Começa a repescagem com destaques da Mostra

Últimas chances na tela da Mostra

Equipe Cineweb
No último dia da programação normal, atrações de peso como a exibição única de “Roma”, de Alfonso Cuarón, Leão de Ouro em Veneza, no encerramento da Mostra; o documentário do brasileiro Karim Aïnouz feito na Alemanha, “THF – Aeroporto Central”; a comédia dramática islandesa “Uma mulher em guerra”, sobre uma ativista ambiental; e o argentino “La quietud”, do premiado Pablo Trapero.
 
ENTREVISTA – PABLO TRAPERO
Os dois últimos trabalhos do diretor argentino Pablo Trapero, O clã (2015) e La Quietud, poderiam trocar de título um com o outro sem qualquer problema. Não apenas isso: ambos têm ao centro uma família (de classe média, e alta, respectivamente) e a ditadura argentina. “Não foi proposital. Escrevi La Quietud sem me dar conta disso, só fui perceber como os dois filmes estão próximos na finalização”, contou em entrevista ao Cineweb.
O ponto de partida de La Quietud, em exibição na 42a Mostra, foi a vontade de fazer um retrato íntimo e extremo de uma família rica comandada por uma mulher – um matriarcado, ao contrário de O clã, em que era forte a figura paterna. Além disso, Trapero, que também assina o roteiro, queria voltar a trabalhar com sua companheira, Martina Gusman, com quem já fez Nascido e Criado (2006), Leonera (2008), Abutres (2010) e Elefante Branco (2012). “A participação dela foi fundamental desde o roteiro, porque é um filme sobre o universo feminino”. As protagonistas do longa são duas irmãs, Mia e Eugenia, interpretadas por Gusman e Bérénice Bejo (O artista), de quem o diretor e sua mulher são amigos de longa data, mas nunca haviam trabalhado juntos. “Somos amigos bem próximos. Ela e o marido [o cineasta francês Michel Hazanavicius] hospedaram-se na nossa casa enquanto fazíamos o filme”.
“Eu precisava de duas atrizes que fossem fisicamente parecidas. As personagens são como se fossem uma mesma mulher dividida em dois corpos. É a minha homenagem ao surrealismo de Luis Buñuel e a Um corpo que cai”. Mia mora com os pais numa propriedade rural chamada La Quietud, enquanto Eugenia volta de Paris quando o pai sofre um infarto. A trama é repleta de segredos e traições e tem um quê de Nelson Rodrigues também.
O pano de fundo do longa são as cicatrizes da ditadura e o silêncio daqueles que lucraram com o governo militar na Argentina – daí também o título. “Este é um filme sobre a reconstrução do passado, tanto o pessoal da família, quanto o histórico do país. Só no final elas tentam livrar-se do peso do passado e viver no presente”. Trapero conta que, quando seu país foi redemocratizado, ele ainda era criança, estava terminando a escola primária. “Obviamente eu não tinha uma visão política do que estava acontecendo, mas foi algo que aprendi logo e até hoje sigo aprendendo. Tenho um filho de 16 anos e espero que sua geração não precise enfrentar algo parecido. Eu sou otimista, mas sei que não é algo que se superou. É preciso ter um fecho e, para que isso aconteça, é preciso estudar a história”.
 
Atualmente, o diretor termina as filmagens da série Zerozerozero, baseada num romance do italiano Roberto Saviano (Gomorra), e que tem no elenco Gabriel Byrne, Dane DeHaan  e Andrea Riseborough. “É um projeto grande, filmado na América do Sul, Itália e Marrocos. E será lançado pela Amazon no próximo ano”. (Alysson Oliveira)

CINESESC - 31/10/18 - 20:00 - Sessão: 1146 (Quarta)

