Começa a repescagem com destaques da Mostra

Série francesa, drama vietnamita e comédia americana no penúltimo dia da Mostra

Equipe Cineweb
Está chegando a hora das últimas chances de ver algumas das melhores atrações da Mostra, caso do longa de estreia do diretor norte-americano Paul Dano, “Vida Selvagem”; da série francesa “Coincoin e os inumanos”, de Bruno Dumont; do clássico restaurado “La Hora de los Hornos”, do argentino Fernando Solanas; e do belo drama de época vietnamita “A Terceira Esposa”, da diretora Ash Mayfair.
 
 
 VIDA SELVAGEM
Paul Dano sempre foi um ator interessante, que constrói personagens de maneira sutil. Sua força na tela emerge de maneira quase imperceptível – basta ver Sangue negro, em que fica lado a lado com Daniel Day-Lewis e praticamente à mesma altura. Por isso, não é surpresa que sua estreia como diretor, Vida selvagem, corresponda à maneira como atua: é discreto até que explode. Nessa explosão, Carey Mulligan brilha como nunca.
Baseado num romance de Richard Ford – com roteiro adaptado por Dano e Zoe Kazan, sua mulher – o filme tem como cenário uma região repleta de florestas em Montana, numa época do ano em que, devido à seca, o fogo se alastra com facilidade, sendo preciso muitos homens para apagar. Como muita gente está desempregada, eles trabalham por míseros 1 dólar por hora. Jerry (Jake Gyllenhaal) é um deles, que abandona a mulher, Jeanette (Mulligan), e o filho de 14 anos, Ed (Ed Oxenbould), na casa para onde acabaram de mudar para, como diz, “sentir-se útil”.
A época é o começo dos anos de 1960, sendo que a sociedade da década anterior ainda é um peso forte sobre os personagens. A revolução sexual, a Guerra do Vietnã, Woodstock, tudo isso estava longe. Mas Jean, como é chamada, assume o comando da família na ausência do marido e o casamento entra em crise, especialmente quando ela conhece Warren (Bill Camp), um de seus alunos de natação.
O filme é narrado pelo ponto de vista de Ed, focalizando a perda da inocência de um garoto de 14 anos, descobrindo que o mundo (e a vida a dois) não é exatamente como ele pensava. Em Oxenbould, o filme encontra um ator à altura das necessidades do personagem. Ele pouco fala e muito observa. As mudanças ao seu redor são rápidas demais para ele processar e, quando consegue, pode ser devastador para ele.
Na superfície, Vida Selvagem é quase um drama convencional, muito bem atuado e muito perspicaz em seu retrato da vida numa pequena cidade dos EUA na época. Mas Dano, como não podia deixar de ser, de forma discreta, revela-se um diretor promissor. A paleta de cores em tons pastel – assinada pelo uruguaio Diego García, de Boi Neon e Cemitério do esplendor – retratam à perfeição este limite da inocência que vai sendo consumida, como a floresta pelo fogo. Há algo de claustrofóbico aqui - os personagens parecem presos a uma vida da qual precisam se libertar, sufocados até.
Se Gyllenhaal fica fora de cena boa parte do filme, é Mulligan quem domina a cena. Como sua personagem é sempre vista pelos olhos do filho, há um toque de Édipo contidamente apaixonado pela mãe – talvez porque ela é a única mulher que conhece. Ela o trata como adulto, apesar do lado materno forte, e a relação deles é peculiar. Todos eles estão, na verdade, como a sociedade americana daquele momento, no limite. Uma mudança é inevitável – para eles e para o mundo. (Alysson Oliveira)

ÚLTIMA SESSÃO:
CINEARTE PETROBRÁS 1-30/10/18 - 18:40 (Terça)

VIDAS DUPLAS
A certa altura deste novo filme do francês Olivier Assayas, alguém cita a famosa frase de O Leopardo: “As coisas precisam mudar para continuarem as mesmas”. Esta é a ideia central aqui, embora o filme francês desloque a frase de política para o plano pessoal dos personagens. Se há alguma política aqui é a dança do mercado editorial, cada vez menos interessado em literatura e ainda menos em livros impressos.
Ao centro desta que é também comédia de costumes, estão dois casais e um romance entre eles. Alain (Guillaume Canet) é um editor, Leonard (Vincent Macaigne), um escritor que nunca obteve grande sucesso mas vendia mais ou menos. Mas seu novo trabalho, com o curioso título de Ponto final, não é aceito por Alain. Cada um deles é casado: Selena (Juliette Binoche) é mulher do editor, atriz que encontrou sucesso agora que faz uma série policial; Valérie (Nora Hamzawi, uma revelação) é mulher do escritor, um tanto distante do mundo das letras.
Uma das questões centrais em Vidas duplas é a maneira como a alta cultura e a de massas se interconectam – uma depende da outra, mas as coisas precisam mudar para nenhuma das duas desapareça. O romance (supostamente) sofisticado de Leonard e a série de televisão popular de Selena, embora, isso não seja escancarado, dependem um do outro para existir. No filme, isto é espelhado pelos casos dos personagens. Leonard tem um affair com Selena e Alain com uma funcionária (Christa Théret), que cuida da transição dos livros da editora para o formato digital.
O filme é extremamente falado, e o roteiro – também assinado por Assayas – é sutil na sua construção, embora custe um tanto a engrenar. A discussão inicial, entre o editor e o romancista, é longa e um tanto impenetrável – possivelmente de propósito —, e só termina quando Leonard descobre que seu livro não será publicado. Embora, no começo, seja um tanto complicado para o público achar seu caminho no longa, quando, finalmente, isso acontece, Vidas duplas é preciso, pois evita esquematismos rasos, resoluções fáceis. Seus personagens são reais – o que pode gerar uma brincadeira com o romance que, revela-se depois, é de autoficção. Leonard colocou, disfarçadamente, sua vida lá, inclusive a amante, que é mulher de seu editor. E há também alguns momentos hilários dentro do filme – especialmente envolvendo algumas menções a A fita branca e à própria Binoche.
A menção à fala de O leopardo – que, ao contrário do que acreditam os personagens aqui, não é no final do livro – pode ser a chave de compreensão. O romance italiano – adaptado para o cinema por Luchino Visconti – é sobre um mundo em vias de transformação, figuras que resistem a essa e outras que se deixam levar. Esse é o dilema que faz a roda da história mundial se mover – e, nesse sentido, Vidas duplas é um filme para o nosso tempo. (Alysson Oliveira)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1- VILLA LOBOS30/10/18 - 21:30 (Terça)
CINESESC - 31/10/18 - 15:30 (Quarta)


COINCOIN E OS INUMANOS
Bruno Dumont faz uma sequência à sua impagável série O Pequeno Quinquin (2014), produzindo mais quatro episódios, apresentados em sequência. O Quinquin da primeira série, Alane Delhaye, cresceu, virou adolescente e agora é tratado pelo apelido de Coincoin.
Ele continua sua vidinha rotineira no norte francês. Sua melhor amiga, Eve (Lucy Caron), está namorando outra menina, Corinne (Priscilla Benoist), frustrando Coincoin, que então passa a namorar Jenny (Alexia Depret).
Fora isso, ele fica matando tempo com seu amigo Gordo (Julien Bodard). Os dois fazem segurança para as reuniões de um certo Bloco, um partido nacionalista, ao mesmo tempo que observam o estranho fenômeno que se abate sobre a região: uma estranha meleca negra que cai do céu sem aviso, produzindo grandes manchas no chão ou sujando, como petróleo, a cabeça das vítimas desavisadas.
A habitual dupla de policiais trapalhões, o inspetor van der Weyden (Bernard Pruvost) e o tenente Carpentier (Philippe Jore), é chamada para investigar, colocando sua total falta de lógica a serviço do desvendamento do caso. A polícia técnica afirma que o material da geleca é alienígena, somando mistério à situação.
Enquanto isso, custa-se a perceber o efeito do material alienígena – estão começando a produzir-se clones de algumas pessoas, não se sabe com que objetivo.
Como de hábito, o humor é um tanto bizarro, para começar com a coleção de caretas do inspetor e as manobras de dublê com o carro da polícia, praticadas por Carpentier. Não faltam comentários à situação social, com as aparições de refugiados, que são tratados quase como extraterrestres pelo inspetor. E o final, apoteótico, é uma espécie de apocalipse felliniano. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA EXIBIÇÃO:
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM          30/10/18 - 17:00 - (Terça)

