulo Sacramento, e um contundente documentário ambiental, “Viaje a los Pueblos Fumigados”, do mestre argentino Fernando Solanas.
 
ENTREVISTA: Astrid Adverbe
De 2011 até hoje, a atriz Astrid Adverbe fez cinco filmes com o diretor Paul Vecchiali  – quatro deles foram exibidos na Mostra, inclusive o mais recente, Trem das vidas ou a viagem de Angélique, no qual ela faz a personagem-título. O filme inteiro se passa dentro de trens e é uma investigação sobre o amor e o desejo feminino.
A atriz, que está em São Paulo como jurada da Mostra, contou em entrevista ao Cineweb que cada filme com o diretor é um processo muito particular e peculiar. “É sempre como se fosse a primeira vez, mas também temos uma relação muito próxima. Ele me chama de ‘filha’, e ao Pascal Cervo [outro ator recorrente do cineasta], de ‘filho’”. Ela considera todos os papeis como presentes recebidos, ainda mais que foram escritos especialmente para ela.
O método de trabalho de Vecchiali, segundo ela, inclui muitos ensaios, a ponto de as atrizes e atores se tornarem donos dos personagens. Nesse momento é que devem surgir as sugestões, especialmente para o elenco se apropriar dos diálogos. “As falas, para ele, são como roupas: a gente deve usar, deve estar confortável com elas. Mas depois de tudo resolvido, antes das filmagens, no set, ele não gosta que façamos mudanças de última hora”.
Trem das vidas foi filmado ao mesmo tempo que Os 7 desertores – exibido na Mostra do ano passado e que retrata um grupo que se reúne numa aldeia depois de desertar. Adverbe conta que foram produções bem diferentes, e que a mais recente demandou mais. “Todo o elenco atua praticamente o tempo todo sentado neste filme. Foi um desafio, já que os gestos estão limitados, as opções de atuação são poucas. Atuar aqui foi como seguir um trem e deixar-se levar”. Todas as cenas são filmadas sem cortes e poucas vezes – geralmente, apenas duas tomadas. “Tínhamos que estar muito preparados para tudo dar certo”.
Atualmente, Vecchiali está trabalhando numa adaptação do romance clássico A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho. Vindo dele, obviamente, sabemos que não deverá ser um filme muito convencional. A atriz, que deverá fazer o papel-título, conta que sabe muito pouco ainda sobre o longa, mas que deve ser rodado já no próximo ano. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 - 29/10/18 - 15:15 (Segunda)
CINESESC - 30/10/18 - 17:50 (Terça)
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM - 31/10/18 - 15:00 (Quarta)

O INGREDIENTE SECRETO
Estaé, no mínimo, uma comédia inusitada, vinda da Macedônia e tendo como ponto de partida a maconha. Escrito e dirigido por Gjorce Stavreski, mais do que uma crítica social numa região sempre política e socialmente turbulenta, o longa é de um humor sem pudor, mas com muita ternura.
Vele (Blagoj Veselinov) trabalha na manutenção de trens na rede ferroviária e mora com seu pai, Sazdo (Anastas Tanovski), que tem câncer avançado no pulmão. O dinheiro está curto para comprar remédios e a saúde pública é calamitosa. A Sazdo não resta muito a não ser esperar que seus dias passem. Vele, porém, encontra um pacote com diversos tipos de drogas escondido num vagão vazio e o leva para casa.
Desesperado, sem conseguir comprar os medicamentos para o pai, o jovem pesquisa na internet os poderes medicinais da canabis e encontra a receita de um brownie. Sazdo começa a servir-se da iguaria diariamente – sem saber o que tem ali, pois, conservador, certamente brigaria com o filho e nem comeria do bolo. Milagrosamente, o câncer entra em remissão.
O ingrediente secreto é uma comédia um tanto fantasiosa, é claro, mas com o pé fincado na dura realidade da Macedônia. Na mesma época em que Sazdo começa a melhorar, os verdadeiros donos das drogas entram em cena à procura de sua mercadoria.
O filme, que começa um tanto cínico, vai ganhando ares mais otimistas e ternos. Seu charme está nos personagens e na forma inusitada como toda a situação é conduzida. Vele é tomado como um curandeiro na vizinhança e pessoas com os mais variados problemas de saúde batem à sua porta.
Repleto de charme, otimismo e humor, não vai ser de estranhar se O ingrediente secreto ganhar um remake hollywoodiano. Atores não devem faltar para candidatar-se ao papel de Vele. O filme concorre pela Macedônia a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. (Alysson Oliveira)

