Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Ai Weiwei expressa seu humanismo sem fronteiras em “Human Flow”

Neusa Barbosa

 Human Flow, o documentário do artista chinês Ai Weiwei que abriu a 41ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo no dia 18 e terá sua última sessão neste sábado (28), começou a ser idealizado em 2015 – pouco antes da detenção de Weiwei na China.
De várias maneiras, o tema dos refugiados, que percorre a obra, é próximo do artista chinês – ele mesmo obrigado a emigrar para a Alemanha, depois que sua prisão na China o deixou temeroso de um “desaparecimento”, privando seu filho Lao, de 8 anos, de sua presença. A preocupação desta possível orfandade, no caso, não é nada teórica, já que o próprio Weiwei teve de crescer sem o pai, o poeta Ai Qing (1910-1966), afastado da família por cerca de 20 anos, num campo de trabalhos forçados, por ser considerado dissidente e contrarrevolucionário, o que contribuiu para sua morte precoce.
 
 A própria chegada de Weiwei ao Brasil sofreu atraso, já que funcionários da companhia norte-americana United Airlines, consideraram erroneamente que seu visto brasileiro não estava mais válido.
Nada disso parece abalar a tranquilidade do artista, de 60 anos, que visitou cerca de 40 campos, em 23 países, reunindo cerca de 900 horas de material cuja edição ainda não foi completada – apenas parte dele pode ser visto em Human Flow, que alinha situações recentes, como a dos sírios e africanos que desembarcam diariamente na Europa, como a situação crônica de deslocamento de outros sírios na Jordânia e de palestinos no Líbano, passando pelo Iraque, Afeganistão e até a fronteira entre o México e os EUA.
Numa concorrida coletiva de imprensa em São Paulo, no dia 19, Weiwei destacou que sua razão para querer tratar deste tema foi sua “curiosidade de saber o que acontece no mundo, onde 65 milhões de pessoas estão deslocadas de suas casas”. Nesse processo, muito do que viu o chocou – especialmente o tratamento dispensado aos refugiados na Europa. “Não há muita ajuda para eles por lá”.
 
 Situações como essa, além de uma onda conservadora que varre o mundo, o levam a ser cético, mas não totalmente desesperançoso. “Há pouca esperança para esses refugiados e as coisas vêm piorando em Mianmar e na África. Os políticos trabalham na direção oposta a uma solução, ainda mais neste momento de ascensão de uma extrema-direita. Por outro lado, se não tivermos tolerância e compaixão, não há futuro. Mesmo que eu não tenha muita esperança, acho que devo acreditar na humanidade. Os indivíduos precisam agir, porque políticos e instituições não se importam”.
Fiel a esse entendimento, o artista defende: “Como não se envolver? Você não pode ajudar a resolver a situação deles, mas às vezes pode cooperar de um ponto de vista individual, dando um sapato, proporcionando um banho de chuveiro. Um destes refugiados, que fala sete línguas, vem trabalhando há sete meses conosco, como tradutor. Mas o nosso principal trabalho é dar voz a quem não tem. Ao fazer isto, você já está envolvido”.
Falando de alguns refugiados que optaram por não mostrar seus rostos, o artista explicou que vários deles temem por suas famílias, que ficaram para trás em situações de risco em seus locais de origem. Mas, em geral, destacou, “eles estão acostumados a serem filmados”. Isso acontece porque, a seu ver, “eles não têm privacidade, ou mesmo identidade. Muitos nem mesmo se reconhecem como refugiados. Eles são como ‘ninguém’ e querem comunicar-se”.
 
Ataque à exposição
Indagado sobre o ataque à exposição Queermuseu em Porto Alegre, Weiwei revelou ter tido conhecimento disso. Para ele esse tipo de violência sinaliza “um momento muito perigoso, em que alguns querem cercear os limites do livre pensamento”. Em sua visita a São Paulo, ele visitou a exposição Histórias da Sexualidade, no MASP, portando um cartaz onde se lia em português “Censura nunca mais” (a exposição é a primeira, em 70 anos, a ser proibida para menores de 18 anos).
Sempre muito ativo nas redes sociais, Weiwei entende que a indignação pelos problemas que afetam o mundo deve encontrar formas de sair delas para a realidade. “É preciso achar uma nova linguagem para produzir mudança social e é um duro caminho encontrá-la. As vozes que se expressam nas mídias sociais não passam de palavras. A mudança tem que ser feita através de ações”.
Foto Weiwei: Mario Miranda Filho/agenciafoto.com.br
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  28/10/17 - 17:15
 
OUTROS DESTAQUES DE SÁBADO
 
 Quando este vento parar
O drama dos tártaros da Crimeia é retratado com muita emoção pela diretora polonesa Aniela Gabryel, em seu primeiro longa documental.  Dando voz a quatro famílias da etnia, que só por serem entrevistadas para a produção podem sofrer represálias por parte da Rússia, ela constrói uma narrativa em que explora o sofrimento de seus personagens.
Para entender o que se passa na tela, é preciso conhecer um pouco de história. Apesar dos grandes êxodos dessa população causados pelas guerras nos séculos XVIII e XIX com a Rússia, foi no final da Segunda Guerra Mundial que Josef Stalin mandou milhares deles para bem longe dali, grande parte para Uzbequistão. Décadas depois, quando começaram a voltar para casa e a se restabelecer, a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, os obriga a uma nova migração.
A diretora não faz questão de ser didática, focalizando sua atenção para a penúria com a qual, aparentemente, os últimos tártaros da Crimeia coabitam com o constante clima de insegurança. "Sofremos em silêncio porque não há ninguém para ouvir", resume um dos entrevistados, mostrando a impotência de não poder mais chamar de sua a própria terra. (Rodrigo Zavala)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 28/10- 14:00
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP   31/10 - 18:00
 
 Grão
O diretor turco Semih Kaplanoglu (ganhador do Leão de Ouro Festival de Berlim de 2010 por Um doce olhar) tenta a mão nessa ficção-científica irregular, mas não destituída de beleza – especialmente visual. Partindo de uma série de versos do Corão, o cineasta faz uma homenagem a Andrei Tarkovsky num filme que flerta claramente com Stalker.
A trama se passa num futuro indefinido, filmada num preto e branco (com fotografia assinada por Giles Nuttgens) e protagonizada pelo alemão Jean-Marc Barr, no papel de um professor que tenta salvar a humanidade de uma distopia que se firma a cada dia. Ele descobre que o fim dos problemas pode esta nas pesquisas de Cemil Akman (Ermin Bravo), um cientista renegado criador da “teoria do caos genético”, que se isolou numa paisagem desolada e ninguém sabe aonde realmente foi parar.
Com ajuda de algumas pessoas, Nuttgens foge da cidade e atravessa uma fronteira altamente vigiada e sai em busca de Akman. Quando finalmente o encontra, não é apenas o protagonista que passa por transformações – o filme também. Abandona o ambiente urbano pelo rural, deixa de ser ficção-científica para se tornar um questionamento filosófico sobre o destino da humanidade.
Carregando no simbolismo – que deve fazer mais sentido ao público oriental do que ao ocidental – Kaplanoglu, que assina o roteiro com Leyla Ipekci, faz de Grão um filme bonito de se ver, mas nem sempre compreensível, tornando um tanto árdua sua jornada de um pouco mais de duas horas. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 28/10/17 - 13:30

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