EL MOTOARREBATADOR
Exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes, este segundo longa do cineasta argentino Agustín Toscano combina eficientemente intimismo com drama social. Conta a história de Miguel (Sergio Prina), jovem motoqueiro que rouba bolsas de mulheres junto com um parceiro. Um dia, uma mulher se agarra desesperadamente à sua bolsa e eles a arrastam por alguns metros, deixando-a ferida.
Consumido pela culpa e o temor de tê-la matado, Miguel começa a procurar notícias nos hospitais, até localizar sua vítima, Elena (Liliana Juarez), que está inconsciente. Ela desperta com amnésia e Miguel, inventando uma história falsa, passa a visitá-la. A situação evolui em outras direções, reservando reviravoltas, surpresas e algum suspense, compondo personagens de complexidade admirável. (Neusa Barbosa)  

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2  30/10/18 - 16:00 - (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  31/10/18 - 21:50 - (Quarta)

LA HORA DE LOS HORNOS
O clássico documentário político do veterano diretor argentino Fernando Solanas, realizado entre 1966 e 1968, circula nesta Mostra em cópia restaurada. Repassa, com a veemência engajada da época, o processo neocolonial argentino, apresentando inúmeros episódios de opressão e resistência dos trabalhadores do país, discutindo as ditaduras e o peronismo dentro de um painel que se pretende amplo e profundo. São citados trechos de outros filmes, como Tire Die, de Fernando Birre, e Maioria Absoluta, do brasileiro Leon Hirzman – que aborda o analfabetismo -, relacionando processos análogos de exploração dentro dos dois países e de outros da América Latina. Esses processos, como define o diretor, vieram sistematicamente destruindo a ideia de nação. Em que pesem os 50 anos passados de sua realização, o documentário tem imenso e significativo material para reflexão e análise para os tempos de hoje. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA EXIBIÇÃO:
CINEARTE PETROBRÁS 2                    30/10/18 - 15:45 - (Terça)

O BATERISTA E O GOLEIRO
O diretor irlandês Nick Kelly é estreante em longas mas não exatamente um principiante. Nos anos 2000, foi curta-metragista premiado, dirigiu o Irish Film Archive, fez comerciais e também foi vocalista da banda The Fat Lady Sings.
Kelly assina o roteiro, desenvolvendo a história de uma amizade improvável entre dois jovens desajustados. Um deles é Gabriel (Dermot Murphy), baterista de uma banda que não consegue manter uma carreira por ser bipolar, dependente de drogas e com uma tendência à piromania. Depois de mais um surto, ele é encaminhado pela terapeuta a uma instituição, com a recomendação de que se dedique a um esporte – no caso, futebol.
Obrigado a frequentar a atividade para não ser internado, Gabriel cria um conflito com Christopher (Jacob McCarthy), que tem síndrome de Asperger. Apesar de ter começado mal, o relacionamento entre os dois evolui, especialmente quando Gabriel descobre a incrível capacidade de Christopher para organizar rapidamente os instrumentos de sua banda, o que é uma ajuda e tanto. A interação entre os dois tem vantagens mútuas, mas não é isenta de riscos, já que nenhum deles está propriamente equipado para viver no mundo real. O filme tem sensibilidade e empatia por estes seres frágeis e uma sinceridade comovente. (Neusa Barbosa)

CINESALA                                30/10/18 - 16:20 - (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2  31/10/18 - 16:00 - (Quarta)

CAUBÓIS FANTASMAS
O documentário de Daniel Patrick Carbone, seu segundo filme, acompanha, por alguns anos, três garotos crescendo em diferentes regiões dos EUA: no deserto da Califórnia, nos vales da Virgínia e nos campos de cana-de-açúcar da Flórida.
Neste acompanhamento, o filme capta os sonhos e projetos de cada um, para confrontá-los com o que aconteceu, alguns anos depois, expondo as diferenças de experiências e oportunidades que determinaram o destino de cada um destes jovens. Bastante bem-filmado e com sentido de ritmo, o documentário foca eficazmente seu tema, fornecendo um vívido retrato de geração nos EUA contemporâneos, uma atualização realista do velho “sonho americano”. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO:
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP     30/10/18 - 17:00 - (Terça)

