"Homens que jogam" vence Olhar de Cinema de Curitiba

Olhar de Cinema distingue a experimentação e a realidade social brasileira

Neusa Barbosa, de Curitiba
Curitiba – Todo ano, o festival Olhares de Cinema destaca em seu Foco a obra de algum diretor fora do radar dos circuitos comerciais e mesmo dos chamados independentes. Em 2017, foi a diretora Anocha Swichakompong. Este ano, trata-se da cineasta e artista experimental norte-americana Janie Geiser, que está em Curitiba.
 
Nesta sexta (8), foi exibido o primeiro programa de seus curtas, intitulado Histórias Secretas. Reunindo seis curtas, quatro dos anos 1990, dois do início dos anos 2000, esses pequenos filmes mesclaram técnicas, texturas, referências distintas, constituindo, como pretendem, experiências únicas para cada espectador, independente do sentido que a diretora quis imprimir. O melhor conselho foi dado pela própria Janie Geiser em sua conversa preliminar com o público – não procurar entender aquilo que iriam ver, o que permitiria que cada espectador impregnasse sua própria experiência das imagens com suas próprias sensações.
 
Por essa característica muito especial, assistir a esses filmes foi como mergulhar num baú de memórias alheias, a ser atravessado com o próprio repertório vivencial e cinematográfico. Há referências muito sugestivas, como desenhos, imagens de figuras femininas, chaves, fragmentos de cenas do cinema mudo, casas de bonecas, figuras de brinquedo, papeis quadriculados usados para gráficos, etc.
 
Depois da sessão, a diretora comentou que nestes seus primeiros filmes – um dedicado à sua mãe, outro ao seu pai, outros a amigos – contêm diversos elementos de sua infância. Um exemplo: esse papel quadriculado e outros objetos pertencem às suas lembranças de seu pai engenheiro, que ela via desenhando em casa. Outra memória é de sua casa de bonecas, que ela imaginou habitada por personagens e sombras como uma imagem desencadeadora de um de seus filmes.
 
Independente do que cada pessoa sentir diante deles, sem dúvida os trabalhos desta realizadora são um exemplo do que a liberdade de criação e imaginação pode produzir. Sua programação no Olhar de Cinema é um convite a ampliar inclusive o conceito de cinema.
 
Gênero, pobreza e cor
Numa outra chave, o documentário baiano Diários de Classe, primeiro longa de Maria Carolina e Igor Souza, em exibição especial, condensou de forma contundente o estado de emergência da questão social, racial e de gênero no País, a partir de três figuras femininas muito especiais, particularmente bem escolhidas.
 
Uma detenta, presa há 5 meses pela posse de uma quantidade mínima de drogas, uma líder comunitária e sindical da categoria das empregadas domésticas e uma adolescente trans, todas negras, simbolizam a falência do Estado brasileiro, de costas para necessidades básicas da maioria de seus cidadãos, que lutam com as armas que podem – e é impressionante a resistência que têm, diante de condições tão desiguais.
 
Por isso mesmo, o documentário é filme para se assistir com nó na garganta, revolta e, ao mesmo tempo, uma admiração comovida por essas mulheres tão diferentes, unidas pelas carências e humanidade em crise e seu grito por existir com dignidade. Um filme muito forte, que terá nova apresentação no festival neste domingo (10), às 18h15, no Espaço Itaú 2.
 
Outras informações sobre essas e outras atrações do festival podem ser conferidas no site Olhar de Cinema

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