Começa a repescagem com destaques da Mostra

Nesta segunda, destaque para filmes premiados em festivais

Equipe Cineweb

A segunda-feira tem as primeiras sessões de 3 Faces, do iraniano Jafar Panahi – prêmio de roteiro em Cannes 2018 – e do suspense argentino Vermelho Sol, de Benjamin Naishtat, vencedor de três prêmios em San Sebastián. E podem ser vistos o vencedor de Berlim, o polêmico Não me toque, o brasileiro Deslembro, o argentino Mochila de Chumbo e o britânico Obediência, todos retratando problemas de jovens. 

3 FACES

Apesar das restrições judiciais – ele está proibido de viajar para o exterior e, teoricamente, de filmar -, o cineasta iraniano Jafar Panahi continua criando e compôs um filme muito interessante em 3 Faces, vencedor do prêmio de roteiro no mais recente Festival de Cannes.
No caso, as faces do título são femininas – o cinema de Panahi mostra-se, mais uma vez, intensamente interessado nas mulheres. E suas explorações em torno da própria linguagem cinematográfica revelam-se muito instigantes.
As três mulheres – todas usando seus próprios nomes - são uma famosa atriz de TV, Behnaz Jafari, que recebe um vídeo pela internet, retratando o suposto suicídio de uma garota, Marziyeh Rezae, que se queixa de a ter insistentemente procurado e não recebido resposta. Marziyeh, segundo conta, queria a intercessão de Behnaz para que sua família lhe permitisse estudar fora de sua aldeia, ela que sonha em tornar-se atriz, mais do que tudo. Começa aí a interrogação da própria história, sobre os limites entre realidade e encenação, que são tão caros ao cinema iraniano em particular e à arte cinematográfica como um todo.
Como em seus fimes mais recentes (Isto não é um filmeTáxi em Teerã), depois da perseguição política, o próprio Jafar Panahi aparece como personagem, ajudando a amiga Behnaz a investigar se é verdadeira ou falsa a história de Marzieyeh e seu vídeo. Esta viagem permite a Panahi retratar um pouco o interior mais profundo de uma zona rural na fronteira com a Turquia, que expõe as contradições de uma cultura machista e esconde ali o terceiro rosto da história – o de uma atriz de outros tempos, malvista na comunidade, que é um “mau exemplo” para meninas que buscam maior independência e de quem não veremos, propriamente, o rosto.
É neste jogo do que conta e do que esconde, do que sugere e do que nega em seguida, do que segue e deixa de lado que a narrativa constrói sua sedução. Com roteiro assinado pelo próprio Jafar e Nader Saeivar, 3 Faces reproduz, em escala minimalista, o encanto de Sherazade compactado não em 1001 noites, mas numa enxuta e densa 1 hora e 40 minutos. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL - SALA 1               22/10/18 - 21:45 -(Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA POMPÉIA 1         23/10/18 - 21:00 -(Terça)
CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS24/10/18 - 19:00 -(Quarta)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               30/10/18 - 20:00 -(Terça)


NÃO ME TOQUE

O filme da diretora romena estreante Adina Pintilie venceu o Urso de Ouro no mais recente Festival de Berlim e representa um desafio para a sua decifração e fruição pelos espectadores. Adina semeia mais dúvidas do que certezas ao longo de uma obra que borra os limites entre documentário e ficção e explora diversos temas em torno da sexualidade e da intimidade física.
De maneira muito franca, desde a primeira sequência, mostra-se muitos corpos nus, não se furtando à exibição de algumas genitálias e mesmo práticas sexuais pouco ortodoxas, numa narrativa que tem como condutora uma mulher de seus 50 anos, Laura (Laura Benson), e suas interações com diversos personagens, como um prostituto, um transexual, um terapeuta corporal e com a própria diretora – que, num determinado momento, troca de lugar com sua personagem, discutindo seus problemas na primeira pessoa diante da câmera.
Um dos cenários do filme é uma clínica de terapia corporal, da qual participam personagens nada comuns – como um casal, formado por um homem com séria deficiência física, Christian, que parece inteiramente feliz e integrado com uma parceira, Gert, sem qualquer problema físico.
Em alguns momentos, parece uma grande sessão de terapia em conjunto, com a aparente intenção de investigar bloqueios humanos em torno da sexualidade e que não se furta também a alguma especulação em torno do próprio ato de filmar tudo isso.
Assim sendo, não é absolutamente um filme dentro de padrões, cujas experiências podem não interessar a todos. Em tempos ultramoralistas, pode até chocar alguns mais sensíveis, mas não é para tanto.  A indicação etária é 18 anos. (Neusa Barbosa)

