Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Em “24 Frames”, Ahmad Kiarostami conclui a obra do pai

Alysson Oliveira

  Ahmad Kiarostami não tinha muita experiência com cinema quando seu pai, o grande Abbas Kiarostami, morreu em meados do ano passado. Apenas na juventude trabalhou no set de alguns filmes de cineastas iranianos. Agora, morando em São Francisco, sua profissão envolve criação de softwares de ciências para jovens. Ainda assim, assumiu o projeto 24 Frames que Abbas deixou inacabado, mas praticamente concluído.                                
“Tudo já havia sido filmado, faltava muito pouco para a conclusão do filme, apenas algumas correções e manipulações de imagens e ajustes do som”, disse em entrevista ao Cineweb, em São Paulo, onde participa da 41a Mostra. Ao todo, Abbas trabalhou por cinco anos no filme, enquanto realizava outros, que consiste em 24 “cenas” nas quais as imagens são manipuladas.
O primeiro frame, por exemplo, consiste na imagem do famoso quadro “Caçadores na Neve”, do flamengo Pieter Brueghel. A imagem estática começa a ganhar vida, na tela, aos poucos. “A ideia do meu pai era mostrar antes e depois da pintura, sendo o quadro como conhecemos apenas um frame de um momento contínuo”. Os outros 23 segmentos do filme variam entre imagens de animais, natureza e pessoas – algo que o diretor já havia feito em seu Five, mas é expandido aqui, ganhando um outro significado.
Abbas trabalhou em 40 frames, e deixou 30 prontos quando morreu, e Ahmad, que finalizou o longa, escolheu 24. “Os outros que ficaram de fora não serão lançados. O filme está pronto da forma como foi concebido, e não faz sentido mostrar os outros segmentos”. O longa estreou no Festival de Cannes, em maio passado, no qual recebeu críticas positivas.
 Ahmad conta que o longa está circulando por festivais no mundo. Ele não vai a todos, mas fez questão de vir à Mostra acompanhar a exibição do filme. “Meu pai era muito querido pela Mostra, e ele também amava esse festival e a cidade de São Paulo. Eu vim aqui com ele em 2005, e guardo lembranças muito boas”. Morando nos EUA, enquanto Abbas dividia sem tempo entre o Irã e a França, pai e filho tinham pouco tempo para se encontrar, e festivais de cinema ao redor do mundo se tornaram palco de várias reuniões entre a dupla.
Ahmad conta que tinha 7 anos quando aconteceu a Revolução Iraniana, e o cinema foi banido de seu país por 5 anos. “Só podiam ser vistos filmes nacionais, mas havia um mercado negro de vídeo, que, apesar da baixa qualidade da imagem, nos dava acesso a produções de vários países”.  Ele saiu de seu país 17 anos atrás, e se mudou para a Califórnia.
Atualmente, trabalha na organização das fotografias feitas por Abbas e pretende realizar parcerias com museus pelo mundo para fazer uma exposição. Além disso, em breve começará a trabalha na restauração dos primeiros filmes de seu pai. “Não tínhamos os direitos e só conseguimos agora. Pretendo produzir cópias de alta qualidade que possam circular pelo mundo.”
Foto: Claudio Pedroso/agenciafoto.com.br
 
CINESESC -  31/10/17 - 20:10
INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA - 01/11/17 - 21:50
 
OUTROS DESTAQUES DESTA TERÇA-FEIRA
 
Além
O diretor e roteirista turco Onur Saylak faz sua estreia na direção de longas com Além, sobre traficantes de seres humanos que lucram com a travessia de refugiados sírios para a Europa, utilizando a costa da Turquia. Para os refugiados, que abandonam tudo para tentar a sorte na Europa, a sobrevivência, após a baldeação temporária no litoral turco, nem sempre é garantida. Explorados pelos atravessadores, são alojados em esconderijos em condições degradantes à espera de um novo destino, igualmente perigoso.
O filme explora paralelamente a difícil relação entre um dos chefes do tráfico, Ahad (Ahmet Mümtaz Taylan), que transporta os refugiados em caminhões, e seu filho adolescente, Gaza (Hayat Van Eck), que o ajuda a manter o negócio, limpando o alojamento subterrâneo, preparando sanduíches para os sírios e cuidando da vigilância do local. Gaza quer sair dali e retomar os estudos, após ter sido aprovado em uma prova de seleção para uma escola na capital. Mas o pai não permite e o intimida a ficar com surras violentas.
Com narração econômica, o filme mantém o foco no rapaz e na transformação pela qual passará naquele ambiente opressivo. De um lado acompanha o sofrimento dos refugiados, mas acaba adquirindo uma couraça que o encorajará a enfrentar o pai. Filme forte e denso, Além não deixa de escancarar as feridas abertas pela rede  europeia de traficantes de seres humanos, que explora o drama dos refugiados. (Luiz Vita)
 