ÚLTIMA EXIBIÇÃO:
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 29/10/18 - 19:50 (Segunda)

MUERE, MONSTRUO, MUERE
Este segundo longa do argentino Alejandro Fadel começa com uma imagem forte: em meio a uma criação de ovelhas, o sangue espirra, sujando-as. Por um tempo, a câmera ainda mostra a origem do sangue, até que entra em quadro uma jovem com um corte profundo no pescoço. Vemos – ou, ao menos, temos a sensação de ver – seus tendões, músculos e ossos. Isso não para por aí: ela tenta, com suas próprias mãos, recolocar sua cabeça no lugar (!). É uma abertura grotesca para um filme que mergulha no gênero sem pudor – o que acaba sendo, ao mesmo tempo, sua maior qualidade e defeito.
O “monstruo” do título não é imaginário, nem sugerido. Lá pela metade do filme, a criatura aparece em cena e sua visão é algo que não se esquece facilmente. Seu rabo é um longo pênis capaz de estrangular pessoas; sua cabeça, uma vagina dentata. Monstros em filme devem – ao menos os eficientes – encerrar em si algum comentário social, histórico, moral. O que não é bem o caso aqui, já que é tudo tão rarefeito ou cifrado que se custa a compreender qual mal-estar essa criatura representa.
Fadel, que também assina o roteiro, constrói o filme como um procedimento investigativo, em que o policial Cruz (Victor Lopez) tenta desvendar uma série de crimes. O principal suspeito é David (Esteban Bigliardi), sujeito dado a alucinações, casado com uma mulher com quem Cruz tem um caso.
Se, num primeiro momento, Muere, monstruo, muere é um filme direto, de gêneros (policial e de monstro), mais tarde as elipses e floreios visuais começam a atrapalhar – curiosamente, o filme vai perdendo o interesse na medida em que a criatura começa a ganhar mais tempo em cena. Os crimes não param e mais mulheres decapitadas são encontradas.
Fadel, que foi corroteirista de Elefante Branco e Abutres, de Pablo Trapero, tem boas ideias, mas nem sempre sabe o que fazer com elas. Com 109 minutos, o filme parece longo demais, especialmente por sua falta de rumo em sua reta final. Flertando com os estilos de Guillermo Del Toro, David Lynch e Bong Joon-ho, mas sem a segurança deles, ainda assim Fadel revela-se um diretor a se prestar atenção. (Alysson Oliveira)

ÚLTIMA EXIBIÇÃO:
PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 - 22/10/18 - 17:30 (Segunda)

DOMINGO
Dirigido por Clara Linhart e Fellipe Barbosa (este o autor de Casa Grande e Gabriel e a Montanha), o ponto de partida de Domingo, ambientado no interior gaúcho (foi filmado em Pelotas), foi um roteiro de Lucas Paraíso (autor do roteiro do drama Aos teus olhos). Como o roteiro veio sendo desenvolvido desde 2005 – a história situa-se temporalmente no dia da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 1 de janeiro de 2003 - compreensivelmente passou por diversas mudanças, tentando acompanhar um contexto político cada vez mais imprevisível.
Assim, cresceram personagens como o da empregada Inês (Silvana Sílvia), única negra dentro do elenco, que é uma figura não submissa e capaz de eventualmente fazer frente à autoritária matriarca Laura (Ítala Nandi). As mudanças dramatúrgicas nos empregados vieram também de contribuições dos próprios atores. O filme, aliás, é construído em torno de uma grande dose de improvisações, celebradas por longos planos-sequências.
Estas relações de poder, não raro permeadas por rituais de crueldade, são colocadas em primeiro plano na história, que acompanha a realização de um churrasco, reunindo duas famílias, a dos donos de uma grande casa decadente e também a de um de seus empregados (Michael Wahrmann, Martha Nowill e seus filhos). Nesta casa, são empregados domésticos Inês, sua filha Rita (Maria Vitória Valença) e José (Clemente Viscaíno), um velho sem família cuja vida gira inteiramente em torno destes patrões.
Assim como Casa Grande, do mesmo diretor, e Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, trata-se de um filme instrumental para repensar um Brasil colocado, mais do que nunca, diante de si mesmo. (Neusa Barbosa)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS - 29/10/18 - 21:20 - (Segunda)
INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA     30/10/18 - 16:40 - (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 31/10/18 - 14:00 - (Quarta)

