"Homens que jogam" vence Olhar de Cinema de Curitiba

Documentários são destaque no início do Olhar de Cinema

Neusa Barbosa, de Curitiba
Curitiba – Inaugurando a competição do 7º Olhar de Cinema, o documentário Boa Sorte, coprodução franco-americana dirigida por Ben Russell, retratou de forma muito densa o cotidiano de trabalhadores em duas minas, uma na Sérvia, outra no Suriname.
 
Os dois ambientes, geograficamente distantes e completamente diferentes, são retratados cada um numa das partes do filme, que se constrói mais em cima de imagens do que de palavras. Os trabalhadores são individualizados em precisas inserções, em branco e preto, contrastando com o colorido das outras sequências, que mostram cada um olhando para a câmera e tendo o poder de desligá-la. Eles até respondem a algumas perguntas, falando de sonhos e felicidade - o que evidencia a opacidade de vidas muito, muito duras, em que exercer a própria individualidade e sensibilidade tornar-se quase impossível.
 
Apesar de trabalharem em condições muito diferentes de seus colegas europeus – que vivem praticamente todo o tempo no escuro, no subsolo de uma mina de cobre - em ambiente aberto, com selva por perto e sol, os mineiros do Suriname não têm vida fácil. É visível a diferença de condições técnicas – eles atuam como “formigas”, com equipamentos detonados, extraindo, a custo de muito suor, poucas gramas de ouro de terrenos alagados, usando também as mesmas bateias usadas no período colonial no Brasil. E o que sobra, ao seu redor, é aniquilamento ambiental.
 
Com uma câmera que está em todos os cantos, o documentário induz a empatia de seus espectadores, colocando-os nos mesmos lugares ocupados por estes personagens. E o faz de maneira esteticamente rica, diversificada, envolvente., também contando com a expressão musical destes trabalhadores, um de seus únicos desafogos. Foi um ótimo começo para a competição do festival.
 
Jamaica
Na mostra Novos Olhares, uma atração foi outro documentário, Mãe Preta, de Khalik Allah. Filho de mãe jamaicana, o fotógrafo e cineasta residente em Nova York viaja até esse país, mergulhando numa realidade altamente complexa, que ele incorpora de maneira tão caótica e sensorial quanto o que se apresenta diante de seus olhos. Não capta somente os vestígios da história de sua mãe, Claire, e seu avô – figura carismática e simbólica. Incorpora no tecido do filme diversas imagens de personagens, dissociados de suas falas – que ouvimos em paralelo, mas não cronologicamente, compondo uma montagem que deve fazer mais sentido para dar conta de uma realidade inexplicável segundo a lógica, como deve ser a do país caribenho.
 
Nesse caleidoscópio turbulento composto pelo filme, misturam-se ecos de um passado colonial marcado pela escravidão, a violência, uma super-exploração do corpo e da figura da mulher – nesse sentido, são eloquentes as cenas com prostitutas  e também de um parto – e uma super-imposição religiosa. Esse aspecto de como a religião protestante dos colonizadores se impôs sobre a cultura negra nativa encontra seu paroxismo numa longa reza de uma velha senhora, que se torna difícil de suportar até para o público – mas também dá a medida da violência da dominação cultural nas Américas.
 
Os dois filmes terão nova sessão na programação do festival, que prossegue com várias mostras até o dia 14. Confira no site do Olhar de Cinema

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