"Homens que jogam" vence Olhar de Cinema de Curitiba

Documentário uruguaio "Algumas Perguntas" rediscute impunidade militar

Neusa Barbosa, de Curitiba
Curitiba - Na mostra Outros Olhares, o documentário uruguaio-alemão Algumas Perguntas, de Kristina Konrad, colocou questões que aproximam o Uruguai do Brasil, ligadas aos fantasmas mal sepultados da ditadura militar.
 
A diretora alemã, que viveu 8 anos no Uruguai, radiografou um momento muito especial na história daquele país, em 1987, quando um grande movimento pelo fim da impunidade dos militares que haviam participado de torturas e desaparecimentos, garantido pela lei 15.848, incendiou a opinião pública, levando à realização de um plebiscito.  
 
Apesar da longa duração – quatro horas -, o documentário é instigante para quem se interessa pelo tema, dada a grande quantidade de depoimentos muito vívidos, dos dois lados, que são colhidos e confrontados, muitas vezes na rua, face a face. Chama a atenção, aliás, como num momento altamente polarizado, cidadãos contra ou a favor da punição aos militares envolvidos em crimes contra os direitos humanos são capazes de conversar com bastante civilidade, frente a frente nas ruas, diante da câmera da equipe, que trabalhava para a televisão suíça.
 
Alguns dos materiais mais interessantes do filme estão nas propagandas televisivas que procuravam ganhar os eleitores para o lado amarelo (contra a mudança da lei) e verde (a favor da mudança e responsabilização dos militares). Esses momentos lembram outra campanha dramática, esta no Chile, em 1988, em torno da continuidade ou não do ditador Augusto Pinochet, retratada na ficção chilena No, de Pablo Larraín.
 
De todo modo, estas imagens fornecem conteúdo muito rico para uma análise de como a mídia televisiva, sob uma capa de alegada objetividade, insere suas posições fora dos horários de publicidade oficial das duas correntes – como quando escancara sua adesão aos amarelos em letreiros durante jogos de futebol entre os times mais populares do Uruguai. Um tema sob medida para a reflexão dos brasileiros hoje, além da continuidade da impunidade aos crimes de militares durante a ditadura.
 
Algumas Perguntas tem nova sessão na quarta (13), às 14h, no Cineplex 4 Novo Batel.
 
Colonialismo e racismo
Dentro da retrospectiva que traz os principais títulos do documentarista francês Jean Rouch, A Pirâmide Humana (1959) colocou em cena um instigante dispositivo, em que estudantes brancos e negros na Costa do Marfim criam uma narrativa diante das câmeras, que permite enfocar temas como o racismo e as distâncias colocadas entre franceses e seus descendentes e os habitantes nativos da antiga colônia francesa.
 
É o tipo do trabalho que tem o seu encanto próprio - um certo ar de Nouvelle Vague -, apesar da distância da época, e que fornece, igualmente, material para repensar a mudança de valores e conceitos em torno do olhar de quem realiza um filme. Isso tudo está em questão dentro do próprio festival, que coloca lado a lado trabalhos de Rouch e do senegalês Djibril Diop Mambéty – como acontece nesta tarde de terça (12), quando serão exibidos na mesma sessão os médias Os mestres loucos, de Rouch, e Le Franc, de Mambéty.

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