"Petra" é o grande vencedor do Cine Ceará

Documentários retratam época libertária e personagem peculiar

Neusa Barbosa, de Fortaleza
 Fortaleza - Resgate é a palavra que define o espírito dos dois longas documentais exibidos na competição do Cine Ceará na noite de quinta (8). No caso do documentário brasileiro Anjos de Ipanema, de Conceição Senna, recuperou-se uma época, os dois verões, de 1971 e 1972, quando o píer de Ipanema concentrou uma geração de jovens libertários e alegres. No caso do colombiano Senhorita Maria, a saia da montanha (foto), de Rubén Mendoza, foi a descoberta de uma excepcional personagem, uma transexual moradora de um povoado no interior da Colômbia.
 
O que motivou a diretora e também atriz Conceição Senna a realizar seu filme foi, segundo ela, “uma certa nostalgia e também uma certa perplexidade diante destes tempos que vivemos, um tanto tenebrosos”. Através de diversos depoimentos de seus amigos, ela traz de volta um momento de intensa efervescência, particularmente para as mulheres, que viviam o auge de uma liberação sexual proporcionada pela pílula anticoncepcional. “A pílula chegou no momento certo e isto afetou muito as mulheres. Como diz uma das minhas personagens, ‘podia tudo e continua podendo’”.
 
Ela rejeita, no entanto, a ideia de que aqueles jovens liberados fossem alienados politicamente. “Fora do píer, nos discutíamos tudo, em vários lugares, na minha casa, por exemplo. A América Latina estava fervendo. E nós sabíamos que a polícia estava ali, nos fotografando. Gil e Caetano estavam exilados em Londres, mas Gal Costa os representava, cantando as músicas deles. Nós fazíamos música, teatro, tanta coisa. Não éramos alienados, de forma alguma”.
 
Premiado em festivais como Cartagena e Locarno, o documentário colombiano revela a figura que se autodenominou como “Senhorita Maria”, moradora da região de Boavita, povoado aonde chegou o avô do diretor, décadas atrás, onde teve 26 filhos, de duas mulheres. Uma região, como lembra Mendoza, “muito conservadora e onde surgiram os primeiros grupos paramilitares de direita, nos anos 1950”.
 
Assim sendo, sua primeira perplexidade foi saber como não tinha sido morta aquela transexual, que era rejeitada e ironizada por quase todo mundo. Foi justamente sua fragilidade o que o atraiu. “Ela teria que ter muita força para nadar contra tantas correntes, a politica de direita, a Igreja e o pensamento conservador. Ao mesmo tempo, sua fragilidade é uma espécie de força. Ela é como uma espiga, que não é destruída pelo terremoto, apesar de tão pequena, enquanto um edifício, sim”.
 
Sua extrema solidão era outra marca: “É a pessoa mais só que conheci, não tinha um amigo, um parente”. Fazer o filme, portanto, implicou que o cineasta ganhasse sua confiança, o que demandou tempo. Depois de uma primeira aproximação, Maria sumiu, escondendo-se dele por cerca de um ano e meio. Teve que esperar que reaparecesse, o que não significa que sempre cumprisse os encontros marcados. “Muitas vezes me deixou na mão, com a equipe e o equipamento prontos. Batíamos na porta e ela não abria”, lembra.
 
História familiar
 
Mendoza conta que não tinha ideia da complicada história familiar de Maria –  marcada por um suposto incesto entre dois irmãos, seu abandono e a criação por uma avó, que já morreu, além de um quadro de epilepsia até aqui nunca tratado, o que levou que carolas de sua cidade considerassem seus ataques como sintoma de possessão demoníaca.
O processo de filmagem levou cerca de 6 anos, período em que o filme foi incorporando as revelações , não sem um grande grau de incerteza. O diretor chegou a ter dúvidas, inclusive, se a obra seria concluída. Mas destaca que nunca teve em mente uma abordagem sensacionalista ou exótica, apesar da singularidade de sua personagem. “Senti-me atraído por ela como se fosse uma árvore. Vi beleza ali. Fui filmar beleza, porque a achava bela. Com certeza, ela é um bicho raro, é única. Tratá-la de outra maneira seria mentir”.
 
De várias maneiras, o documentário mudou a vida de Maria. “Foi o primeiro filme que ela viu na vida e, por causa dele, ela andou pela primeira vez de avião e viu o mar, também pela primeira vez”, conta. Mas foi ela também a primeira a ver o filme, com poder de decisão sobre o seu destino: “Se ela não gostasse, se não fosse alguma forma de reparação a ela, eu não o teria montado”.
 
No processo de filmagem, Maria tirou seus documentos com nome de mulher (Maria Luiza Burgos). Também passou a tratar-se da epilepsia e conseguiu pôr parte das terras onde vive no seu próprio nome. Mas o cineasta observa: “Ela me deu muito mais do que recebeu”.
 
O filme também mudou em parte as reações da comunidade onde Maria vive a ela. “Muitos dos que zombavam dela passaram a aproximar-se e dar-lhe presentes”. No entanto, o documentário não foi exibido em Boavita porque Maria não quis – os que o assistiram, viajaram até outras cidades para isso.

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