51º Festival de Brasília: identidade feminina em foco

Identidade feminina é tema na programação da noite de segunda

Neusa Barbosa, de Brasília
Mais uma vez, dialogaram muito bem na programação o curta e o longa da terceira noite competitiva do Festival de Brasília. Tanto o curta Mesmo com Tanta Agonia, de Alice Andrade Drummond (SP) quanto o longa Luna, de Cris Azzi (MG), compartilharam questões sobre identidade feminina em diferentes etapas da vida.
 
Primeiro longa solo do mineiro Cris Azzi (dos documentários Sumidouro e Dia do Galo), Luna é um retrato da adolescência feminina contemporânea a partir das personagens de Luana (Eduarda Fernandes) e Emília (Ana Clara Ligeiro). Roteirizado também por Azzi, a partir de um trabalho de construção dramática com muita participação das jovens atrizes – ambas estreantes – e também do veterano diretor de fotografia Luís Abramo, o filme mostra uma organicidade e energia extraordinários. Isto decorre de um processo de criação em que as atrizes conheciam as linhas gerais do roteiro, mas não o tinham à mão, como uma cartilha para uso de maneira rígida, e muitos ensaios. Estes ensaios, segundo Abramo no debate de hoje, “alimentaram o filme”.  Ele contou que “muitas cenas foram tiradas dos ensaios”.
 
Este método coletivo de encontrar o filme permitiu que fossem abandonados ao longo do caminho certas palavras, tons e situações que não correspondiam ao sentimento das atrizes. Esta preparação, segundo a própria Eduarda, “trouxe organicidade”.
 
Corpo e contexto
 
Mesmo em se tratando de um filme que gira muito em torno do cotidiano e do corpo das duas garotas, na escola, na rua, em suas casas e nos ambientes que frequentam, o filme incorpora também alguns familiares – a mãe de Luana é interpretada por Lira Ribas, protagonista do premiado curta Estado Itinerante. A própria escola onde estudam é um contexto ao mesmo tempo social e político já que se debate ali, no começo do filme, a legitimidade do impeachment de Dilma Rousseff – fato que ocorreu durante as filmagens, há dois anos.
 
O fato é que Luna é o tipo de filme que não precisa de bula. As personagens ocupam os cenários com seu corpo, seu olhar, suas experiências. E é por imagens que se constrói a existência delas, suas relações com colegas e com famílias um tanto distantes – por motivos diferentes -, sua vida na escola e o relacionamento entre as duas mesmo, que é o mais próximo e íntimo.
 
A sensação que se depreende do filme, portanto, é de um existir diante da câmera, natural, efêmero como a adolescência, que se transforma diante de nossos olhos. O próprio diretor diz que vê o filme como “um rito de passagem para Luana”, mas é certo que sua obra encerra inúmeras leituras. O próprio tema do cyber bullying que, num determinado momento, ocorre, não se torna o único centro da história. Azzi ressalta que “não quis que o filme se tornasse refém disto”.
 
Neste sentido e também no encaminhamento que se dá à questão, Luna é um contraponto a Ferrugem, de Aly Muritiba, em cartaz em diversos pontos do país. O final, especialmente. Libertário e catártico, este final, aliás, foi celebrado entusiasmadamente pela plateia de Brasília, como uma apoteose.
 
No trem, na limusine
 
Numa outra chave, o curta da noite, Mesmo com Tanta Agonia, focalizou uma mulher adulta, Maria (Maria Leite). Sub-chef de um restaurante num bairro elegante de São Paulo, ela enfrenta um dia de trabalho duro com emoções contraditórias. Ao mesmo tempo que atravessa a cidade, primeiro em trem lotado, depois de carro, para encaminhar a festa de aniversário da filha de 10 anos, ela tem seu trajeto momentaneamente interrompido pela morte de um ambulante, atingido por um trem.
 
O filme desenvolve uma série de ambiguidades, tanto em torno da própria identidade da trabalhadora que tem uma certa ascensão social, sem descolar-se de sua condição econômica remediada, sendo mãe solteira ou separada (o filme não diz), quanto na própria natureza da festa escolhida para a filha – a bordo de uma limusine que atravessa a avenida Paulista, dentro da qual as meninas cantam e tiram selfies, momentos impagáveis dentro da narrativa.  
 
O contraste destas situações, ironicamente, foi tirado da vida real. Como informou a diretora no debate, o ponto de partida do roteiro foi uma notícia, ouvida no rádio, dando conta de um acidente vitimando um ambulante nos trilhos de um trem. Segundos depois, abruptamente, a locutora passou a outro assunto, justamente a festa infantil em limusine.

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