VIAJE A LOS PUEBLOS FUMIGADOS
O novo documentário do sempre engajado diretor argentino Fernando Solanas é um consistente alerta ambiental. Percorrendo sete províncias argentinas, investiga os efeitos desastrosos da aplicação de agrotóxicos (particularmente o glifosato) que, se por um lado aumentou extraordinariamente a produtividade de culturas como a da soja, por outro, multiplicou na mesma medida a quantidade e a gravidade de problemas de saúde – com mortes, doenças diversas (inclusive diversos tipos de câncer) e má-formação de fetos.
Ao mesmo tempo que denuncia estes problemas e fornece o histórico de como se chegou à atual situação, Solanas ouve técnicos e produtores agrícolas que praticam formas alternativas a esta agricultura de grande impacto ambiental, utilizando técnicas que igualmente proporcionam produtividade sem os efeitos danosos para a saúde coletiva, caso das “fazendas mistas”. Estes exemplos permitem especular que outros modelos de desenvolvimento são possíveis e, por todos os imensos danos ambientais do atual modo de produção (que é usado também no Brasil), devem ser urgentemente repensados, se queremos que o planeta sobreviva. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   29/10/18 - 19:20 - (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   30/10/18 - 20:10 - (Terça)
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP     31/10/18 - 15:00 - (Quarta)

O GRANDE CIRCO MÍSTICO
Um dos nomes fundamentais do Cinema Novo, Cacá Diegues foi convidado ao Festival de Cannes em competição pelo menos três vezes, nos anos 1980 (Bye Bye BrasilQuilombo e Um trem para as estrelas), fora outras passagens em mostras paralelas e júri (Caméra d’Or, 2012). Em 2018, ele veio fora de competição, com seu drama musical O Grande Circo Místico, coprodução com Portugal e França concluída em 2015.
O roteiro, do próprio Cacá e George Moura, expande um poema de Jorge de Lima, e acompanha várias gerações de uma família circense, a partir de 1910. Amparado nas belíssimas músicas de Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo para o musical homônimo dos anos 1980, o filme ostenta visível ambição técnica e visual para materializar sonhos. Uma das características mais evidentes deste registro em busca do fantástico é o personagem de Celavi (Jesuíta Barbosa), mestre de cerimônias do circo que acompanha as diversas gerações ao longo do tempo sem envelhecer – e é uma das presenças mais carismáticas da história, como alívio cômico e tudo o mais.
Nem tudo o mais funciona tão bem. A narrativa de Cacá é, assumidamente, uma corrida em faixa própria, fiel apenas àquilo em que o cineasta acredita, sem dar bola para a torcida, como se diria popularmente. O perigo nisso tudo é não conseguir encantar o público na mesma medida, ainda mais que as sensibilidades modernas para a figura feminina e o sexo podem não sentir-se à vontade nesta visão. As cenas de sexo, por exemplo – fora a primeira (um tanto voyeur), as demais são todas situações em que as mulheres estão desconfortáveis ou são forçadas mesmo. Em contraponto, a sequência em que duas moças “voam” nuas – um trabalho de efeitos especiais – tem um pouco mais da leveza que faltou em outros momentos, apesar de uma visão um tanto datada de erotismo. O filme é o candidato brasileiro a uma vaga entre os cinco concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro. (Neusa Barbosa)

ÚNICA EXIBIÇÃO:
ESPAÇO ITAÚ POMPÉIA - SALA IMAX         29/10/18 - 21:00 - (Segunda)