ROMA
Cleo (Yalitza Aparicio) trabalha como empregada, mas é praticamente da família. Vive na casa dos patrões, ajuda a criar os filhos e até pode sentar-se na sala para ver televisão com eles – desde que se conforme a ficar no chão. E ela não se importa. Cleo é a protagonista de Roma, do mexicano Alfonso Cuaron, que levou o prêmio máximo no Festival de Veneza no mês passado. Roma é um épico intimista sobre a vida de uma jovem empregada – uma verdadeira subversão ideológica dar o posto de heroína à subalterna.
Escrito, dirigido, fotografado e montado por Cuarón, Roma é um estudo de classe num conturbado México do começo da década de 1970. Com imagens num preto-e-branco que evoca o neorrealismo italiano, o filme investiga as relações de trabalho que são permeadas pela emoção. É uma obra que talvez o público europeu e norte-americano não seja capaz de captar toda sua sutileza e questões – no Brasil, no entanto, não é difícil entender o que está se passando. Aqui há algo até de Que horas ela volta?
Cleo é jovem e de poucas palavras – algumas delas no idioma mixteco – mas dona de um olhar sagaz, interpretada por uma atriz estreante cujos olhos falam mais do que qualquer coisa que ela verbalize. É por esses olhos que acompanhamos o desmoronamento do casamento dos patrões, o dr. Antonio (Fernando Grediaga) e a dona Sofía (Marina de Tavira), quando ele a abandona para viver com outra mulher – um segredo que os filhos não podem saber; para eles, o pai “está em Quebec fazendo uma pesquisa”.
A empregada também tem sua vida própria, envolvendo-se com um jovem (Jorge Antonio Guerrero), especialista em artes marciais que é treinado para algo que só descobriremos mais tarde. A rotina de Cleo é narrada sem pressa, com riqueza de detalhes, assim como a vida de todos personagens. Ao final do filme, tem-se a sensação de ter convivido um tempo enorme com essas pessoas. A grandiosidade de Roma está nas pequenas coisas, na lateral do carro que sempre raspa na parede para entrar na garagem, no amolador de facas que passa com seu assobio, na trilha de Jesus Cristo Superstar tocando na festa de Natal, ou no grande dilema da protagonista.
Cuarón criou o filme a partir de suas memórias de infância, mas não dá o peso do ponto de vista à nenhuma das crianças. É uma narrativa que se abre por si só, começa de maneira tão leve, quase banal, que poderia ser sobre qualquer pessoa. Mas Cleo é quem tem uma vida mais rica – a pessoa mais simples da família e a mais complexa.
Visualmente, Roma é uma festa. Seus planos são longos e fluidos – ainda assim, não existe um exibicionismo técnico, pelo contrário, é possível esquecer este primor, tamanha a possibilidade de se embrenhar na vida daquelas pessoas. A estrutura quase episódica acumula pequenos momentos que anunciam que uma tragédia poderá vir, sob o manto da normalidade do cotidiano – seja com um terremoto, uma manifestação estudantil violentamente dispersada (um episódio que ficou conhecido como o Massacre de Corpus Christi, ocorrido em 10 de junho de 1971), num hospital ou no mar. Mas Cuarón é, como sua filmografia atesta, sagaz. Ele encontra o que há de mais humano nessas figuras – ninguém é vilanizado, especialmente a patroa, Sofía, é dotada de um humanismo comovente – mesmo com o peso das diferenças de classe que recaem sobre a relação dela e Cleo.
A teórica indiana Gayatri Chakravorty Spivak tem um texto famoso chamado “Pode o subalterno falar?”. Durante as pouco mais de duas horas de Roma, Cleo pouco fala, pouco age – geralmente reage – mas há um momento-chave, quando fala, quase sussurrando, e o mundo desaba, tudo faz sentido. A ousadia de Roma é colocar como protagonista aquela que está no quartinho dos fundos e que não pode usar a eletricidade para não pesar na conta. Mais do que isso, Cuarón faz um filme com ela ao centro, um filme extremamente feminino e visualmente exuberante – ao contrário de uma estética “suja” que comumente se usa para retratar os pobres.
A Roma do título é um bairro de classe média na Cidade do México, mas é também uma referência ao clássico Roma, Cidade Aberta e ao neorrealismo – embora Amarcord possa ser outra referência cabível. Roma pode ser também um lugar dos sonhos, uma utopia de uma vida melhor. Ou para onde vão os aviões que de tempos em tempos cruzam o céu. Roma é, acima de tudo, um grande filme, um ponto alto na carreira de um cineasta cuja filmografia é repleta de pontos altos.
O longa é exibido na cerimônia de encerramento da 42a Mostra e tem previsão de estreia na Netflix para dezembro. (Alysson Oliveira)

AUDITÓRIO IBIRAPUERA OSCAR NIEMEYER - 31/10/18 - 19:30 (Quarta)

UMA MULHER EM GUERRA
Esta vibrante comédia dramática islandesa, representante do país na corrida para uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro, gira em torno de uma notável personagem feminina, a ativista ambiental Halla (Halldora Geirhardsdóttir).
Por trás de uma aparência pacata, esconde-se uma militante que trava uma verdadeira guerra contra a indústria do alumínio, invadindo instalações e derrubando torres de energia com seus precisos atentados.
Suas ações, inclusive, conseguem interromper temporariamente as negociações entre o governo islandês e uma poderosa empresa que procura instalar uma nova fundição de alumínio. Fora a sua luta para fugir de uma caçada policial intensa, Halla tem agora outro problema: finalmente, teve atendido um seu antigo pedido de adoção e deve manifestar-se para receber uma criança da Ucrânia.
O filme do diretor Benedikt Erlingsson, que foi exibido na Semana da Crítica em Cannes, é notável no desenvolvimento dos caminhos da personagem, uma mulher madura e complexa, vivendo com coragem dilemas bem contemporâneos, numa história que não tem medo de arriscar-se na discussão dos limites do que é ético e moral, sem perder de vista um humor sutil. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   31/10/18 - 20:00 - (Quarta)