CINE CAIXA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS 22/10/18 - 20:10 -(Segunda)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               24/10/18 - 14:00 -(Quarta)
CINESESC                   29/10/18 - 21:30 -(Segunda)

DESLEMBRO

A diretora Flávia Castro, já premiada com o documentário Diário de uma Busca (2010), envereda pela ficção para contar uma história que igualmente se nutre de sua própria biografia.  Sua protagonista é a adolescente Joana (a impressionante Jeanne Boudier), filha de militantes políticos antiditadura, que cresceu no exílio, entre a América do Sul e a França, onde vive agora, com a mãe (Sara Antunes), o padrasto e seus dois meio-irmãos menores. Em 1979, com a aprovação da Anistia, sua família decide voltar ao Brasil, para seu profundo desgosto. Seu país natal, finalmente, lhe é totalmente estranho. Nesse retorno, a jovem vê-se confrontada não só com os fenômenos naturais da idade, como a descoberta do próprio corpo, como com as revelações sobre o próprio passado familiar. Afinal, seu pai biológico é um dos desaparecidos políticos do país e ela pouco sabe sobre isso.
Com muita delicadeza, a diretora, que também assina o roteiro, desenvolve este perfil de uma família amorosa e também fraturada, que teve seus caminhos marcados a ferro e sangue pela militância política – assunto que a diretora conhece profundamente, porque foi essa sua história pessoal. O foco está na geração da garota Joana, que cresceu sob o impacto das escolhas dos pais e teve que fazer seu próprio rumo, num país igualmente fraturado. Destaca-se no elenco Eliane Giardini, como a avó. (Neusa Barbosa)


CINESESC                                21/10/18 - 14:00 -(Domingo)
CINESALA                                22/10/18 - 17:40 -(Segunda)


VERMELHO SOL

O ator argentino Darío Grandinetti (Fale com Ela) e o chileno Alfredo Castro (ator-fetiche dos filmes de Pablo Larraín) fazem um grande duelo neste eletrizante suspense político argentino, terceiro longa do diretor e roteirista Benjamin Naishtat e que foi triplamente premiado no Festival de San Sebastián (direção, fotografia e ator para Grandinetti).
Em 1975, Claudio (Grandinetti) é um advogado respeitado numa província argentina. Uma noite, enquanto esperava sua mulher num restaurante, um jovem estranho (Diego Cremonesi) começa a insultá-lo e provoca uma cena. O incidente tem desdobramentos trágicos, mas que permanecem ocultos durante algum tempo.
O advogado continua com sua rotina, numa época em que começava a instalar-se na Argentina um clima de repressão, que preparou, finalmente, o golpe militar de 1976. Ocorriam desaparecimentos, deixando para trás casas vazias, abandonadas às pressas. Uma delas atrai a atenção de um conhecido do advogado, que pede sua ajuda para que ambos possam apossar-se dela e obter lucro.
Um dia, chega à cidade o detetive Sinclair (Alfredo Castro), para investigar um desaparecimento. O caso tem consequências para Claudio e começa entre os dois um jogo de gato e rato. O roteiro, também assinado por Naishtat, arma uma trama consistente, que explora em diversas direções a fragilidade da ética em tempos conturbados, os fantasmas latentes debaixo de uma situação de aparente normalidade e a hipocrisia dos chamados “cidadãos de bem”. Por todos estes motivos, um filme essencial aos tempos que correm. (Neusa Barbosa)


CINESESC                                22/10/18 - 21:20 -(Segunda)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    23/10/18 - 14:00 -(Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA POMPÉIA 1         26/10/18 - 21:00 -(Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   29/10/18 - 13:30 -(Segunda)
RESERVA CULTURAL - SALA 1               30/10/18 - 15:45 -(Terça)

TEMPORADA
Neste novo longa,  grande vencedor do mais recente Festival de Brasíliao diretor mineiro André Novais Oliveira pela primeira vez escala uma atriz profissional conhecida, Grace Passô como protagonista. Sua dramaturgia fluida, perto do real, no entanto, continua presente em todas as cenas deste filme, que teve sua première mundial em Locarno, em agosto.
Grace Passô interpreta Juliana, que recentemente assumiu um posto de agente de combate a endemias na cidade de Contagem (MG). Ela vem de Itaúna, onde deixou para trás um relacionamento fraturado. A recomposição da vida desta mulher obedece a dois compassos, um, a expectativa de retomada deste casamento, outro, a sua própria necessidade de encarar os desafios de um cotidiano que só à primeira vista parecem corriqueiros.
Em Temporada, outro roteiro seu, Oliveira aprofunda a dramaturgia intimista com olhos voltados à vida proletária que marcou todos os seus trabalhos, premiados inclusive, caso do longa Ela Volta na Quinta e curtas como Quintal (apesar da nota fantástica deste último). Salta mais uma vez aos olhos como o diretor insere no quadro corpos comuns, fora do modelo referendado pelos padrões estéticos da publicidade – inclusive do ponto de vista étnico-racial -, ocupando a tela com suas vidas miúdas, comuns, sem grandes revelações mas que encerram todo o dilema de estar vivo, aqui e agora. A marca do cinema do diretor é este afeto, esta sutileza que encobre a grandeza que requer atenção para se revelar. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   22/10/ 18 15:40 (Segunda)
CINESALA                                30/10/18 - 14:00 -(Terça)

MOCHILA DE CHUMBO
O ponto de partida de Mochila de chumbo, segundo longa do roteirista e diretor argentino Darío Mascambroni, é inspirado num episódio que aconteceu com sua família. “Quando eu era adolescente, perdi um tio de maneira um tanto confusa. Um tempo depois, o homem que o matou saiu da cadeia, e eu ficava pensando no meu primo, que tinha uns 8 anos. Como ele estaria lidando com tudo aquilo?”, contou em entrevista ao Cineweb em São Paulo, onde participa da 42a Mostra.
A partir dessa ideia, Mascambroni – que assina o roteiro com Pipi Papalini e Florencia Wehbe – investiga no longa a vida interior de um adolescente que passa pelo mesmo dilema. “O filme nasceu de uma sensação muito forte que eu guardava daquela época, e ficou por comigo por anos. Transformar em uma obra de ficção é também uma maneira de lidar com isso.” No filme, Tomás (Facundo Underwood), de 12 anos, perde o pai e quando o assassino é libertado, o garoto coloca uma arma em sua mochila e sai à procura desse homem.
O longa de estreia do diretor, Primero enero, também trazia um adolescente como protagonista, que, ao lado do pai, recém-divorciado, passava as férias numa casa na montanha. “No segundo filme, me senti mais seguro. Mochila de chumbo tem uma história mais complexa e uma equipe maior, mas eu tinha um pouco mais de experiência e aprendido com alguns erros que cometi.”
O processo de seleção das crianças que participam do filme foi realizado nas escolas da região onde o longa foi rodado. Começou com 200 meninos, até chegar no grupo que foi escolhido para interpretar os amigos de Tomás. Com Underwood, o protagonista, foi diferente. “Desde o primeiro momento que o vi, tive certeza de que era ele o menino certo para o papel. Sua seriedade, seu semblante, tudo era o que o personagem pedia.”
Depois da seleção, os garotos passaram por uma semana de treinamento, como chama o diretor, com um especialista em direção de crianças, para que se preparassem. Como atores-mirins têm que trabalhar menos horas por dia do que adultos, tudo precisava estar muito bem preparado para quando finalmente começassem a rodar o filme. “Além disso, as atuações tinham de ser realistas e orgânicas. Não dá para repetir muito as cenas, porque eles vão perdendo a espontaneidade”.
O filme fez sua estreia no Festival de Berlim, onde o diretor percebeu algo curioso na recepção. “A realidade dos personagens, embora dura, não é a pior que se tem na Argentina, e creio que no Brasil é parecido. Para o público europeu, no entanto, aquele era o pior cenário possível para a vida de um menino.” Mesmo assim, Mascambroni destaca que seu filme tem um apelo universal. “O foco aqui é a relação entre o filho e a sua mãe. Ele precisa da atenção dela nesse momento. E este é um assunto que fala a todos.” (Alysson Oliveira)

RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 22/10/18 - 14:00 (Segunda)
SESC CAMPO LIMPO  -23/10/18 - 20:00 (Terça)

THUNDER ROAD
Vencedor o Prêmio do Júri no Festival SXSW de 2018, Thunder road é o show de um homem só. Jim Cummings é o roteirista, diretor e protagonista desse longa que parte de um curta feito por ele, premiado em Sundance dois anos atrás, e disponível na íntegra na página do diretor no site Vimeo. Nem por isso é necessário ver o curta antes para compreender o longa, até porque o curta inteiro é a primeira cena deste filme, em que o policial Jim Arnaud faz uma homenagem à sua mãe no funeral dela.
O longa expande a investigação da vida desse policial no momento de luto, nos dias seguintes à perda de sua mãe. Logo depois do enterro, ele retoma sua rotina de trabalho, com seu parceiro, Nate Lewis (Nican Robinson), e acaba tendo de lidar com pessoas com problemas emocionais que parecem maiores do que os dele.
Jim tem dificuldade de processar a perda, Seus dois irmãos, que nem vieram para o enterro, não ajudam em nada. Também é um problema sua ex-mulher Roz (Jocelyn DeBoer), que dificulta a relação dele com a filha pequena, Crystal (Kendal Farr), a quem ele adora. Ele a ama tanto que é doloroso imaginar o que pode acontecer com ele se um juiz o proibir de ver a menina.
O protagonista é uma pessoa de bom coração, mas obsessivamente autocentrado, a ponto de nem se dar conta disso. O resultado é uma comédia agridoce nem sempre muito bem-resolvida. Existe uma crítica forte à sociedade norte-americana contemporânea aqui – à crise financeira e social que o país enfrenta, o alto nível de desemprego, o aumento no consumo de drogas. A  interpretação de Cummings é o ponto alto, mas é difícil não se ressentir de ver mais um filme fechado na estética típica dos independentes de Sundance. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 22/10/18 - 20:00 (Segunda)
CINEARTE PETROBRÁS 1  - 27/10/18 - 18:00 (Sábado)

OBEDIÊNCIA
Prêmio de melhor fotografia (de Albert Salas) em Tribeca, o drama de estreia do diretor britânico Jamie Jones tem energia e contundência para traçar um retrato da juventude periférica do leste de Londres. Geralmente negros ou descendentes de imigrantes, estes jovens caem cedo fora da escola, passam ao largo de oportunidades de trabalho e têm famílias disfuncionais. É o caso de Leon (Marcus Rutherford), de 19 anos, que recentemente voltou a morar com a mãe, alcoólatra. Seu sonho é ser lutador de boxe e ele passa os dias entre uma academia, em treinamento, e seus amigos.
Com a tensão social crescendo, aumentam os enfrentamentos destes jovens com a polícia, promovendo batalhas campais cada vez mais violentas. No meio deste caldeirão, Leon conhece Twiggy (Sophie Kennedy Clark), jovem branca, de classe média, que passou a integrar um grupo de ativistas por moradia, ocupando um dos muitos imóveis vazios de Londres, uma das metrópoles com maior especulação imobiliária do mundo. Os sonhos de Leon passam também por Twiggy, mas as diferenças sociais e a aspereza de um tempo de repressão pesam sobre suas possibilidades. Talvez o filme pudesse aspirar também a ir um pouco mais longe do que constatar esta ebulição social, mas, pelo menos nisso, ele é bastante eficiente, com jovens atores totalmente empenhados. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   22/10/18 - 15:10 - (Segunda)
CINEARTE PETROBRÁS 1                    28/10/18 - 17:40 - (Domingo)


ERA UMA VEZ EM NOVEMBRO
O filme Era uma vez em novembro, do polonês Andrzej Jakimowski, é exibido na Mostra em um momento muito oportuno para os brasileiros, que guarda muita semelhança com a situação política e econômica da Polônia em 2013, quando o filme é situado. Lá, como cá, a população é vítima de uma grave crise econômica e vê ascender uma força fascista que prende eliminar fisicamente aqueles que não se identificam com seus ideais violentos de extrema direita. É a história se repetindo como farsa.
Na Polônia acossada pelos nazifascistas, o jovem Marek (Grzegorz Palkowski) e sua mãe (Agata Kulesza), uma professora desempregada, tentam encontrar um lugar para morar, durante o rigoroso inverno. Eles e muitos poloneses vítimas da crise foram despejados de suas casas e procuram proteção nos poucos abrigos e em prédios e locais públicos abandonados e invadidos. E precisam resistir contra manifestantes de extrema-direita que tentam desalojá-los com paus, pedras e fogo. A polícia cruza os braços e deixa que façam o trabalho sujo.
Intercalando cenas documentais das manifestações da época, impressionantes pelo gigantismo e pela violência, o diretor, também autor do roteiro, insere na história um cão vira-lata, adotado pela mãe, e que se perde durante as várias mudanças da família.
O cão perdido, a família desabrigada e as relações sociais esgarçadas compõem o retrato de uma sociedade excludente, que procura exterminar a herança de bem-estar herdada do antigo regime comunista.
Aliás, o drama do próprio cão, que perpassa todo o filme, é responsável por fortalecer o compromisso humanista desses personagens derrotados. Eles não abandonam o animal, mesmo colocando a vida em risco para resgatá-lo e protegê-lo em um país enlouquecido pelo ódio político.(Luiz Vita)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 - 22/10 - 19:30 (segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4 - 25/10 - 17:40 (quinta)
CINEARTE PETROBRÁS 2 - 31/10 - 14:00 (quarta)


EU NÃO ME IMPORTO SE ENTRARMOS PARA A HISTÓRIA COMO BÁRBAROS
O título do novo longa do romeno Radu Jude, “Eu Não me Importo se Entrarmos Para a História Como Bárbaros”, precisa vir entre aspas porque é uma citação de uma fala no Conselho do Ministros, em 1941, quando de um massacre na Romênia que visava uma limpeza étnica. Com 140 minutos, esse é um filme complexo e sofisticado que parte de uma metalinguagem para investigar o estado das coisas do mundo contemporâneo – e é assustador como o Brasil de 2018 se parece com a Romênia daquela época. 
“Eu não me importo...” dialoga com Hannah Arendt, Walter Benjamin (especialmente com suas Teses sobre a filosofia da história), Karl Marx, Elie Weisel, Isaac Babel, Leni Riefenstahl, Steven Spielberg, Teoria Crítica, entre outras pessoas e temas, mas nada disso faz do filme intransponível ou cifrado, muito pelo contrário, porque o que está em jogo na sua trama é a disputa pela narrativa da História. Essa é uma comédia mordaz e cínica sobre os tempos de desilusão e niilismo (para não falar do obscurantismo) em que vivemos.
O filme, também escrito por Jude, começa com a atriz Ioana Iacob num museu militar, explicando que ela é uma atriz, e está nesse longa representando uma diretora de teatro, Mariana Marin (homônima da poeta dos anos de 1980) que deve montar um espetáculo que leve ao público um episódio da história romena. Ela está fazendo uma pesquisa para encenar o massacre de 1941, no qual Ion Antonescu ordenou a execução de 10 mil judeus, capturados em Odessa pelas tropas romenas.
Obviamente é um assunto espinhoso, que o governo e o próprio povo romeno não têm interesse em revisitar, mas, conforme a produção da peça avança, Mariana percebe uma certa perversidade e prazer que as pessoas têm em presenciar – nem que seja de maneira encenada – a destruição. Quando judeus são executados, o público sente claramente prazer, e a protagonista fica indignada com a incapacidade das pessoas de simpatizarem com os oprimidos.
Antonescu foi preso, julgado e executado por seus crimes de guerra, em 1946, mas ele e seus atos fazem parte da História, e isso é impossível negar. Jude questiona, ironicamente no filme (talvez por isso a metalinguagem com que o diretor abre o longa seja importante) a capacidade da arte em iluminar as disputas da História. O espetáculo de Mariana é, de certa forma, anódino e frustrante para ela, uma vez que o efeito que surge é o contrário do esperado. Dessa maneira, é impossível não pensar (mais uma vez) em Benjamin vendo o filme, mais especificamente em sua frase: “Nunca houve um monumento de cultura que também não fosse um monumento da barbárie.” “Eu não me importo...” é, enfim, um monumento de cultura e barbáries – mas, especialmente sobre a barbárie que nos assola. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 22/10/18 - 15:45 (Segunda)
CINESESC - 24/10/18 - 17:50 (Quarta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 - 25/10/18 - 20:45 (Quinta)

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