A TERCEIRA ESPOSA
Esta belíssima produção vietnamita, estreia em longas da diretora Ash Mayfair, é um denso retrato sobre o machismo no Vietnã do século 19.
May (Nguyen Phuong Tra My) é uma garota de 14 anos que está se tornando a terceira esposa de um rico latifundiário, numa época em que meninas eram trocadas como mercadorias pelas famílias. A esperança é que ela dê ao marido os filhos homens que as outras duas esposas ainda não conseguiram garantir ao clã.
Neste ambiente das mulheres, há o acolhimento da novata, mas também uma intensa e surda competição. A esposa mais velha fica enciumada quando a menina engravida e passa a ser o centro das atenções. Inesperadamente, May descobre um segredo sobre uma das outras esposas. É neste momento que vai se afirmar como ela está dominando os códigos de poder e manipulação dentro deste fechado ambiente doméstico.
A produção é muito bem-cuidada, com bela fotografia e reconstituição de época. O roteiro, também de autoria da diretora, foi escolhido pelo diretor norte-americano Spike Lee para um financiamento de seu Spike Lee Film Production Fund em 2014, além de ter sido semifinalista na competição de roteiros Screen Craft Screenplay Competition, em 2015. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO:
CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS- 30/10/18 - 17:30 -  (Terça)

DOMINGO
Dirigido por Clara Linhart e Fellipe Barbosa (este o autor de Casa Grande e Gabriel e a Montanha), o ponto de partida de Domingo, ambientado no interior gaúcho (foi filmado em Pelotas), foi um roteiro de Lucas Paraíso (autor do roteiro do drama Aos teus olhos). Como o roteiro veio sendo desenvolvido desde 2005 – a história situa-se temporalmente no dia da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 1 de janeiro de 2003 - compreensivelmente passou por diversas mudanças, tentando acompanhar um contexto político cada vez mais imprevisível.
Assim, cresceram personagens como o da empregada Inês (Silvana Sílvia), única negra dentro do elenco, que é uma figura não submissa e capaz de eventualmente fazer frente à autoritária matriarca Laura (Ítala Nandi). As mudanças dramatúrgicas nos empregados vieram também de contribuições dos próprios atores. O filme, aliás, é construído em torno de uma grande dose de improvisações, celebradas por longos planos-sequências.
Estas relações de poder, não raro permeadas por rituais de crueldade, são colocadas em primeiro plano na história, que acompanha a realização de um churrasco, reunindo duas famílias, a dos donos de uma grande casa decadente e também a de um de seus empregados (Michael Wahrmann, Martha Nowill e seus filhos). Nesta casa, são empregados domésticos Inês, sua filha Rita (Maria Vitória Valença) e José (Clemente Viscaíno), um velho sem família cuja vida gira inteiramente em torno destes patrões.
Assim como Casa Grande, do mesmo diretor, e Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, trata-se de um filme instrumental para repensar um Brasil colocado, mais do que nunca, diante de si mesmo. (Neusa Barbosa)

INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA     30/10/18 - 16:40 - (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 31/10/18 - 14:00 - (Quarta)

AMOR ATÉ ÀS CINZAS
O diretor chinês Jia Zhang-ke faz um giro reflexivo, mais uma vez em torno de seu grande país, revisitando tanto seu filme anterior, As Montanhas se Separam (2015), quanto outros mais antigos, como Em Busca da Vida (2006) – neste caso, até porque revisita o emblemático cenário da barragem das Três Gargantas. O cineasta chinês não está buscando um choque de referências e sim uma análise sobre o processo histórico em seu país, focalizando mais uma vez a ocidentalização e a virada capitalista dos anos 2000.
À medida que entra na maturidade (tem 48 anos), o diretor torna-se cada vez mais cético, centrando sua história em torno da admirável Zhao Tao, sua mulher e atriz-fetiche. Sua personagem compõe um denso arco ao longo dos cerca de 18 anos que atravessa, passando de namorada mimada de um chefete gângster (Liao Fan) a uma mulher endurecida, comandando seu próprio negócio no mundo do jogo.
O rosto de Zhao Tao é uma espécie de mapa emocional de Amor até às Cinzas, alternando as notas emocionais que a percorrem, do amor à decepção, do conformismo à raiva, incorporando também momentos de humor e doçura. Este rosto atravessa também muitas paisagens da China, nas quais Zhang-ke edifica sua reflexão sobre o que se tornou, afinal, este país que impressiona o mundo todo e permanece uma espécie de continente à parte – não isolado, no entanto, do Ocidente, como o filme mostra de várias maneiras, incluindo as impagáveis passagens musicais pop, que vibram de maneira peculiar, satírica e também pungente.
Como em As Montanhas se Separam, há uma história de amor fraturada no centro de tudo, carregada de amargura e realismo. As sequências de violência, como lutas de gangues, são de um realismo impecável, dignas de um filme policial – uma qualidade que Zhang-ke veio aperfeiçoando ao longo dos anos. Mas, acima de tudo, o filme mais parece um espelho oriental colocado diante do Ocidente, que exporta suas modas, estilos musicais e o onipresente capitalismo. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  30/10/18 - 16:00 - (Terça)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    31/10/18 - 21:10 - (Quarta)

