Palma de Ouro vai para o Japão precário de Hirokazu Kore-eda

Cannes 2018: Um festival de olho no feminino e sem Netflix

Neusa Barbosa, de Cannes

Num ano marcado pelos movimentos Time’s Up e #Me Too, contra o assédio sexual, e a indicação da atriz australiana Cate Blanchett como presidente do júri principal, o Festival de Cannes 2018 não trouxe, no entanto, uma presença feminina tão expressiva na lista final da Seleção Oficial, especialmente na competição (que vale Palma de Ouro). Nas seções paralelas, no entanto, o peso das mulheres foi maior, caso do Un Certain Regard (8 entre 18) e especialmente na Semana da Crítica, onde, dos sete longas em competição, quatro têm assinatura feminina. Já na Quinzena dos Realizadores, somente cinco dos vinte longas em concurso são de mulheres – o que representa uma queda de 10% em relação a 2016.
 
Em todo caso, o time feminino da competição inclui três nomes fortes – num total de vinte e um concorrentes. Duas delas têm notável experiência: a libanesa Nadine Labaki, com o drama político Capernaum (foto ao lado), e a italiana Alice Rohrwacher, com Lazzaro Felice, outro drama que traz no elenco a irmã da diretora, Alba Rohrwacher, Nicoletta Braschi e o catalão Sergí López. A terceira é a francesa Eva Husson, com Les Filles du Soleil, estrelado pela iraniana Golshifteh Farahani e a francesa Emmanuelle Bercot.
 
Esse trio terá pela frente pesos-pesados como o veteraníssimo Jean-Luc Godard, com Le Livre d’Image; o italiano Matteo Garrone, com Dogman (foto ao lado); o chinês Jia Zhang-ke, com Ash is Purest White; o japonês Hirokazu Kore-eda, com Shoplifters; o norte-americano Spike Lee, com Blackkkklansman; o turco Nuri Bile Ceylan, que já venceu a Palma com Winter Sleep (2014) e volta agora com Ahlat Agaci; e os iranianos Jafar Panahi, com Three Faces, e Asghar Farhadi, com Todos lo saben, filmado na Espanha, com Javier Bardem e Penélope Cruz – e sendo o filme de abertura e também na disputa da Palma.
 
Uma nota preocupante sobre a liberdade do mundo é o fato de que dois dos diretores da competição, o citado Jafar Panahi e o russo Kirill Serebrennikov (diretor do concorrente Leto) estão detidos por razões políticas em seus países e não virão a Cannes. Mais uma vez, este festival, assim como outros, se posiciona em favor de colocar em foco a arbitrariedade que vitima tantos artistas.
 
Numa composição bem mais paritária do que a competição principal, entre os dezoito filmes de Un Certain Regard, a seção paralela mais importante do festival, que outorga premiações próprias, são estes os oito títulos dirigidos ou co-dirigidos por mulheres: o francês Les Chatouilles, de Andréa Bescond e Eric Métayer; Gueule d’Ange, da francesa de origem portuguesa Vanessa Filho; o italiano Euphoria, da também atriz Valeria Golino; Rafiki, de Wanuri Kahiu, o primeiro filme queniano já selecionado em Cannes e que foi censurado em seu país por retratar um romance lésbico por uma chave otimista: Sofia, da marroquina Meryem Benm Barek; Manto, da indiana Nandita Das; Mon tissu preferé, da diretora e atriz síria Gaya Jiji; e Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, uma coprodução luso-brasileira filmada numa aldeia indígena Krahô no Tocantins e assinada pela brasileira Renée Nader Messora e o português João Salaviza.
 
Brasil no festival
O Brasil, mais uma vez, tem presença discreta no festival, com o citado representante na mostra Un Certain Regard – em que há sete anos o país não emplacava representante -; outro longa na Quinzena dos Realizadores, que igualmente não programava um título brasileiro há sete anos e nesta edição terá a coprodução Brasil/Colômbia/Peru Los Silencios (foto ao lado), da diretora brasileira Beatriz Seigner; e dois curtas na mesma Quinzena, O órfão, de Carolina Markowicz, e Skip Day, documentário codirigido pela brasileira Ivete Lucas e o francês Patrick Bresnau. Na Semana da Crítica, o único representante com DNA brasileiro é Diamantino, uma outra coprodução luso-francesa-brasileira, dirigida pelo português Daniel Abrantes e o norte-americano Daniel Schmidt.
 
Outros dois longas brasileiros serão O grande circo místico, de Cacá Diegues, exibido em sessão especial, e o terror Artic, de Joe Penna, atração de uma das sessões à meia-noite. Haverá também uma homenagem nesta volta do veterano Cacá Diegues a um festival em que ele já concorreu três vezes à Palma – Bye, bye Brasil (1980); Quilombo (1984) e Um trem para as estrelas (1987) – e também presidiu o júri do Caméra d’Or (que premia novos diretores) em 2012.
 
Grandes emoções cercam a exibição do anunciado filme de encerramento, previsto para a noite de 19 de maio, The Man who Killed Don Quixote (foto ao lado), de Terry Gilliam, que teve sua suspensão pedida judicialmente pelo produtor Paulo Branco. A decisão da justiça francesa é esperada para 7 de maio, véspera da abertura do festival, na terça (8). Trata-se de mais uma etapa da verdadeira novela que cercou a realização deste filme desde 1998, quando Gilliam manifestou a intenção de fazê-lo, passando por vários roteiros, produtores, doença grave de um ator até ser finalmente concluído em 2017.
 
O caso Netflix
Concluindo um imbróglio iniciado no ano passado, em 2018 a Netflix optou por ficar de fora do festival depois que seu diretor-geral, Thierry Frémaux, confirmou a posição anunciada em 2017, reservando a Seleção Oficial – em que se incluem a competição e Un Certain Regard – somente a filmes que tiverem a previsão de seu primeiro lançamento nos cinemas franceses. A Netflix, como se sabe, não tem esse compromisso, lançando suas produções prioritariamente em seu serviço pago de streaming. No ano passado, na ausência dessa regra, a empresa emplacou dois filmes na competição, Okja, de Bong Jong-ho, e The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach.
 
Este ano, a Netflix poderia ter exibido os cinco títulos que havia programado – incluindo-se aí um último filme de Orson Welles, The Other Side of the Wind, que a empresa restaurou – apenas fora de competição. Mas preferiu não fazê-lo, acirrando a guerra que opõe os conglomerados yankees da internet e a indústria cinematográfica francesa, que tem em Cannes uma de suas maiores vitrines.
 
Bastante protetora do mercado local, a legislação francesa define que uma produção, para ser lançada nas plataformas digitais, deve esperar 36 meses após o lançamento em cinemas. Para o DVD e vídeo on demand, este prazo é quatro meses e, para a TV, dez meses. Fora isso, as empresas estrangeiras teriam também que seguir algumas outras regras referentes ao financiamento da produção local.

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