Começa a repescagem com destaques da Mostra

Fim de semana com romance, sangue e tensão

Equipe Cineweb
CULPA
O representante da Dinamarca na luta por uma vaga na disputa do Oscar de filme estrangeiro é um primor de tensão e concisão. A trama se passa basicamente dentro de uma central da polícia, onde o policial Asger Holm (Jakob Cedergren) está cumprindo seu plantão no atendimento telefônico de emergências. A câmera focaliza basicamente o rosto deste homem, cujo personagem atormentado e aflito carrega o filme. Parece pouca coisa, mas nada mais ilusório.
Uma das chamadas noturnas coloca Asger em contato com Iben (Jessica Dinnage), mulher que foi sequestrada pelo marido. Ela pouco pode falar, por estar tapeando seu captor, e recebe instruções de Asger. Quando a chamada cai, ele fica desesperado para ajudar a salvar a vida dela. Quando seu empenho para resolver está missão mais do que difícil extrapola, o público vai sendo paulatinamente informado de que há uma questão pendente também na vida pessoal e profissional do policial, cujos nervos estão por um fio.
Nada mais se diga deste consistente drama de suspense, em que o ator Jakob Cedergren dá um show de interpretação. Seguindo os sinais dados por suas expressões faciais e sua voz oscilante – já que dos demais personagens só conhecemos a voz -, o público também segue a trama de coração apertado. Cinema maiúsculo, com um toque teatral, devido a este enclausuramento da ação. (Neusa Barbosa)

PLAYARTE MARABÁ - SALA 1                20/10/18 - 15:00 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   21/10/18 - 21:50 - (Domingo)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    29/10/18 - 17:30 - (Segunda)

CHRIS, O SUÍÇO
O documentário suíço faz uma eficiente mescla de materiais de arquivo, entrevistas e animação para reconstituir a trajetória do jornalista Christian Würtenberg. A diretora estreante é Anja Kofmel, sua prima, que procura decifrar um personagem contraditório e misterioso, que terminou assassinado, em circunstâncias misteriosas, aos 27 anos, no turbilhão da Guerra dos Bálcãs nos anos 1990.
O filme equilibra intimismo e investigação para dar conta das estranhas escolhas da história familiar e profissional de Chris, um jornalista curioso e dedicado que, por razões não totalmente claras, terminou envolvendo-se com um grupo paramilitar croata. Aparentemente, sua intenção era investigar a guerra civil na antiga Iugoslávia por dentro, para escrever um livro. Mas há diversas lacunas a preencher no resgate desta figura, o que a diretora faz com respeito, ternura mas igualmente procurando injetar racionalismo na busca de explicações para seu trágico destino. (Neusa Barbosa)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS   20/10/18 - 17:30 - (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 27/10/18 - 15:50 - (Sábado)
INSTITUTO CPFL - SALA UMUARAMA          30/10/18 - 19:00 - (Terça)

A CASA QUE JACK CONSTRUIU
Depois de ser banido do Festival de Cannes sete anos atrás, por infelizes declarações aparentemente nazistas, o bad boy Lars von Trier voltou este ano à Croisette, fora de competição, com seu mais recente trabalho, A Casa que Jack Construiu. Uma história ambiciosa, perversa, com todos os excessos a que ele se dá o direito, em torno da história de um serial killer, Jack (Matt Dillon).
São duas horas e meia de sangue e crueldade, não raro gráfica, brotando na tela. Mas não se trata de um serial killer qualquer. Este aqui é engenheiro, culto, gosta de arte e até teoriza sobre as suas “obras” – ou seja, seus crimes – como uma espécie de arte macabra. Também há cenas documentais, mostrando Hitler, Mussollini, Stálin e outros conhecidos ditadores associados a massacres. Não apenas isso: Trier encerra seu filme encenando a sua versão do inferno, onde o guia satânico, Verge, é interpretado por ninguém menos do que Bruno Ganz, o anjo inefável de Asas do Desejo, de Wim Wenders, 31 anos atrás. Talvez a melhor coisa do filme.
Enfim, nada mais se diga, a não ser que von Trier estrutura sua história em torno de cinco “incidentes”, ou seja, assassinatos crueis. Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Grábal e Riley Keough também estão no elenco – imagine-se em que papeis. (Neusa Barbosa)

CINEARTE PETROBRÁS 1                    20/10/18 - 20:30 - (Sábado)
PLAYARTE MARABÁ - SALA 1                21/10/18 - 18:40 - (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 22/10/18 - 20:40 - (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   25/10/18 - 20:45 - (Quinta)
CINESESC                                28/10/18 - 20:45 - (Domingo)

A FAVORITA
A essa altura não é nenhuma surpresa que o cinema do grego Yorgos Lanthimos é de estranhamentos. Desde Dente Canino, que colocou seu nome no mapa, até o recente O sacrifício do cervo sagrado, com resultados díspares, o cineasta deturpa o mundo como conhecemos para, assim, escancarar algo de sombrio sobre a condição humana, que gostarsíamos que fosse varrido para debaixo do tapete. Em A favorita, seu filme mais acessível até então, não é diferente, e, com uma trama de época, fala da disputa de poder e do papel da mulher nesse jogo.
O filme de abertura da 42a Mostra foi duplamente premiado no Festival de Veneza, com o Grande Prêmio do Júri e o Copa Volpi de atriz para Olivia Colman, uma grande atriz inglesa que, finalmente, parece estar recebendo a atenção que merece, e está cotada para o Oscar. Em A favorita, ela interpreta a Rainha Anne, famosa, principalmente, por unir a Inglaterra e a Escócia naquilo como Grã Bretanha. Mas não é bem essa história oficial que interessa ao diretor e aos roteiristas, Deborah Davis e o dramaturgo australiano Tony McNamara, que transformam a trama do longa em uma versão de A malvada (com toques de Barry Lyndon) na corte inglesa do começo do século XVIII.
Lady Sarah Churchill (Rachel Weisz) é a favorita da Rainha na corte. Amigas bem próximas, a jovem é capaz, de maneira quase imperceptível, de influenciar nas decisões reais e até no futuro da guerra contra a França, na qual seu marido, Lord Marlborough (Mark Gatiss), luta. Ela dispõe de uma posição privilegiada, com acessos irrestrito aos aposentos da monarca. Tudo vai bem até a chegada de Abigail Masham (Emma Stone), prima de Sarah, com quem disputará o título de “a favorita”.
As intrigas palacianas, que beiram a luta na lama pela atenção de Anne, dão um tom de humor ao filme, mas a cada disputa entre Lady Sarah e Abigail – vale dizer figuras reais – o longa se torna mais grotesco, assumindo ares de um terror psicológico. Nesse sentido, Lanthimos investiga o papel da mulher – desde a monarca até a matriarca, passando pelas pequenas intrigas necessárias e uma potente influencia silenciosa – naquele momento que, de certa forma, molda elementos que persistem até hoje.
Weisz e Stone dominam a cena na disputa pelo papel-título. Suas personagens são ácidas, dissimuladas, e as duas atrizes, no ponto alto de suas carreiras, valem-se de diálogos cortantes. Mas, numa outra chave, o filme é de Colman. Anne transita entre o bufão e o terno. Com a saúde cada vez mais debilitada, ela se torna quase uma figura decorativa no poder, sendo marionete especialmente de Sarah e posteriormente de Abigail, que a usam tanto para interesses pessoais quanto políticos. Há algo de bizarro na personagem da Rainha que mantém 17 coelhos em seu quarto – um fato que quando revelada a razão, na metade do filme, é de partir o coração.
Tecnicamente, o filme é impressionante. A direção de arte e cenografia transitam entre a claustrofobia da corte e a natureza, seja num campo aberto onde Sarah e Abigail passam o tempo atirando em aves, ou na floresta. A trilha sonora combina desde clássicos – como Handel, Bach, Purcell e Vivaldi – até experimentos modernistas e música eletrônica, em sintonia com o clima de estranhamentos típico da obra do diretor. Mas é na fotografia, assinada pelo irlandês Robbie Ryan (constante colaborador de Ken Loach e Andrea Arnold), que A favorita se supera. A câmera flui como um fantasma que acompanha as personagens; os movimentos inesperados causam desestabilidade tanto da cena, quanto do olhar do público – novamente, sincronizado com o mal estar que o filme tende a criar.
A favorita, em sua conclusão, nos faz questionar sobre os percalços do poder – suas dores e alegrias – e suas disputas, e tudo o que vem junto. O poder corrompe ou o ser humano é corrompido por natureza? É uma pergunta complexa que Lanthimos, obviamente, não quer responder, mas sua trama e personagens ilustram bem alguns pontos dessa narrativa. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 20/10/18 - 19:30 (Sábado)
CINEARTE PETROBRÁS 1- 24/10/18 - 21:30 (Quarta)

