"Petra" é o grande vencedor do Cine Ceará

"Petra" conjuga melodrama com intensidade e contenção

Neusa Barbosa, de Fortaleza
Fortaleza Petra, do diretor catalão Jaime Rosales, introduziu o melodrama a frio na competição do Cine Ceará. Contando com um elenco muito qualificado, encabeçado pela atriz Bárbara Lennie, ao lado da musa Marisa Paredes, o diretor controla, com intenso minimalismo, um drama familiar entremeado de diversos segredos e tragédias com potencial de uma explosão latente, que nunca ocorre.
 
Filmado em 35 mm – de que o diretor não abre mão, apesar de obrigá-lo a usar um laboratório na França, pois na Espanha não há mais para este suporte -, com longos planos-sequência, o enredo se estrutura também em capítulos, montados numa ordem não-linear. Aqui, começa-se pelo 2, passando ao 3 e só depois retornando ao 1, para contar a história de Petra (Barbara Lennie), jovem que está iniciando uma residência artística na propriedade de um famoso artista, Jaume o impressionante estreante Joan Botey). O objetivo oculto de Petra é descobrir se este homem é seu pai. O filme trata, de várias maneiras, desta busca de uma verdade – que, como declara Marisa (Marisa Paredes), aquela casa dela e de Jaume é o lugar mais errado para vir procurar.
 
Verdades e mentiras se alternam neste filme de eloquência poderosa numa linguagem cuidadosamente trabalhada. Como explicou sua produtora, Barbara Diez Jiménez, que participou de toda a elaboração do projeto e também de sua montagem: “A câmera era como um anjo, que ficava flutuando e se interessava por uma coisa, por outra e saía de quadro, voltava. Não queríamos que o público soubesse de tudo e sim que fosse co-partícipe deste olhar”.
Tragédia e improvisação
Há uma evidente inspiração na tragédia grega na raiz desta história, que lida com incesto, suicídio e assassinato, mas também uma intenção declarada de romper com seu classicismo. Neste sentido, apesar do evidente rigor na composição, os atores trabalharam a partir de um roteiro mas com liberdade suficiente para improvisações que lhes permitissem encontrar as próprias palavras para cada situação. O método, que tão bem conveio a Bárbara Lennie, por exemplo, foi mais penoso para a veterana Marisa Paredes, conforme a produtora. “Custou-lhe mais trabalhar assim, ainda mais quando tinha que contracenar com o ator que faz seu marido, que não é profissional”.
 
A revelação de que Joan Botey, dono do personagem central na história, não é ator profissional cai como uma surpresa. Ele, na verdade, é um engenheiro, que foi encontrado por acaso, já que é dono da casa em Girona em que ocorreram parte das locações. Sua presença, seu tipo físico e sua própria condição econômica convenceram o diretor de que ele seria o intérprete natural de seu artista, um homem rico, impiedoso e de uma crueldade determinada e implacável. Ele mesmo, segundo Barbara, foi-se integrando ao processo de filmagem naturalmente, sem talvez imaginar o tamanho que teria sua participação na tela. Ele só teve a dimensão disso, segundo ela, quando assistiu ao filme com sua família. Petra, inclusive, foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores de Cannes 2017.
 
O filme ainda não estreou na Espanha, o que está previsto para 19 de outubro próximo. Antes disso, em setembro, passará no Festival de San Sebastián.

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