PEREGRINAÇÃO
O veterano cineasta português João Botelho aqui nos brinda com uma adaptação literária e histórica, que é embelezada por trechos lindamente cantados por um elenco quase inteiramente masculino. O enredo contempla as aventuras – reais ou inventadas – do aventureiro Fernão Mendes Pinto (Cláudio da Silva), que viajou por mais de 20 anos em diversos países do Oriente, como China e Japão, no século 16.
Se são verdades ou mentiras suas façanhas, que incluem diversos naufrágios e capturas, com direito a escravização, de todas as quais sobreviveu, e alguns romances, é discutível – e o filme incorpora essa dúvida entre lenda e fato, o que é uma das graças da narrativa que, certamente, não atenderá aos paladares de todos, mas é filme a prestar atenção, dado o currículo de Botelho, um profundo admirador da melhor literatura e autor de obras como Filme do Desassossego e Os Maias – Cenas da Vida Romântica.
Um destaque no elenco é o ator carioca Cassiano Carneiro, que tem uma participação impagável como o constante intérprete do protagonista nos diversos países orientais. (Neusa Barbosa).

CINEARTE PETROBRÁS 2                    29/10/18 - 17:40 - (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   31/10/18 - 14:00 - (Quarta)

SEQUESTRO-RELÂMPAGO
O novo filme de Tata Amaral tem adrenalina e uma pegada de suspense e perigo ao retratar a situação do título, numa história baseada em fatos reais.
Isabel (Marina Ruy Barbosa) é a garota de classe média, dona de um SUV, que é abordada na saída de um bar por dois jovens, Matheus (Sidney Santiago Kuanza) e ‘Japonês’ (Daniel Rocha). A partir daí, os três rodam pela noite, por diversos bairros da cidade de São Paulo, à procura de resolver a situação-chave, ou seja, tirar dinheiro da conta da moça.
Uma série de incidentes complicam esta obtenção do dinheiro, levando a situação a mudar rapidamente, alterando o domínio da situação – de um para o outro sequestrador, que têm perfis bem diferentes, eventualmente com alguma vantagem psicológica para a própria vítima, que também sabe jogar com o pouco que tem.
De todo modo, o filme é vibrante e mantém uma real sensação de perigo iminente. O roteiro, assinado por Tata, Marton Olympio e Henrique Pinto, não descuida de traçar um bom perfil de cada um dos personagens, fugindo ao maniqueísmo. Outros aspectos levados em conta são o contexto social e a extrema diversidade social da metrópole paulistana. O que, de quebra, serve para um retrato em 3x4 do próprio país. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO (E COM ACESSIBILIDADE):
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   29/10/18 - 16:20 - (Segunda)

O OLHO E A FACA
Autor de filmes empenhados, como o documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro e a ficção Riocorrente, o diretor paulista Paulo Sacramento dá um passo adiante, num drama contemporâneo, com outro tipo de ambição e busca de diálogo com o público, ambientado num cenário pouco retratado no cinema nacional: o das plataformas de petróleo.
Roberto (Rodrigo Lombardi) é um petroleiro veterano, que mantêm com os colegas uma relação próxima e fraterna. Num trabalho onde o risco de vida é constante e não se pode descuidar dos mínimos procedimentos de segurança, essa integração é um dado nada desprezível.
Uma iminente promoção começa a semear inquietação neste pequeno grupo. A partir daí, há uma desestruturação constante do mundo de Roberto, em que cabe também uma crise matrimonial com a esposa (Maria Luísa Mendonça) e com o filho mais velho, adolescente em fúria.
Embora tenha suas inconsistências (a personagem da esposa mereceria um aprofundamento maior), trata-se aqui de um drama denso e respeitável, em que estão inseridas algumas das maiores questões do mundo contemporâneo, como o envenenamento das relações de trabalho, a dissolução das ligações de afeto, a insegurança masculina na constituição de sua nova figura nestes novos tempos. Há cenas que são particularmente eficazes para materializar os dilemas do protagonista, como sua interação afetuosa com o filho caçula (Antonio Haddad) e um duelo verbal com o personagem vivido por Caco Ciocler, este um ponto alto do filme. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO:
PLAYARTE MARABÁ - SALA 4                29/10/18 - 16:40 - (Segunda)

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança