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"Cabras de Merda" resgata memórias da resistência no Chile de Pinochet

Neusa Barbosa, de Fortaleza
Fortaleza - Primeiro filme estrangeiro da competição do Cine Ceará, o drama chileno Cabras de Merda, de Gonzalo Justiniano, cumpriu muito bem a declarada intenção do veterano diretor de resgatar como era a vida cotidiana no Chile sob a ditadura de Augusto Pinochet – o que permite tanto uma reflexão lúcida sobre a violência do período quanto um mergulho emocionado nas vidas de algumas pessoas comuns.
 
Toda esta trama, que é impregnada de diversos momentos de humor e algum romance, gira em torno de Gladys (Natalia Aragonese), uma jovem moradora de uma comunidade pobre mas muito aguerrida, mobilizada na luta pelo retorno do país à democracia, em 1983. Chega ali um missionário mórmon norte-americano, Samuel (Daniel Contesse), com a intenção de levar a palavra de Deus e o que ele acredita como progresso àquelas pessoas desvalidas.
 
A Iniciativa, no entanto, sofre um choque com a vida real. Samuel mostra sensibilidade o bastante para abrir-se ao contexto que encontra, tornando-se, ele mesmo, parte do turbilhão social e político que abala aquele país. Outro turbilhão o envolve também com Gladys, que provoca fissuras em seu total despreparo sexual, nutrido pela auto-repressão e o moralismo.
 
Sean Penn
 
Na coletiva desta manhã de segunda (6) diretor (foto) contou que o roteiro, assinado por ele, teve a participação do ator norte-americano Sean Penn, que deveria ter assumido o papel do missionário na maturidade. Toda a confusão que envolveu Penn e a captura do traficante mexicano “El Chapo”, em 2016 (o ator o tinha entrevistado antes de sua prisão), no entanto, acabou afastando-o deste projeto (e seu papel foi incorporado pelo próprio Daniel Contesse, com maquiagem).
 
A história, num primeiro momento, aproxima o público de seus personagens, entre os quais um adorável menino de 8 anos, Vladi (Elias Collado) – que nunca havia atuado antes, oferecendo-se voluntariamente à equipe de produção durante a fase de testes, uma verdadeira revelação. Mas, habilmente, o entorno, o contexto de toda esta história ficam claros em inúmeras situações – como quando o ingênuo missionário entra nas casas dos moradores em busca de deixar-lhes folhetos religiosos e é desafiado por reações inesperadas.
 
Todo esse contexto, mais a aproximação de um confronto direto com o regime repressor chileno que, naquele ano de 1983 ainda mantinha força total,  compõe as duas faces de um filme extremamente rico em nuances, um retrato de época mesmo, em que a intenção de resgate de memórias é igualmente explícita.
 
Conforme o diretor, a inspiração da comunidade vista no filme veio da favela La Victoria, uma pioneira ocupação que se mostrou uma das mais aguerridas na resistência democrática no Chile. A Gladys vista no filme, segundo Justiniano, é a soma de muitas jovens que militaram no Chile e, por serem jovens e mulheres, sofreram a repressão de forma ainda mais violenta, com estupros.
 
No caso do missionário norte-americano, a inspiração veio de religiosos franceses que atuavam na região – um dos quais foi assassinado. O filme, aliás, é dedicado a dois destes franceses e a outro religioso, o padre McEnroe, lembrado no filme chileno Machuca, de Andrés Wood.
 
Museu da Memória
 
Gonzalo destacou que o filme retrata sua história pessoal. Ele saiu do Chile em 1976, vivendo na França, onde estudou cinema. Voltou ao país justamente em 1983, para realizar um trabalho para a TV francesa. O material filmado, no entanto, foi praticamente todo confiscado pelas autoridades chilenas. Entretanto, restaram cerca de 2 horas num U-matic que era um back up e outras imagens que estavam em sua casa. Esse material que sobreviveu foi, finalmente, entregue por ele recentemente ao Museu da Memóriae dos Direitos Humanos criado em 2010 no Chile. Ao rever estas imagens, o cineasta revela que ficou muito impactado.
 
Justiniano destaca que não teve intenção de fazer um filme-denúncia. “Estamos falando de coisas que todos sabemos, que aqueles policiais, aqueles militares torturavam, matavam, jogavam pessoas de aviões. Isso tudo são fatos, estão aí. Por isso digo que meu filme não é de fato político, é policial, criminal”.
 
No Chile, o filme foi lançado, permanecendo cinco meses em cartaz. Mas o diretor destaca que alguns o criticam por trazer de volta as memórias da ditadura, o que ele considera essencial. “O filme está baseado em coisas e pessoas que conheci, em fatos que investiguei. E quero que meus filhos saibam”, diz. Isto, segundo ele, sem abrir mão de “contar essa história através da emoção. Queria que as pessoas aprendessem essas coisas pelo coração, mesmo se tratando de fatos tão duros”.

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