THF – AEROPORTO CENTRAL
O novo documentário assinado pelo brasileiro Karim Aïnouz, vencedor de um prêmio da Anistia Internacional no Festival de Berlim, retrata com muita sensibilidade a situação vivida por diversos refugiados, abrigados num aeroporto desativado da capital alemã, o Tempelhof.
Acompanha-se com mais detalhes a história de um jovem sírio, de 18 anos, há ano e meio retido neste lugar, à espera de obter o status de refugiado que lhe permitirá estudar e trabalhar. Focaliza-se suas esperanças, suas conversas com a família que ficou para trás, suas lembranças, algumas traumáticas, sua rotina de espera nesta espécie de limbo.
Ali estão também um homem curdo, que trabalha como intérprete no local, cuja esperança é poder terminar o curso de medicina interrompido; e um recém-chegado ucraniano com síndrome de estresse pós-traumático.
Com seu olhar atento, Aïnouz – um cearense filho de uma brasileira e de um argelino – consegue tornar sua câmera como que invisível, retratando a rotina deste abrigo, a rotina de inúmeros personagens, tanto refugiados como voluntários e trabalhadores que os atendem. Uma outra qualidade é inserir este espaço dentro da cidade, mostrando tanto a população dele, composta de diversas famílias, quanto a dos habitantes de Berlim, que usam o espaço livre ao lado do antigo aeroporto como área de lazer, andando de bicicleta e fazendo piqueniques. É o tipo do filme humanista que, sem fazer alarde, evidencia a semelhança entre seres humanos de todos os povos, evocando uma empatia que nem sempre funciona a contento em tempos sombrios. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL - SALA 1               31/10/18 - 16:15 - (Quarta)

PEDRO E INÊS – O AMOR NÃO DESCANSA
O filme do diretor português António Ferreira explora algumas vertentes em torno da conhecida história de Inês de Castro e do rei D. Pedro I de Portugal, uma paixão trágica ocorrida no século XIV. Uma das narrativas é a histórica, de época, com os detalhes factuais do episódio; outra narrativa ambienta-se no presente, com Pedro (Diogo Amaral) transformando num paciente psiquiátrico obcecado por visões dessa Inês (Joana de Verona), já morta; outra ainda passa-se num futuro distópico.
O filme tem criatividade e ousadia, mas, como sempre em narrativas alternadas, nem todas as partes funcionam com a mesma sinergia. De todo modo, é um exemplar digno do peculiar e valente cinema português. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   31/10/18 - 19:40 - (Quarta)


AMOR ATÉ ÀS CINZAS
O diretor chinês Jia Zhang-ke faz um giro reflexivo, mais uma vez em torno de seu grande país, revisitando tanto seu filme anterior, As Montanhas se Separam (2015), quanto outros mais antigos, como Em Busca da Vida (2006) – neste caso, até porque revisita o emblemático cenário da barragem das Três Gargantas. O cineasta chinês não está buscando um choque de referências e sim uma análise sobre o processo histórico em seu país, focalizando mais uma vez a ocidentalização e a virada capitalista dos anos 2000.
À medida que entra na maturidade (tem 48 anos), o diretor torna-se cada vez mais cético, centrando sua história em torno da admirável Zhao Tao, sua mulher e atriz-fetiche. Sua personagem compõe um denso arco ao longo dos cerca de 18 anos que atravessa, passando de namorada mimada de um chefete gângster (Liao Fan) a uma mulher endurecida, comandando seu próprio negócio no mundo do jogo.
O rosto de Zhao Tao é uma espécie de mapa emocional de Amor até às Cinzas, alternando as notas emocionais que a percorrem, do amor à decepção, do conformismo à raiva, incorporando também momentos de humor e doçura. Este rosto atravessa também muitas paisagens da China, nas quais Zhang-ke edifica sua reflexão sobre o que se tornou, afinal, este país que impressiona o mundo todo e permanece uma espécie de continente à parte – não isolado, no entanto, do Ocidente, como o filme mostra de várias maneiras, incluindo as impagáveis passagens musicais pop, que vibram de maneira peculiar, satírica e também pungente.
Como em As Montanhas se Separam, há uma história de amor fraturada no centro de tudo, carregada de amargura e realismo. As sequências de violência, como lutas de gangues, são de um realismo impecável, dignas de um filme policial – uma qualidade que Zhang-ke veio aperfeiçoando ao longo dos anos. Mas, acima de tudo, o filme mais parece um espelho oriental colocado diante do Ocidente, que exporta suas modas, estilos musicais e o onipresente capitalismo. (Neusa Barbosa)

CINEARTE PETROBRÁS 1                    31/10/18 - 21:10 - (Quarta)


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