"Petra" é o grande vencedor do Cine Ceará

"Diamantino" encerra competição com crítica política anárquica

Neusa Barbosa, de Fortaleza
Fortaleza - Vencedora da Semana da Crítica de Cannes 2018, a sátira Diamantino, do português Gabriel Abrantes e do norte-americano Daniel Schmidt, encerrou nesta sexta (10) a competição do Cine Ceará com uma nota de liberdade criadora e ironia política.
 
Coprodução entre Portugal, França e Brasil (onde tem estreia prevista para janeiro), o filme divide opiniões mas certamente está ancorado na contemporaneidade em sua mistura de gêneros e tons. Constroi, em torno da figura de um famoso jogador de futebol, Diamantino (Carloto Cotta, cópia fiel de Cristiano Ronaldo), uma reflexão zombeteira sobre a vaidade vazia nas redes sociais, o cultivo da celebridade através de causas sociais e o refluxo de um pensamento de direita que vai do sebastianismo ao movimento hipotético por uma saída de Portugal da União Europeia.
 
“Portugal nunca foi pequeno” e “Diga sim à muralha” são alguns dos slogans dessa delirante versão lusitana do “brexit”, que tem como garoto-propaganda justamente o jogador – que, assumidamente desinformado, não percebe a dimensão daquilo em que está metido. Em sua própria vida pessoal também, aliás. Ele é dominado por duas irmãs gêmeas absolutamente megeras (Anabela Moreira e Margarida Moreira), que tomam seu dinheiro e permitem que ele se torne objeto de uma experiência pseudo-científica, comandada pelo próprio governo português, para clonar o maior astro de seu futebol. A clonagem tem por objetivo “evitar que Portugal volte a cair no esquecimento”, perpetuando Diamantinos pelas próximas gerações.
 
Toda esta fábula anárquica é embalada em cenas impagáveis, algumas das quais mostrando a imaginação infantil de Diamantino – que, quando joga, enxerga gigantescos cãezinhos felpudos correndo ao seu lado, envoltos em névoa cor-de-rosa.
 
Refugiada espiã
 
Mas nada simboliza melhor esta ignorância política aliada ao desejo insaciável de celebridade do que a atitude de Diamantino de adotar um refugiado, depois de acolher, em seu iate, alguns náufragos que aportaram a Portugal. Por conta disso, ele acaba adotando Rahim (Cleo Tavares), na verdade, Aisha, uma agente secreta do governo português que deseja infiltrar-se em sua casa para desvendar os caminhos da lavagem de dinheiro promovida pela família do milionário jogador.
 
As investidas da espiã e da cientista maluca que está clonando Diamantino apesar dos efeitos colaterais – como o crescimento de seios – vão moldando um filme que não se detém diante de absolutamente nada para arriscar-se nesta sátira ácida de nosso tempo, temperada na lusitanidade que nos é muito próxima e reconhecível. O verdadeiro Cristiano Ronaldo, ao que se sabe, segundo o produtor brasileiro Daniel Von Hoogstraten, ainda não assistiu ao filme, que será lançado em Portugal em dezembro. O que ele espera quando isso acontecer? “A gente espera que ele veja e se divirta”, diz.
 
A ideia inicial deste filme, que começou a ser idealizado em 2012, não era necessariamente ter um jogador de futebol no centro. “Pensávamos num ícone da cultura pop, não necessariamente um jogador”, esclarece. Mas sempre esteve na mira tratar de temas sociais, políticos e contemporâneos. Com o desenvolvimento do roteiro, a história foi mudando bastante. Inicialmente, ela se passaria 70% no Brasil. Nesta versão final, foi totalmente filmada em Portugal.

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