"Homens que jogam" vence Olhar de Cinema de Curitiba

Competição em Curitiba reúne filmes da China, Eslovênia e Brasil

Neusa Barbosa, de Curitiba
Curitiba – Três momentos da competição no Olhar de Cinema mostram bem o caráter independente e inovador da curadoria deste festival. O primeiro deles, o filme chinês A Feiticeira Viúva, do estreante Cai Chengjie, vencedor do principal prêmio do Festival de Roterdã.
 
Como bom diretor de primeira viagem, Chengjie explora dualidades, como a alternância do tom realista e fabular, da cor e do branco e preto, para narrar a história de Er Hao (Tian Tian), uma jovem mulher, viúva três vezes, que por conta da morte desses maridos ganhou a fama de feiticeira.
 
Ela mesma luta contra essa imagem até que sua própria sobrevivência passa a depender de que ela de algum modo a incorpore. Esse jogo contém o melhor do filme, que se transforma num road movie por uma China rural, marcada pela pobreza e também por um mosaico de crenças, mitologias e preconceitos, postos a nu especialmente no que concerne a questões de gênero. Temas como estupro e venda de crianças (meninas) saltam dentro do tecido do roteiro como um grito, que o tom poético de muitas passagens não procura encobrir.
 
Imagem masculina
Coprodução esloveno-croata, o documentário experimental Homens que Jogam, de Matjaz Ivanisin, é um dos títulos mais instigantes da programação. Ele começa o filme focalizando alguns tipos de jogos, lutas, rituais, todos eles realizados por homens. Aos poucos, evidencia as emoções envolvidas nessas performances, deixando entrever camadas mais profundas de atividades às vezes aparentemente prosaicas – como o lançamento de queijos, ladeira abaixo, na cidade siciliana de Novara.
 
No meio do filme, o diretor tem uma crise criativa e o filme dá um tranco, que leva a narrativa a outros lugares. E é justamente aí que este trabalho ganha uma sofisticação de linguagem que o torna digno de mais atenção. O espectador só tem a ganhar se se deixar levar por esse jogo.
 
Homens que jogam terá uma nova sessão nesta terça (12), às 18h30, no Cineplex 4.
 
Caleidoscópio nacional
Já o concorrente brasileiro Sol Alegria, de Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira, mostrou-se uma experiência vertiginosa, viajando por diversas estações do cinema brasileiro – Cinema Novo, Cinema Marginal, especialmente – para seguir a pista de uma trupe familiar. Esta família muito especial começa o filme participando de um assassinato político, de um senador/pastor, passando por um convento de freiras altamente anticonvencional – em que uma das madres é interpretada por Everaldo Pontes e que remete a outras referências cinematográficas, como Maus Hábitos, de Pedro Almodóvar.
 
Nessa centrífuga de citações, os diretores visivelmente procuram não perder de vista um tom libertário, explícito em suas cenas de sexo, e que se embebe também de Bertolt Brecht em seus números musicais, ganhando um tempero especial ao incorporar a figura de Batman (como Tavinho Teixeira fez em seu longa anterior Batguano) e um bailarino-toureiro, interpretado por Ney Matogrosso.
 
O filme terá nova sessão na quarta (13), às 19h, no Itaú 1.

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