PLAYARTE SPLENDOR PAULISTA - 31/10/2017 - 14:00
 
Temporada de caça
Depois de dirigir três curtas, a diretora argentina Natalia Garagiola faz sua estreia em longas com um drama maduro sobre o difícil relacionamento entre pai e filho, tendo como cenário o ambiente primitivo de uma Patagônia nem um pouco acolhedora, mais próxima de estimular uma catarse agressiva em personagens obrigados a conviver nesse ambiente inóspito e gelado.
E Natalia se sai bem ao colocar sua câmara no ambiente masculino de um território de caça, no qual sobrevivência e busca de afeto parecem disputar um rarefeito espaço de convivência. O registro supernaturalista, com a câmara na mão, permite, segundo a diretora, que os detalhes para a compreensão do drama vivido pelo adolescente se imponham de forma gradual.
O protagonista é o jovem Nahuel (Lautaro Bettoni), que se envolve em uma briga violenta durante uma partida de rugby e acaba abandonando a escola e o padrasto, em Buenos Aires, para passar uma temporada com o pai, Ernesto (Germán Palacios) que trabalha em um parque onde é permitida, mas controlada, a caça de cervos. Ernesto é um homem rude, talhado pelo ambiente em que vive, e procura acolher o filho, que repele de forma agressiva qualquer forma de aproximação. No clima inóspito da Patagônia, as razões do ressentimento estão próximas de vir à tona, rompendo a incomunicabilidade de Nahuel .
Como observa a diretora, a luta e o abraço nesse ambiente exclusivamente masculino funcionam como uma dança, e é preciso entender esse movimento para se chegar ao fundo da dor de Nahuel, e indagar se poderá haver a reconciliação entre esses dois homens. Exibido no festival de Veneza de 2017, o drama argentino recebeu o prêmio de público. (Luiz Vita)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 31/10/2017 - 15:50
 
O motorista de táxi
O drama sul-coreano, de Jang Hun, traz à frente do elenco um dos mais conhecidos atores do país, Song Kang-ho, visto em Mr. Vingança e O Expresso do Amanhã. Neste filme, baseado em fatos reais, recriados num tom de alto melodrama, ele é Kim, um motorista de táxi viúvo, que cria sozinho uma filha de 11 anos e experimenta sérias dificuldades financeiras em 1980.
É um momento de grande instabilidade no país, depois da morte de um ditador, num regime de exceção que já dura 18 anos. Por conta disso, protestos estudantis se multiplicam, pedindo mais democracia. O centro nervoso destes protestos é a cidade de Gwangju, no interior, que foi isolada do resto do país por tropas que vigiam suas estradas de acesso, enquanto reprimem violentamente a população.
Chega à Coreia do Sul um jornalista alemão, Peter (Thomas Kretschmann), decidido a romper o bloqueio e verificar in loco os acontecimentos em Gwangju. De olho na bolada que o repórter vai pagar pela viagem, o motorista Kim entra na jogada, sem saber exatamente os riscos da jornada.
Reconstituindo com contundência a violenta repressão ao movimento de Gwangju, o filme dá seu recado libertário ao mesmo tempo que se permite infiltrar um certo humor, eventualmente rocambolesco, nas interações entre Kim e Peter – que só trocam algumas palavras no inglês precário do taxista – e diversos personagens que eles encontram pelo caminho e serão decisivos para que sua empreitada chegue ao fim. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 31/10/17 - 14:00
 
O jovem Karl Marx
O celebrado diretor do documentário Eu não sou seu negro, o haitiano Raoul Peck, volta com um inspirado drama biográfico, sobre os anos de juventude de dois homens que mudaram o mundo: Karl Marx e Friedrich Engels. No roteiro, assinado por Peck e Pascal Bonitzer, Marx (August Diehl) é um jovem de menos de 30 anos, jornalista e polemista, que começa a interessar-se pelos mecanismos que regem a exploração do homem pelo homem. Mas é pobre, casado com uma mulher nobre que abandonou seu clã por amor, Jenny (Vicky Krieps), e tem que enfrentar os dilemas da sobrevivência, além da perseguição da polícia ao seu ativismo. Num encontro desses que estão destinados a mudar a história do mundo, conhece Engels (Stefan Konarske), herdeiro rebelde de tecelagens que estão, naquele momento, sendo o cenário das jornadas de trabalho análogas à escravidão que caracterizaram a Revolução Industrial, em meados dos anos 1840.
Dessa amizade inusitada entre dois homens de origens muito diferentes nasce uma parceria intelectual ativa, que os levará ao encontro de outros socialistas da época, como o francês Proudhon (Olivier Gourmet), um dos muitos aos quais eles abraçarão, para depois superar, em livros como A Sagrada Família e, depois, o incontornável O capital, obra máxima de Marx.
Um ponto positivo do filme é conseguir equilibrar as complexas discussões teóricas que incendiaram o século 19 com os aspectos pessoais de cada um destes personagens cruciais, o que só valoriza o esforço de cada um para superar os limites de sua época e contextos familiares. Outro aspecto singular é enfatizar a participação de Jenny, a mulher de Marx, como uma parceira intelectual que contribuiu para alargar seus horizontes e apoiá-lo em sua trajetória. Não, a sra. Marx não era uma mera “grande mulher atrás de um grande homem”.
E, para quem sentir que o filme está aquém do anterior de Peck, o contundente Eu não sou seu negro, basta pensar o quanto O jovem Karl Marx reflete o momento atual de crises econômicas e sociais. Só faltam os novos Marx e Engels. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  31/10/17 - 21:00
 
Cadeiras Brancas
Mat (Matthew Joils) e Emily (Emily Hurley) são dois jovens de Christchurch, Nova Zelândia, que divagam sobre seu isolamento social e perda de perspectivas, nesta produção do cineasta iraniano Reza Dormishian (de Eu Não Estou Com Raiva e Lanturi). Usando um encadeamento linear de fotos com vozes em off, em vez de uma filmagem padrão, o diretor e roteirista faz um filme experimental bastante sensível a partir de ficção, mas não muito longe do real. 
A vida de seus personagens entraram em pausa, traumatizados pelos terremotos de 2011 em Canterbury, que deixaram 186 mortos na Chistchurch e metade da cidade em ruínas. Cinco anos depois, Mat, que perdeu os pais, e Emily, que perdeu a mãe (e o pai, obrigado a migrar para França), acabam se conhecendo no memorial às vítimas, as 186 cadeiras brancas, nas quais sentam-se para sentirem-se próximos aos seus familiares perdidos.
Mesmo com um início de relacionamento, ambos são incapazes de se comunicar com o outro. O espectador sabe apenas o que pensam, graças às falas em off. E nesse sentido, Dormishian amplia sua mensagem sobre conexão humana e, desta, com a natureza. Nesse sentido, chega até mesmo a incluir críticas a atentados terroristas, atacando o Estado Islâmico, ao mostrar o final trágico do pai de Emily em Paris.
Produto de uma bolsa de estudos da Universidade de Canterbury, que recebeu pelo prêmio Vincent Ward para diretores visionários, durante o Festival Internacional de Cinema de Xangai, quando projetou Eu Não Estou com Raiva, a produção faz sua estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. (Rodrigo Zavala
 
CIRCUITO SPCINE OLIDO 31/10 - 17:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -  01/11 - 13:30
 
Ana, meu amor
Diretor que venceu o Urso de Ouro pelo filme Instinto Materno (2013), o romeno Calin Peter Netzer debruça-se sobre outra trama complexa tendo uma mulher ao centro – desta vez, a jovem estudante de literatura Ana (Diana Cavallioti). Com um rosto expressivo, que lembra a jovem Julie Christie, só que de cabelos pretos, a atriz domina boa parte do filme, que é uma espécie de Cenas de um Casamento à romena. Ela é filtrada, porém, pela visão de Toma (Mircea Postelnicu), seu namorado, depois marido, por cuja vida ela passa como um turbilhão, desde a faculdade, onde se conhecem e nasce sua paixão.
As respectivas famílias dos dois entram em foco, ambas disfuncionais e marcando de traumas e neuroses o jovem casal, à volta com crises depressivas de Ana, dificuldades profissionais e financeiras, desejos, lutas, frustrações.
A câmera gira nervosa em torno destes dois seres instáveis, alternando-se o tempo da história em fragmentos de várias épocas, registrando o esforço de Toma de compreender aquilo que se passou com ele – recorrendo, em algum momento, à confissão com um religioso ortodoxo, em outra, com um psicanalista.
Como no cinema romeno em geral, o foco em relações familiares deixa filtrar muitos aspectos de uma sociedade latina bastante diferente da nossa, em história e influências, mas onde se pode detetar, igualmente, vários pontos de contato. De muitas formas, é um filme intrigante, inquietante, cuja clareza de narrativa escapa a cada momento que se pensa ter apreendido todo o sentido. O que é resultado, também, da montagem caleidoscópica de Dana Bunescu, premiada como Melhor Contribuição Artística no mais recente Festival de Berlim (Neusa Barbosa)
 
