Palma de Ouro vai para o Japão precário de Hirokazu Kore-eda

Os velhos leões ainda rugem na Croisette

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes – Segunda-feira decisiva em Cannes, que começa sua última semana. Com metade dos concorrentes à Palma de Ouro exibidos, alguns grandes nomes mostram que suas garras continuam afiadas, arriscando-se em algumas direções.
 
Este foi o caso do iraniano Jafar Panahi que, apesar das restrições judiciais – ele não pode viajar para o exterior e, teoricamente, nem filmar -, continua criando e compôs um filme muito interessante em Se Rokh/Trois Visages – literalmente, “três rostos”. No caso, são faces femininas – o cinema de Panahi mostra-se, mais uma vez, intensamente interessado nas mulheres. E suas explorações em torno da própria linguagem cinematográfica revelam-se bem mais atraentes do que as do veterano Jean-Luc Godard – que se repetiu, mais uma vez, em Le Livre d’Image, embora o recado antiguerra seja, infelizmente, relevante.
 
As três mulheres – todas usando seus próprios nomes - são uma famosa atriz de TV, Behnaz Jafari, que recebe um vídeo pela internet, retratando o suposto suicídio de uma garota, Marziyeh Rezae, que se queixa de a ter insistentemente procurado e não recebido resposta. Marziyeh, segundo conta, queria a intercessão de Behnaz para que sua família lhe permitisse estudar fora de sua aldeia, ela que sonha em tornar-se atriz, mais do que tudo. Começa aí a interrogação da própria história, sobre os limites entre realidade e encenação, que são tão caros ao cinema iraniano em particular e à arte cinematográfica como um todo.
 
Rosto oculto
Como em seus fimes mais recentes (Isto não é um filme, Táxi em Teerã), depois da perseguição política, o próprio Jafar Panahi aparece como personagem, ajudando a amiga Behnaz a investigar se é verdadeira ou falsa a história de Marzieyeh e seu vídeo. Esta viagem permite a Panahi retratar um pouco o interior mais profundo de uma zona rural na fronteira com a Turquia, que expõe as contradições de uma cultura machista e esconde ali o terceiro rosto da história – a de uma atriz de outros tempos, malvista na comunidade, que é um “mau exemplo” para meninas que buscam maior independência e de quem não veremos, propriamente, o rosto.
 
É neste jogo do que conta e do que esconde, do que sugere e do que nega em seguida, do que segue e deixa de lado que a narrativa constrói sua sedução. Com roteiro assinado pelo próprio Jafar e Nader Saeivar, Trois Visages reproduz, em escala minimalista, o encanto de Sherazade compactado não em 1001 noites, mas numa enxuta e densa 1 hora e 40 minutos.
 
Família clandestina
Outro concorrente à Palma de Ouro, o consagrado japonês Hirokazu Kore-eda, voltou mais uma vez à família, tema recorrente de seus filmes, focalizando um clã altamente anticonvencional em Manbiki Kazoku/Un affaire de famille/Shoplifters. O título em inglês remete a ladrões que furtam discretamente em lojas e supermercados e é exatamente essa a atividade a que recorre a família central para completar uma sobrevivência mais do que precária.
 
Muita gente fora do Japão pode não imaginar que exista ali tamanha promiscuidade e pobreza como a sofrida por Osamu (Lily Franky), um trabalhador precário em construção civil, que vive com a mulher (Sakura Ando), funcionária de uma lavanderia, na casa da avó dela (Kirin Kiki). O casal tem um filho (Sosuke Ikematsu) e acaba adotando informalmente uma menina de cinco anos, que encontram quase morrendo de fome e frio do lado de fora de uma casa.
Evidentemente, o foco está igualmente nesta precarização, em que os trabalhadores trabalham menos horas, recebem menos e têm menos direitos, como acesso a indenizações no caso de acidentes. Neste sentido e também na maneira como retrata seus personagens, fica muito claro que Kore-eda quer mostrar quem são, o que fazem, como se relacionam, seus afetos e emoções, antes de julgá-los pela transgressão às leis que praticam diariamente – como usar as crianças para furtar em lojas.
 
Alguns dos traços admiráveis do cineasta japonês estão presentes aqui, como a capacidade de dirigir crianças – como visto anteriormente em Ninguém Pode Saber, por exemplo. A naturalidade que flui de sua interpretação e do núcleo familiar humanizam os personagens, especialmente os adultos, mesmo diante de revelações não muito edificantes que oportunamente surgem a seu respeito. Há todo um jogo de verdades e mentiras em curso, mas Kore-eda é profundo o bastante para contrapor esse mundo ilegal e improvisado da família com o que as instituições do Estado têm a oferecer e que, evidentemente, deixam muito a desejar, mesmo num país alegadamente desenvolvido.
 
A outra grande qualidade de Kore-eda é deixar fluir as emoções de uma história intimista sem transbordar para a pieguice jamais. Uma contenção com a qual muitos diretores teriam a aprender.
 
Musical fora do tempo
Num festival que, mais uma vez, ostenta uma reduzidíssima presença brasileira, não se poderia deixar de registrar a passagem de Cacá Diegues, um dos nomes fundamentais do Cinema Novo que frequentou a Croisette em competição pelo menos três vezes, nos anos 1980 (Bye Bye Brasil, Quilombo e Um trem para as estrelas), fora outras passagens em mostras paralelas e júri (Caméra d’Or, 2012). Desta vez, ele veio fora de competição, com seu drama musical O Grande Circo Místico, coprodução com Portugal e França concluída em 2015.
 
O roteiro, do próprio Cacá e George Moura, expande um poema de Jorge de Lima, e acompanha várias gerações de uma família circense, a partir de 1910. Amparado nas belíssimas músicas de Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo para o musical homônimo dos anos 1980, o filme ostenta visível ambição técnica e visual para materializar sonhos. Uma das características mais evidentes deste registro em busca do fantástico é o personagem de Celavi (Jesuíta Barbosa), mestre de cerimônias do circo que acompanha as diversas gerações ao longo do tempo sem envelhecer – e é uma das presenças mais carismáticas da história, como alívio cômico e tudo o mais.
 
Nem tudo o mais funciona tão bem. A narrativa de Cacá é, assumidamente, uma corrida em faixa própria, fiel apenas àquilo em que o cineasta acredita, sem dar bola para a torcida, como se diria popularmente. O perigo, nisso tudo, é não conseguir encantar o público na mesma medida, ainda mais que as sensibilidades modernas para a figura feminina e o sexo podem não sentir-se à vontade nesta visão. As cenas de sexo, por exemplo – fora a primeira (um tanto voyeur), as demais são todas situações em que as mulheres não estão à vontade ou são forçadas mesmo. Em contraponto, a sequência em que duas moças “voam” nuas – um trabalho de efeitos especiais – funciona, com um pouco mais da leveza que faltou em outros momentos, apesar de uma visão um tanto datada de erotismo.

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