VIAJE A LOS PUEBLOS FUMIGADOS
O novo documentário do sempre engajado diretor argentino Fernando Solanas é um consistente alerta ambiental. Percorrendo sete províncias argentinas, investiga os efeitos desastrosos da aplicação de agrotóxicos (particularmente o glifosato) que, se por um lado aumentou extraordinariamente a produtividade de culturas como a da soja, por outro, multiplicou na mesma medida a quantidade e a gravidade de problemas de saúde – com mortes, doenças diversas (inclusive diversos tipos de câncer) e má-formação de fetos.
Ao mesmo tempo que denuncia estes problemas e fornece o histórico de como se chegou à atual situação, Solanas ouve técnicos e produtores agrícolas que praticam formas alternativas a esta agricultura de grande impacto ambiental, utilizando técnicas que igualmente proporcionam produtividade sem os efeitos danosos para a saúde coletiva, caso das “fazendas mistas”. Estes exemplos permitem especular que outros modelos de desenvolvimento são possíveis e, por todos os imensos danos ambientais do atual modo de produção (que é usado também no Brasil), devem ser urgentemente repensados, se queremos que o planeta sobreviva. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   30/10/18 - 20:10 - (Terça)
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP     31/10/18 - 15:00 - (Quarta)


TORRE DAS DONZELAS
O documentário de Susana Lira venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Brasília 2018. Parece incrível que as cerca de 30 personagens deste documentário, ex-presas políticas  de um setor isolado do presídio Tiradentes, em S. Paulo, nos anos 1970, tenham passado quatro décadas em quase silêncio sobre esta extraordinária experiência, um verdadeiro exercício de resistência e autogestão dentro da cadeia, em plena ditadura. Elas mesmas contam que não haviam tocado no assunto nem com maridos, nem com filhos por muitos anos, algumas até agora.
Do relato destas mulheres – entre as quais, a jornalista Rose Nogueira, a fotógrafa Nair Benedito, a educadora Dulce Maia e a ex-presidenta Dilma Rousseff – emerge a descrição de suas vivências, isoladas das presas comuns, num local em que elas não só reconstruíram o espaço físico (mediante o trabalho de duas arquitetas que havia entre elas) como criaram rotinas que lhes permitiam resistir ao medo, às eventuais torturas (fora dali) e à imprevisibilidade do tempo que permaneceriam ali dentro, longe de filhos, maridos, familiares.
Um grande acerto do filme é evitar um tom lamentoso e também fugir do modelo tradicional das “cabeças falantes”. Evidentemente, há algumas entrevistas em separado – como foi o caso de Dilma e Ilda Martins da Silva, entre outras. Mas grande parte do documentário se vale de um dispositivo, a construção de um cenário que reproduz a “torre das donzelas” (assim chamada por seu formato e a ocupação feminina), a partir dos desenhos que elas fizeram, nenhum igual ao outro, é bom que se diga.
Este espaço, que ficou montado num estúdio em S. Paulo por dez dias, permitiu que as ex-colegas de cela voltassem a conviver num mesmo lugar, reproduzindo tarefas, como cozinhar juntas e conversar. Dilma não pode participar dessa vivência porque, naquele momento, defendia-se no processo do impeachment. Ela é, no entanto, uma personagem que sobressai por seu carisma para articular as memórias daquela comunidade, que usou esse tempo em comum para a própria educação pessoal e política, já que trocavam informações, livros, davam cursos de línguas entre si, resistindo à desumanização e desesperança comuns em situações de aprisionamento.
Há episódios absolutamente impagáveis, como a chegada de três malas, doadas pela família rica de uma das prisioneiras, contendo vestidos de festa – coisa das mais inúteis para elas, mas que serviu para que organizassem um desfile na cadeia. O diretor do presídio, acreditando que estavam enlouquecendo, como resultado, autorizou que tomassem banho de sol a partir dali.
As presas criaram inclusive um ritual para quando uma delas era libertada, cantando a Suíte do Pescador, de Dorival Caymmi, como despedida. Ainda assim, nesta libertação havia perigos. Pelo menos uma das prisioneiras soltas, Eleni Teles Guariba, desapareceu três meses depois. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO:
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5  30/10/18 - 15:50 - (Terça)
 

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