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Spike Lee sacode Cannes com seu "BlackkKlansman"

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes - Spike Lee caiu como uma bomba criativa, no melhor sentido, na competição cannoise com seu esperado BlacKkKlansman, uma história extraordinária, incrivelmente inspirada em fatos reais e retratada com toda garra, estilo, contundência e engajamento pelo diretor de Faça a Coisa Certa, Malcolm X e outros petardos.
 
Baseado no livro do policial Ron Stallworth, o enredo deflagra a incrível história do próprio, o primeiro tira afro-americano de um departamento em Colorado Springs que bolou, nos anos 1970, uma ousada infiltração em nada menos do que a proscrita, mas nunca extinta, Ku Klux Klan. Falando por telefone com sua seção local, Ron (John David Washington, filho de Denzel Washington) convence esse ninho do extremismo branco, que odeia negros e judeus na mesma medida, de que ele é um deles – usando todo aquele vocabulário intolerante e odioso que faz a turma do capuz branco sentir-se em casa.
 
Evidentemente, Ron, um negro de cabelão afro, nunca poderia comparecer pessoalmente às reuniões do Klan para tornar-se um novo sócio. A saída é infiltrar um colega branco e que, por coincidência, é judeu, Flip (Adam Driver). Parece mentira mas aconteceu – a vida é sempre mais louca do que a ficção.
 
Imagens reais
Em muitos sentidos, BlacKkKlansman é uma declaração de guerra contra a América trumpista atual, evidentemente um fruto de tudo aquilo que o filme retrata e que renasceu agora, numa versão ainda pior. Até alguns personagens são os mesmos, no caso, David Duke (Topher Grace), que já era líder do Klan naqueles dias e continua por aí – não por acaso, apoiando Donald Trump (que também vai aparecer no final).
 
Lee está em grande forma aqui, compondo um filme que lança mão de tudo, imagens reais, antigas e recentes – como os conflitos de 2017 em Charlotteville -, uma participação de Alec Baldwin bem no começo, encarnando um político de extremíssima direita (ele que interpreta Trump no humorístico Saturday Night Live), trechos de filmes como O Nascimento de uma Nação e ...E o Vento Levou (imagine-se para que comentários). Além disso, ao longo da narrativa, alterna suspense (muitas vezes você se pega com o coração na boca pelo perigo que correm os dois policiais infiltrados no ninho da serpente) e, curiosamente, bastante humor. Humor na medida certa, onde cabe. A mão de Lee está muito, muito boa aqui.
 
Enfim, é um filmão, que pode ambicionar uma Palma de Ouro sem pedir licença a ninguém. O que não significa ignorar que ele é polêmico em vários aspectos ao retratar aquele momento em que a América se polarizava, de um lado, pelo poder branco e, do outro, pelo poder negro, defendido pelos Panteras Negras, e tudo o que aconteceu naquela investigação – que projeta efeitos sobre o atual estado das coisas nos EUA.
 
Retorno do banido
Depois de ser banido do festival sete anos atrás, por infelizes declarações aparentemente nazistas, o bad boy Lars von Trier voltou, fora de competição, com seu mais recente trabalho, The House that Jack Built. Uma história ambiciosa, perversa, com todos os excessos a que ele se dá o direito, em torno da história de um serial killer, Jack (Matt Dillon).
 
São duas horas e meia de sangue e crueldade, não raro gráfica, brotando na tela. Mas não se trata de um serial killer qualquer. Este aqui é engenheiro, culto, gosta de arte e até teoriza sobre as suas “obras” – ou seja, seus crimes – como uma espécie de arte macabra. Também há cenas documentais, mostrando Hitler, Mussollini, Stálin e outros conhecidos ditadores associados a massacres. Não apenas isso: Trier encerra seu filme encenando a sua versão do inferno, onde o guia satânico, Verge, é interpretado por ninguém menos do que Bruno Ganz, o anjo inefável de Asas do Desejo, de Wim Wenders, 31 anos atrás. Talvez a melhor coisa do filme.
 
Enfim, nada mais se diga, a não ser que von Trier estrutura sua história em torno de cinco “incidentes”, ou seja, assassinatos crueis. Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofue Grábal e Riley Keough também estão no elenco – imagine-se em que papel.
 
Romance japonês
Outro concorrente japonês à Palma, Netemo Sametemo (Asako I & II), de Ryusuke Hamaguchi, enveredou pelo romance, mas acabou perdendo a mão pelo caminho, especialmente no desenho da personagem feminina, Asako (Erika Karata).
 
A moça se apaixona por Baku (Masahiro Higashide), um tipo um tanto exótico e que suas amigas prevêem que a fará sofrer. Dito e feito. Um dia, Baku some no mundo, deixando Asako de coração partido. Ela se muda de Osaka para Tóquio, procurando renovar suas relações.
 
Um dia, ela encontra um rapaz, que é idêntico a Baku, o que a deixa confusa. Na verdade, ele é apenas um sósia, Ryohei (o mesmo Higashide), mas que se comporta de modo inteiramente diverso. Ele é certinho, tranquilo, carinhoso, atento. Enfim, é como se fossem duas faces do “mesmo” homem, o que faz um jogo interessante com as expectativas de uma mulher.
 
Já quando acontece uma virada na história, o filme meio que desmorona. Há visivelmente uma procura de leveza, tal como nos filmes do sul-coreano Hang Song-soo, mas Hamaguchi parece não ter dado conta. O resultado é um tanto decepcionante.

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