Começa a repescagem com destaques da Mostra

Dramas familiares e a boa lembrança de Humberto Mauro

Equipe Cineweb
FAMÍLIA SUBMERSA
A atriz argentina María Alche, que interpretou a personagem-título em A Menina Santa, de Lucrécia Martel, estreia na direção com o drama Família Submersa, um filme que não nega suas influências da renomada cineasta com quem a jovem trabalhou – sente-se aqui, especialmente, o peso de O Pântano, resultando num filme mais “marteliano” do que o próprio Zama, que Martel lançou no ano passado.
O longa começa com uma imagem coberta por uma cortina que, aos poucos, será removida retirando o véu de um drama familiar no qual realidade e fantasia se confundem no luto de uma mulher de classe-média que perdeu a irmã. Mercedes Moran – uma das protagonistas de O Pântano e mãe da personagem de Alche em A menina santa – é Marcela que, quando o marido (Marcello Subiotto) viaja, deixa se levar por sua imaginação e fantasia diálogos com parentes que já morreram. Cada vez mais distante da realidade, Marcela começa um caso com Nacho (Esteban Bigliardi), cujos planos de se mudar para Porto Rico acabaram frustrados.
Mas o filme, também roteirizado pela diretora, não se concentra apenas nessa personagem, investigando também as vidas de suas duas filhas e filho – todos na transição entre a adolescência e a vida adulta, e cada um num nível diferente de dependência da mãe. Marcela é sugada, mesmo que de maneira delicada, pela família. Sua vida própria parece esvair-se cada vez mais diante das necessidades deles. Por isso, o romance com Nacho é uma forma de rebelião. O filme, felizmente, não faz desse caso um estardalhaço. Alche lida com a questão de maneira sutil, quase banal.
A vida interior das personagens ganham tom pastel, em alguns momentos pertinentemente quase oníricos, outros algo que encoberto (daí o título), nas mãos da veterana diretora de fotografia francesa Hélène Louvart, que já trabalhou com Wim Wenders (Pina), Alice Rohrwacher (As maravilhas), Nicolas Klotz (Low life) e o brasileiro Karim Aïnouz (no inédito A vida invisível), entre outros. As imagens carregam algo de fantasmagórico, que consome a protagonista, uma mulher de classe-média de Buenos Aires, numa claustrofobia asfixiante. Já a montagem da brasileira Lívia Serpa (Benzinho, Linha de passe, Santiago) é construída na acumulação de momentos e experiências de Marcela, o centro de consciência do filme.
Perto do final, uma personagem pergunta à outra: “Como está tudo?”. “Volátil e misterioso”, responde. Não poderia haver melhor elucidação para o filme. Em seu primeiro longa, Alche fez uma obra volátil e misteriosa que fala muito da condição e do papel da mulher numa sociedade tão patriarcal quanto a latina. Uma estreia promissora.

FAMÍLIA SUBMERSA
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 19/10/18 - 17:40 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 26/10/18 - 19:15 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 - 27/10/18 - 16:40 (Sábado)
CINESALA - 28/10/18 - 14:00 (Domingo)

UM NOIR DOS BALCÃS
Eis um filme que cumpre exatamente o que promete: um noir dos Balcãs contemporâneo. Escrito e dirigido pelo bósnio Dražen Kuljanin, o longa transita entre o exibicionismo estético e a homenagem ao gênero. Alguns dos bons momentos ficam por conta de antigas propagandas norte-americanas de cigarros – entre elas, uma protagonizada por um médico.
Cinco anos atrás, Nina (Disa Östrand) e Oscar (Johannes Kuhnke) passam férias em Montenegro, quando a filha pequena do casal desparece. Cada um deles lida de maneira diferente com a situação: ele tenta seguir em frente, enquanto ela permanece no país em busca de alguma pista que possa a levar até a filha ou ao culpado para que possa se vingar.
O gênero noir aparece aqui numa vertente mais contemporânea e estilizada – uma espécie de herdeiro de Sin City, em sua artificialidade e exageros visuais. A fotografia, assinada por Anna Patarakina, é de um colorido gritante, enquanto a montagem do próprio diretor acentua os maneirismos – como a imagem piscando toda vez que alguém tenta acender um cigarro e o isqueiro falha.
Toda a estética exagerada em suas cores e cortes de Um noir dos Balcãs existe para transmitir o estado emocional limítrofe de Nina. É uma opção que nem sempre funciona bem aqui, e corre-se o risco de transformar o filme em mero exibicionismo visual. Por outro lado, versões bósnias para sucessos pops antigos – como Chiquitita, do Abba, e Somebody to love, do Jefferson Airplane – são alguns dos pontos altos do filme.