O MAU EXEMPLO DE CAMERON POST
Vencedor do principal prêmio da categoria ficção do Festival de Sundance deste ano, O mau exemplo de Cameron Post é um olhar melancólico, mas esperançoso, sobre algo horrendo: campos de conversão de jovens homossexuais. A trama, baseada no livro homônimo de Emily M. Danforth, se passa no início dos anos de 1990, mas ressoa claramente nos dias de hoje.
Cameron (Chloe Grace Moretz) é uma adolescente que acaba se envolvendo com uma amiga, e é pega pelo namorado quando as duas estão namorando dentro de um carro. A tia da garota (Kerry Butler), sua guardiã legal, a leva para um internato isolado numa região rural, onde jovens gays passam por uma terapia de conversão, administrada pela Dra. Lydia Marsh (Jennifer Ehle), “uma vilã da Disney”, como bem define um dos alunos.
Usando sua prática como psicóloga aliada a dogmas religiosos, Marsh faz uma lavagem cerebral em seus pacientes/alunos, com ajuda de seu irmão, o reverendo Rick (John Gallagher Jr.), a primeira pessoa a passar pelo "tratamento" ministrado por ela, e se livrar do "pecado" da atração sexual por pessoas do mesmo gênero. Para a psicóloga, o comportamento é resultado de um trauma de infância, ou maus-tratos parentais ou qualquer outra coisa que ela achar como uma desculpa para aplicar sua terapia.
Os alunos e alunas da escola permitem observar um espectro variado dentro do filme. Quem acaba chamando a atenção é uma garota que diz se chamar Jane Fonda (Sasha Lane, de Docinho da América), que cresceu numa comunidade hippie e foi internada pelo namorado convertido em Jesus de sua mãe. Outro é Adam (Forrest Goodluck), descendente de nativos americanos. Cameron logo se torna amiga dos dois, e o trio percebe que para sobreviver ali é preciso fingir fazer parte do jogo, ou seja, deixar ser “curado” ou “curada”.
A diretora Desiree Akhavan – coautora do roteiro com Cecilia Frugiuele – busca, especialmente na amizade do trio, a ternura que pode vir de uma história de horror. O filme também encontra o humor, no tom delicado com quem lida com o que há de improvável – embora realista – na história. O mau exemplo de Cameron Post é um filme importante para o nosso tempo. Pode não ser um cinema sofisticado ou arrojado, mas o que tem a dizer é de extrema relevância e urgência. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 20/10/18 - 18:10 (Sábado)
CINEARTE PETROBRÁS 1 - 21/10/18 - 16:10 - Sessão: 279 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 23/10/18 - 14:00 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 25/10/18 - 17:30 (Quinta)


