"Homens que jogam" vence Olhar de Cinema de Curitiba

O racismo nos EUA e a infância nas Filipinas são temas no festival

Neusa Barbosa, de Curitiba
Curitiba – Um dos títulos mais fortes desta seleção 2018 do Olhar de Cinema é o documentário Você já se perguntou quem atirou?, do norte-americano Travis Wilkerson, integrante da mostra Outros Olhares.
 
Em 90 minutos, Wilkerson consegue compor uma obra extremamente pessoal, já que escava as raízes de um doloroso episódio em sua própria família – o assassinato impune de um homem negro no Alabama, em 1946, por seu bisavô branco – e que evidencia suas conexões com uma determinada mentalidade, ligada a inúmeros outros crimes de motivação racial nos EUA. Por exemplo, o assassinato do ativista (branco) William Moore, em 1963 (imortalizado na canção de Phil Ochs de onde é retirado o sintomático título do filme) e também as inúmeras mortes recentes, igualmente impunes, de cidadãos negros desarmados nas mãos da polícia, como Eric Garner, Trayvon Martin, Sean Bell, Sandra Bland e tantos outros.
 
Wilkerson, que é branco, mostra-se capaz de uma reflexão complexa e contundente nesta investigação da história de seu bisavô, cujos detalhes remetem a uma longa história de abusos relacionados à desigualdade racial nos EUA. O acerto do tom de seu filme está em, apesar do notório engajamento, nunca perder de vista a procura da exatidão dos fatos, remexendo, como um detetive (aliás, ele também contratou um para ajudá-lo), as diversas versões de um fato revoltante, inaceitável – um homem que foi assassinado e um matador que, apesar de inicialmente indiciado, nunca foi sequer processado.
 
Morto sem sepultura
Nesse contexto de uma cultura violenta e racista, ainda não superada – nem nos EUA, nem em outros países, como o Brasil -, as vidas de alguns valem não só muito mais do que as de outros, como essas pessoas destituídas de sua dignidade passam a ser apagadas da memória, da história. Uma das maiores dificuldades do cineasta é localizar onde, afinal, está sepultada a vítima de seu bisavô, ele que jaz num túmulo bem-cuidado, com seu nome. Um ato de respeito que sua vítima não recebeu.
 
A narração em primeira pessoa do diretor é altamente potente, não só como informação (como quando ele insere o conteúdo de cartas trocadas com sua mãe e suas tias) como enquanto emoção perfeitamente compatível com seu relato, que expõe a toxicidade da ideologia latente da dominação branca. Um exemplo mais do que nítido do nível de loucura a que pode chegar essa ideologia é uma das tias do cineasta, uma supremacista branca que luta pela secessão do sul daquele país.
 
Este filme poderoso, muito rico em camadas de interpretação e fruição, será apresentado novamente na programação do festival nesta segunda (11), às 14h30, no Cineplex Batel 5.
 
Aos olhos de uma menina
Na competição de longas, a ficção filipina Ansiosa Tradução, segundo filme da diretora Shireen Seno, revelou-se um atraente retrato intimista do cotidiano de uma garota de oito anos, Yael. Em meados dos anos 1980, a menina passa longas horas sozinha em casa, quando volta da escola, já que sua mãe trabalha até à noite. Seu pai foi para a Arábia Saudita ganhar a vida. A falta desse pai ausente é preenchida por fitas cassete que ele envia com longas confidências para a mulher, que a menina escuta exaustivamente, sem poder compreender ainda todas as nuances do universo adulto.
 
A diretora acerta em sua escolha de fazer um filme mais intuitivo, observacional dessa menina, sem recorrer a muitos diálogos, o que permite aos espectadores compartilhar até imagética e sensorialmente as vivências fluidas de Yael – que vive, assim como sua mãe, as contradições de um país desestruturado, incapaz de oferecer opções de vida aos seus cidadãos (seus tios bem-sucedidos vivem no Japão e só vêm de visita).
 
Algumas sequências, como de um alagamento e as explorações em torno de uma caneta, que se torna objeto do desejo de Yael, são de uma potência visual bastante expressiva. A diretora, mostra aguda sensibilidade numa história de visíveis traços autobiográficos.  

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