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Documentário sobre Galeano e comédia colombiana dividem a tela no Cine Ceará

Neusa Barbosa, de Fortaleza
Fortaleza - Uma entrevista, realizada em outubro de 2009, é um dos muitos materiais que deram origem a Eduardo Galeano – Vagamundo, de Felipe Nepomuceno, documentário que foi uma das atrações da competição desta terça (7), no Cine Ceará.
 
Realizado em preto, branco e toques de vermelho, o filme complementa as falas sempre muito saborosas, poéticas e lúcidas do escritor uruguaio, morto em 2015, com outras de diversos autores e atores, declamando textos de suas obras – caso de Paulo José, Ricardo Darín, Mia Couto, Armando Freitas Filho e João Miguel, entre outros.
 
Muitos outros personagens destas leituras acabaram caindo fora da edição final, de 72 minutos, como Chico Buarque de Holanda, Fernanda Montenegro e Milton Hatoun. Há também, como informou o diretor, na coletiva de imprensa desta manhã de quarta (8), um improviso do ator João Miguel, interpretando o artista Arthur Bispo do Rosário (que ele interpretou no teatro e é o tema do texto de Galeano lido por ele) numa conversa imaginária com o próprio Galeano. Todos estes materiais devem, futuramente, ter alguma utilização, cuja forma ainda deve ser definida.
 
De todo modo, o filme realizado por Felipe Nepomuceno, filho do jornalista, escritor e tradutor Eric Nepomuceno, que conviveu a vida toda com o escritor uruguaio, e de quem o pai foi colega na revista argentina Crisis, incorpora com sensibilidade esta ligação pessoal e a transcende, criando um documentário que está em torno de Galeano, traz muito dele, sem pretender esgotar este verdadeiro continente humano e literário que ele constitui.
 
A intimidade com seu personagem foi descrita com emoção por Felipe: “Sinto muito a falta dele. Minha busca, com este filme, também é continuar conversando com ele. Poucas vezes na vida me senti tão sozinho quanto na ilha de edição, tentando imaginar o que ele diria”.
 
Palavra da filha
 
A sessão de ontem, première mundial do documentário, guardava ainda uma outra grande expectativa para o diretor. Seria, também, a primeira vez que Florencia Hughes, uma das filhas de Galeano, que está em Fortaleza, veria o filme completo na tela. Ela mesma admite que, se não gostasse, seria um grande problema, devido à grande proximidade com Felipe, que conhece desde pequeno e cujos esforços para o filme ela acompanhou. Mas tudo se passou bem. Ela acha que o filme constitui um “diálogo visual que corresponde ao modo de ser do personagem de meu pai”. Ela descreve o pai como alguém que “vivia como que a 1,20 m do chão” e que tinha suas “luzes e sombras” - como ele mesmo afirma no filme.
 
Ainda criança, Florencia viveu na pele a turbulência da ditadura uruguaia. Ela descreveu uma invasão, sofrida no apartamento em que ela morava com a mãe e o irmão menor, em Montevidéu. Visivelmente emocionada, contou como viu os militares “chegando pelas escadas” e “jogando livros no chão” e como se lembra ainda do medo que teve pelo irmão, mais novo do que ela três anos.
 
Produzido pelo Canal Brasil, Eduardo Galeano – Vagamundo – que empresta seu subtítulo de um livro do autor – ainda não tem distribuição no cinema, o que a produtora Tereza Álvarez ainda tem esperança de que aconteça.
 
Secretária colombiana
 
Numa chave inteiramente distinta, a comédia colombiana Amália, a secretária, de Andrés Burgos, conta a história de uma mulher na meia-idade (Marcela Benjumea).
 
Ela vive uma vida tediosa como secretária de uma empresa, vivendo com uma mãe com Alzheimer, quando conhece Lazaro (Enrique Carriago), um funcionário de manutenção que rompe com sua rotina diária e insere um princípio de desordem que muda aos poucos a vida dela.
 
Como destacou a atriz na coletiva, esta foi uma personagem que lhe deu muita alegria de fazer. Chamou a atenção para o “tom minimalista” da história. “Ela não vai salvar o mundo nem fazer grandes coisas. Suas vitórias, suas mudanças, são pequenas. Mas ela é quem é porque quer. A solidão em que vive não lhe é imposta. Há nela até uma certa ingenuidade de achar que isso pode lhe bastar. Mas também não é nenhuma pobre coitada”.
 
Ela conta ter pesquisado sua personagem andando nas ruas de Bogotá, observando mulheres que trabalham no distrito comercial, onde há muitos bancos e empresas. “Há muitas Amálias por aí”, observou. Isso a ajudou, por exemplo, a compor sua linguagem corporal e opinar sobre seu figurino, em que ela usa um blazer como uma espécie de carapaça de defesa, que não abandona nem nas aulas de ioga na empresa.

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