GUERRA FRIA
A guerra até pode ser fria, mas a paixão entre Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot) não poderia ser mais incendiária nesse filme que rendeu ao polonês Pawel Pawlikowski (Ida) o prêmio de direção no Festival de Cannes deste ano. Autor do roteiro – em parceria com Janusz Glowacki – o cineasta parte a história de seus pais (a quem o filme é dedicado) para contar as idas e vidas de um casal ao longo de 15 anos. O resultado é um épico em miniatura (com menos de 90 minutos!) de uma paixão fraturada e consumida pela arte e política na Polônia (e em vários cantos da Europa) do pós-Segunda Guerra.
A fotografia retoma o preto-e-branco de Ida, novamente assinada por Łukasz Žal, e dá um ar de algo antigo ao filme, mas, ao mesmo tempo, sua narrativa e personagens são tão dotados de frescor que o filme não tem nada de ultrapassado, e parece existir num entretempo e lugares – talvez num outro planeta não fossem as constantes referências históricas e geográficas. Fora isso, Guerra fria é, de certa forma, um musical que retoma canções folclóricas, populares e românticas da Polônia – a maioria na voz afinada e afiada de Kulig, cuja interpretação, aliás, a coloca como uma das cotadas à indicação ao Oscar de melhor atriz. O longa representa o seu país na categoria de Melhor filme em língua estrangeira, e é um dos favoritos a estar entre os finalistas.
Wiktor é um compositor e Zula uma cantora da cidade grande que finge ser uma camponesa das montanhas, quando se conhecem, para conseguir entrar para um grupo de cantores e bailarinos. Não custa muito, e estão soltando faíscas. O romance entre eles atravessa os anos e as fronteiras, quando o rapaz precisa se refugiar na França diante do stalinismo que lhe impõe parâmetros artísticos, sociais e políticos.
Um dos temas do filme, de maneira sutil mas não ineficaz, é o quão anódina a arte panfletária é. Um momento revelador é quando uma faixa está sendo pendurada diante de um edifício: “Saudamos o amanhã”, lê-se. O sujeito que está em cima da escada pregando-a cai e se arrebenta numa viga. É uma cena levemente cômica, mas melancólica pois ninguém estava interessado no futuro, mas num passado cuja história é filtrada pelo Estado, e a música tradicional tem aí um papel fundamental em perpetuar o legado. Mas, claro, aquele filtrado. Os números musicais aqui, no entanto, são exuberantes, avassaladores em suas músicas, tonalidades (mesmo no preto e branco) e coreografias. São o símbolo da resistência e da esperança de futuro – mesmo com um banner gigante com o rosto de Stalin de fundo num palco.
Wiktor e Zula continuam se encontrando, brigando e se afastando pela Europa – especialmente Paris que serve de refúgio. O momento histórico da guerra fria toma conotações pessoais entre os dois. O amor talvez seja uma guerra fria quando a chama se apaga. As narrativas de ambos estão em disputa, e não há vencedores porque, no fundo, não há saída. A melancolia paira, e a bela versão de Glenn Gould para Variações Goldberg, de Bach, ao final do longa, dá o tom de que amar é estar em guerra – senão com quem se ama, consigo mesmo. (Alysson Oliveira)

CINESESC - 21/10/18 - 22:10 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 22/10/18 - 14:00 (Segunda)
CINEARTE PETROBRÁS 1 - 24/10/18 - 16:00 (Quarta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 26/10/18 - 13:30 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   27/10/18 - 14:00 (Sábado)