UM NOIR DOS BALCÃS
PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 - 19/10/18 - 13:00 (Sexta)
CINESESC - 20/10/18 - 19:20 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 22/10/18 - 13:30 (Segunda)
CINESALA - 24/10/18 - 21:50 (Quarta)
CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 - VILLA LOBOS29/10/18 - 19:50 (Segunda)

HUMBERTO MAURO
O documentário Humberto Mauro, do sobrinho-neto do pioneiro diretor mineiro, André Di Mauro, teve sua première mundial no mais recente Festival de Veneza. Reúne imagens de diversos filmes realizados por Mauro, recriando através da montagem seu universo de inspirações, especialmente vindas da natureza – “o progresso é antifotogênico”, costumava dizer o diretor de Lábios sem Beijos (1930), Ganga Bruta (1933) e O Descobrimento do Brasil (1936).
Também se incluem participações de Mauro como ator, como em O Canto da Saudade (1952), em que ele interpreta o “coronel” Januário, numa cena em que disputa uma candidatura política que tem um evidente paralelo com este momento de campanha eleitoral (certas coisas parece que não mudam nunca).
Uma das costuras sonoras do filme, que não inclui depoimentos, vem de algumas entrevistas do próprio Mauro, como uma, saborosa, realizada pelo crítico e cineasta Alex Viany.
O resgate deste passado instigante do cinema brasileiro vibra como uma evocação da paixão criativa do pioneiro cineasta, que bem pode inspirar todos aqueles que acreditam que “cinema é cachoeira”, como ele dizia. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – 19/10 - 21:40 (sexta)
FREI CANECA 3 -  20/10 - 16:00 (sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA - 25/10 - 15:50 (quinta)
CINEARTE PETROBRÁS 2 – 25/10 – 15:50 (quinta)


RAFIKI
Com première mundial na seção Un Certain Regard, a produção queniana Rafiki (“amiga”), da diretora Wanuri Kahiu foi o primeiro filme do Quênia a ser selecionado em Cannes e proibido em seu país por apresentar uma “visão muito positiva” do lesbianismo.
Na história, duas garotas de Nairóbi, Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), são filhas de dois candidatos de uma eleição, o pai da primeira, comerciante, o da segunda, rico empresário. Só essa rivalidade entre os pais já seria um problema para uma amizade simples e isso se complica quando elas se apaixonam – tornando-se alvo de violência e pivôs de um escândalo na comunidade.
O potencial dramático deste segundo trabalho da diretora é contrabalançado por uma visível intenção de injetar uma dose de colorido e juventude neste retrato , inclusive nos figurinos e na música.  De todo modo, as duas protagonistas são carismáticas e sustentam a história. Ao seu redor, os personagens secundários, como seus pais, a fofoqueira local, sua filha e um pastor ultra-moralista e performático não escapam de uma certa fórmula, mas reforçam o recado que se quis dar. Em termos de sensualidade, o filme é tão pudico que é difícil imaginar que pode ofender alguém. (Neusa Barbosa)

CINESESC - 19/10 - 14:00 (sexta) 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 21/10 21:50 (domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 24/10 - 16:00 (quarta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 29/10 - 13:30 (segunda)


YOMEDDINE
Egípcio de 32 anos, nascido no Cairo, filho de uma austríaca e formado em Cinema em Nova York, o cineasta A. B. Shawky delineia um mundo com total empatia pelos deserdados da sorte ao retratar no drama Yomeddine a saga de um leproso curado, mas coberto das marcas da doença, Beshay (Rady Gamal), e um garoto órfão, “Obama” (Ahmed Abdelhafiz), que ele coloca sob sua proteção. O núcleo da história está na viagem pelo Egito, empreendida pelos dois e um burrinho, rumo ao sul, onde Beshay sonha reencontrar sua família, que o abandonou, ainda na infância, num leprosário.
O enredo explora habilmente a ignorância e o preconceito que cercam a hanseníase – que, no Egito, especialmente nas áreas rurais, é vista não só como contagiosa como maldita, por causa de uma afirmação do profeta Maomé. Nisto e em tudo o mais, portanto, o filme não foge às fórmulas emotivas, evidenciando os sofrimentos tanto de Beshay quanto do menino nessa jornada cercada de incompreensão, crueldade e algumas soluções quase mágicas.
Enfim, se há qualidades no filme, elas decorrem de sua capacidade documental de captar a dureza das condições de vida de uma parte da população egípcia. Um bom momento é quando os dois personagens chegam à ruína de um monumento milenar, especulando se pode ou não ser uma das famosas pirâmides. Há que se relevar essas fragilidades, no entanto, porque se trata de um trabalho de principiante.(Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL SALA 1 - 19/10 - 21:50 (sexta)
CINESESC - 20/10 - 17:20 (sábado) 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA POMPÉIA 1 - 21/10 - 21:00 (domingo)
RESERVA CULTURAL - SALA 1 -30/10 - 18:00 (terça)


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