Palma de Ouro vai para o Japão precário de Hirokazu Kore-eda

Sul-coreano "Burning" e italiano "Dogman" medem forças na competição

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes – Já na reta final, dois concorrentes à Palma de Ouro mediram forças entre a noite de quarta (16) e a manhã de quinta (17): o sul-coreano Burning, de Lee Chang-dong, e o italiano Dogman, de Matteo Garrone (vencedor de dois Grandes Prêmios do Júri aqui, por Gomorra, em 2008, e Reality, em 2012). A precisão e concisão dos dois títulos, aliás, são a primeira pista de que se tratam de dois trabalhos intensamente focados e cujos diretores sabem perfeitamente o que querem dizer.
 
Adaptando obra do escritor japonês Haruki Murakami, Chang-dong (diretor de Poesia, prêmio de melhor roteiro em Cannes há oito anos), explora muitos gêneros numa história cativante, em torno de um trio de jovens: a moça Haemi (Jun Jong-seo) e dois homens, o rico Ben (Steven Yeun) e o desempregado Jongsu (Yoo Ah-in). Não se trata de um mero triângulo amoroso e sim de um jogo de aparências, de verdades e mentiras, exercido nos mínimos detalhes – inclusive a existência, ou não, de um gato de estimação, cujo cuidado dá início ao próprio relacionamento entre Haemi e Jongsu.
 
Na verdade, os dois se conheceram na infância e se reencontram, anos depois. Depois de uma noitada, ela, que vai viajar à África, pede ao amigo que cuide de seu gato em sua ausência. O fato de que esse gato nunca é visto quando Jongsu vem alimentá-lo dá a largada sobre o que é, afinal, digno de ser acreditado, ou não. Tudo depende dos relatos, das palavras, de como se constrói a versão – e Jongsu é um aspirante a escritor, por isso, morde a isca.
 
Não só por isso. Jongsu é o personagem mais sensível, mais frágil, neste duelo que se forma entre ele e Ben, um jovem rico cuja atividade profissional é misteriosa e cujos relatos são igualmente hipnóticos para Jongsu, num sentido sinistro.
 
Há de tudo aqui – erotismo, suspense, drama, humanismo, comentário político-social – tudo isso construído com ritmo dramático e imagens impactantes, que ficam nos olhos muito depois que o filme acabou. Pode-se até não sentir a passagem das 2 horas e 28 minutos, tamanho é o poder de Chang-dong de colar os olhos dos espectadores na tela, suspendendo sua respiração em torno das vicissitudes de seu frágil herói, Jongsu. O final é poderoso. Mais não se diga.
 
Homem e cães
Marcello (Marcello Fonte), protagonista de Dogman, é literalmente o homem que ama os cachorros, comandando um pequeno pet shop numa periferia decadente. Para completar a renda, ele faz um pouco de tráfico de drogas, o que o torna vítima do valentão local, Simoncino (Edoardo Pesce).
 
Brutal, violento, Simoncino envolve Marcello em seus esquemas, que incluem roubos e agressões e o tornam detestado no local. Só que todos os temem, pela figura enorme e sua disposição permanente de partir para a pancada. Miúdo, pacífico, apaixonado pelos cães, Marcello não tem como furtar-se a fazer-lhe favores.
 
Mas um dia isso acaba custando caro a Marcello, não só por envolvê-lo com a polícia como por expô-lo à perda de todos os seus laços com a pequena comunidade a que pertence. O ator encarna com uma verdade extraordinária esse homem comum exposto a toda espécie de intempéries, sem ter anjo protetor ao seu lado. Seu rosto enche a tela e não há como não ter empatia por esse pequeno herói anônimo, cujas únicas alegrias são os cães e sua pequena filha (Alida Baldari Calabria), numa Itália em que não se pode contar com o respaldo de nenhuma instituição.
 
Réquiem para uma estrela
Fora da competição, o documentário Whitney, de Kevin MacDonald (O último rei da Escócia) impactou pela profundidade da abordagem da ascensão e queda da cantora Whitney Houston (1963-2012), além de revelações como a de que a estrela teria sofrido abuso sexual na infância por parte da prima, a também cantora Dee Dee Warwick (irmã de Dionne Warwick).
 
Apesar desta e outras revelações, dando conta da espiral de decadência, devido ao abuso de drogas que a levou à morte, o filme não tem uma vocação sensacionalista. Bem pelo contrário. MacDonald é sóbrio o quanto é possível no tratamento deste material, mas também não se furta a perguntas incômodas a pessoas próximas da estrela, como seus irmãos e seu ex-marido, Bobby Brown.
 
Há muitos vídeos pessoais de Whitney, imagens provavelmente nunca vistas antes, feitas por Robyn Crawford, sua ex-assistente pessoal e, dizem, namorada, e também pessoas ligadas à sua gravadora. Imagens que só comprovam o quanto ela era carismática, talentosa, bonita, inteligente mas tragicamente frágil demais para lidar com seus demônios pessoais – muitos deles, membros de sua própria família, como seu pai e irmãos.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança