"Petra" é o grande vencedor do Cine Ceará

Documentário resgata período secreto da vida de Che em Praga

Neusa Barbosa, de Fortaleza
Fortaleza - Exibido em sessão especial, fora de competição, o documentário Che – Memórias de um ano secreto, de Margarita Hernández (ao centro na imagem) – que teve sua première na mais recente edição do Festival É Tudo Verdade, em abril – consegue a façanha de ao mesmo tempo escavar a mística em torno do mito Che Guevara, como constituir um retrato de época reflexivo e impregnado de urgência e humor.
  
Contando com materiais de arquivo, alguns inéditos, pertencentes ao ICAIC cubano, arquivos pessoais e familiares e outros da República Tcheca, o filme tem uma pegada de thriller ao debruçar-se sobre um dos períodos menos conhecidos da vida de Che, desde sua carta de renúncia aos cargos que tinha em Cuba, em 1965, às suas viagens, clandestino, tentando levar a revolução a países como o Congo e, finalmente, a Bolívia – onde foi morto.
 
Margarita, que é uma das produtoras do Cine Ceará, é cubana, mas reside há vários anos no Brasil. A partir de seus contatos no país natal e também de uma intermediação do Itamaraty, conseguiu acesso a algumas das principais testemunhas da aventura secreta de Che, desde a derrocada no Congo, quando escapou pela Tanzânia, antes de fixar-se, sob falsa identidade, provisoriamente em Praga – sua última parada antes da Bolívia.
Disfarces do Che
 
Contando com depoimentos como o do protético e coronel Luiz García Gutiérrez, mais conhecido como “Fisín” – personagem central da Revolução Cubana que visitou o Cine Ceará, em 2011 -, de agentes secretos que guardavam Che, como Ulises Estrada, e outros comandantes que conviveram diretamente com ele, o filme expõe detalhes pouco conhecidos da trajetória do médico argentino convertido em revolucionário-modelo. Até porque, como lembrou Margarita no debate do filme, informações sobre o trabalho de Fisín, um dos maiores falsificadores de documentos e mascaradores de Cuba, com atividade intensiva para o regime cubano, só foram liberadas de sigilo a partir de 2004, ano em que ele se aposentou.
 
Esse aspecto de filme de espionagem é um dos grandes achados deste documentário, que une rigor jornalístico na pesquisa à inserção de detalhes de humor – como as deliciosas lembranças do agente Ulises Estrada, contando como informou ao Che quem eram James Bond – que o jovem Estrada muito admirava, aliás – e também os Beatles, de quem se tinha um dos poucos discos à disposição no isolamento em que ambos se encontravam. Este desconhecimento de Che de figuras tão famosas, como salienta Margarita, “mostra o quanto ele vivia num mundo à parte”.
 
Tendo como contrapontos, igualmente, a sólida entrevista do biógrafo de Che, Jon Lee Anderson, o documentário revela-se sua potência para resgatar com precisão o clima de uma época, os efervescentes anos 1960, sem passar ao largo da autocrítica. Por conta disso, e da qualidade dos materiais e da edição – de Leyda Napoles e Mair Tavares -, chega-se a um ritmo fluente, com ingredientes de uma boa história de suspense e aventura que tem a vantagem de ter sido incrivelmente real.
 
O filme já tem uma distribuidora para cinema – Arthouse -, mas ainda deve ser captada a verba para sua distribuição, o que a diretora estima que possa levar cerca de um ano. Antes disso, ainda deve prosseguir o circuito de festivais, previsto para Havana, Morávia e Praga, por enquanto.
 
A diretora contou também que reuniu muito material, especialmente sobre o Congo e Praga, e que há condições e uma intenção de produzir uma série de cinco capítulos, pelo menos. Para isso, será buscada a parceria de um parceiro, como um canal de televisão.

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