PODRES DE RICOS
A máxima que Jane Austen escreveu no começo do século XIX está em alta em Singapura na comédia Podres de ricos. “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, em posse de grande fortuna, deve estar procurando uma esposa.” No caso, o homem rico é Nick Young (Henry Golding), herdeiro de uma família tradicional que enriqueceu no ramo da construção civil, e a esposa é Rachel Chu (Constance Wu), professora de economia norte-americana. Eles se amam, mas para que a clássica trama do casamento que guia a narrativa do filme se resolva, é preciso superar um empecilho: a mãe conservadora dele, Eleanor Young, interpretada pela grande Michelle Yeoh.
O que muito se falou de Podres de rico, e o que é sua maior qualidade, é que desde O clube da felicidade e da sorte, de 1993, nenhum filme grande americano é majoritariamente – aqui, exclusivamente – composto por um elenco asiático. Houve, ainda na pré-produção, a ideia de branquear Rachel Chu, transformando-a numa americana caucasiana, mas as críticas logo fizeram isso ser abandonado. Dessa forma, duas palavras com o mesmo radical são chaves na compreensão do filme: representatividade e representação.
A primeira delas é clara, e, de certa forma, bem resolvida. Atores e atrizes asiáticas ou euroasiáticas interpretam os personagens nessa adaptação do romance de Kevin Kwan. Existe um certo exagero comparar o filme com Pantera negra – outro longa recente em que as duas palavras também tiveram um papel preponderante –, especialmente porque a ambição e complexidade dos dois longas é bastante distintas. O filme do super-herói da Marvel cria um novo mundo, uma mitologia própria a partir de tradições africanas. Aqui, o que se vê na tela é a cultura asiática – jogando tudo no mesmo caldeirão os asiáticos, sem levar em conta diversidade e especificidade – dourada de maneira hollywoodiana.
A representação já é mais problemática. Como apontaram diversos críticos – especialmente de países asiáticos – o filme joga fora a diversidade étnica e cultural de Singapura num retrato do 1% local e seu mundo de consumismo desenfreado. No filme, Rachel acompanha Nick a um casamento em Singapura, sem saber da condição de milionária da família dele. Antes da viagem, a mãe da moça (Kheng Hua Tan) ainda comenta que talvez ele seja muito pobre e trabalhe nos EUA para mandar dinheiro para a família. Não é bem o caso, como percebe a protagonista ao chegar em Singapura, e ser informada por uma amiga, Peik Lin (Awkwafina, a melhor presença no filme), de que o clã do rapaz chegou em Singapura quando tudo era, literalmente, mato, e construiu o local e detém riqueza e poder.
O diretor Jon M. Chu é capaz de fetichizar o modo de vida dos ricos de tal forma que Podres de ricos é uma espécie de 50 tons de cinza no qual o sadomasoquismo é substituído pelo consumo desenfreado. Um par de brincos antigos custa a pechincha de 1,2 milhão de dólares, e uma prima de Nick, Astrid (Gemma Chan), compra sem nem piscar os olhos. Esse tipo de comportamento é o que fascina qualquer pessoa que precise perguntar o preço antes de comprar qualquer coisa – ou seja, 99% da humanidade.
Por isso, o diretor Chu falha ao evitar as engrenagens que mantém o clã Young de pé. É bem verdade que uma comédia romântica não é bem o terreno fértil para se explorar essa questão, mas a forma como o filme evita qualquer coisa que fuja às esfera do consumo é reveladora. Mostrar o que vai além do sonho e fantasia (especialmente de riqueza) é tirar o elemento mágico do conto de fadas. Colocar na tela a famosa desigualdade social da China e Singapura é mostrar que o dinheiro chega a qualquer família manchado de exploração.
O mais curioso é que um filme situado na Ásia, protagonizado por personagens e interpretes asiáticos e asiáticas ainda encontre espaço para exaltar o espírito norte-americano. O que acaba levando a tese da representatividade para o ralo. O embate entre Rachel e Eleanor está entre a modernidade da moça e a tradição da matriarca. A americana representa, como o filme deixa claro mais de uma vez, seguir em busca da paixão, do sonho – mesmo que isso, como aponta a mãe de Nick custe deixar a família de lado. Aqui – como em boa parte das produções culturais dos EUA – o etos dos Estados Unidos é a régua que mede o sucesso, e nesse sentido, transformar Rachel na heroína de Podres de ricos é tomar a superioridade do moderno diante da tradição – fazendo da representação dos asiáticos mero mediador para exaltação da parte rica do mundo ocidental. (Alysson Oliveira)

PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 - 20/10 - 19:00 (sábado)


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