PLAYARTE SPLENDOR PAULISTA – 31/10/2017 – 19:30
 
1945
Em 1945, o húngaro Ferenc Török cria uma espécie de fábula sombria sobre o imediato pós-guerra no seu país, investigando o legado moral e ético em uma pequena aldeia. É 12 de agosto do ano-título e toda uma comunidade se prepara para um casamento, mas a chegada de dois judeus ortodoxos causa desconfiança e ameaça o clima festivo. Eles se tornam catalisadores da assustadora necessidade daqueles moradores de revisitar o passado recente – não apenas local, mas do país, de toda a Europa.
Arpad (Bence Tasnádi) está prestes a se casar com a bela camponesa Kisrózsi (Dóra Sztarenki). Ela, por sua vez, está fazendo mais um negócio do que uma união amorosa. Há pouco tempo, abandonou outro noivo, Jancsi (Tamás Szabó Kimmel), para investir num casamento que lhe traria ascensão social, mas nem por isso esqueceu a antiga paixão. Uma tensão está no ar e coloca a cerimônia em xeque.
Os dois homens, um pai, Hermann Sámuel (Iván Angelus), e seu filho (Marcell Nagy), carregam duas caixas. Ninguém sabem quem são eles e todos ficam curiosos para saber o que trazem. Seriam amigos ou parentes dos judeus que moravam naquele vilarejo? Ou, então, vieram para expulsar as pessoas das casas e propriedades que ocuparam indevidamente quando os judeus foram levados? Os moradores entram em pânico, porque fantasmas do passado ainda os assombram.
O futuro também lhes trará mais fantasmas com os quais lidar – mas disso, é claro, ainda não sabem. O filme capta um momento de transição quando estão no local tanto as tropas nazistas residuais e soldados soviéticos libertando a cidade. O comunismo, porém, ainda está longe de chegar. Os moradores tentam retomar suas vidas.
A ordem, apesar da apreensão com a presença dos dois forasteiros, é continuar com os preparativos para o casamento. Cada personagem reage de uma forma à chegada da dupla. O bêbado local (Jozsef Szarvas), tomado por um grande sentimento de culpa, quer entregar tudo de volta. Sua mulher (Agi Szirtes), no entanto, prefere esconder as coisas – só por garantia. Não quer abrir mão dos tapetes e pratarias. “Diga que os alemães levaram, se alguém perguntar”, avisa.
O roteiro, assinado pelo diretor Török e o escritor húngaro Gábor T. Szántó, a partir de um conto deste, está mais interessado na construção de um narrador coletivo do que em especificar cada uma das figuras em seus dramas e psicologias, e, desta forma, cria mais tipos do que personagens propriamente ditos. Mas isso pouco importa, porque o filme está interessado em dinâmicas sociais, e a narrativa se constrói como um coral em que cada pequena trama contribui para um painel maior.
A esmerada fotografia em preto e branco – assinada pelo veterano Elemér Ragályi (A Ilha dos milharais, exibido na Mostra de 2014) – acrescenta um estranhamento à dimensão temporal do filme. Se por um lado a trama parece perdida no tempo (e até no espaço), o título deixa bem claro em que momento se localiza a narrativa – e é aí que mora a fratura essencial da história. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 31/10/17 - 21:45
 
Satã disse dance
O filme polonês talvez seja melhor compreendido se lido como um Christiane F. do século XXI. Escrito e dirigido por  Katarzyna Roslaniec, traz em si alguns elementos do cult alemão dos anos de 1980, agora filtrados pelas sensibilidades do presente. Usando um formato de tela quadrado (1:1) bastante peculiar – não é 3:4 como dos antigos televisores, nem o retângulo horizontal mais comum, como a tela do cinema –, o longa se alinha, nesse quesito, às molduras de redes sociais como Instagram.
A protagonista é Karolina (Magdalena Berus), uma jovem que escreveu um romance juvenil de relativo sucesso sobre as mazelas da juventude de seu país. O longa abre com um aviso, dizendo que o que se verá são fragmentos da vida de uma personagem, que poderiam ser contados em qualquer ordem. Nesse sentido, o esforço do montador Stefan Stabenow está em orquestrar o caos.
O caos imaginado por Katarzyna não é lá muito original, mas diz muito sobre a juventude da Polônia do presente. Vemos Karolina com sua família – um tanto estranha – com seu amante (Tygo Gernandt), um fotógrafo que faz fotos ousadas dela, e um outro amante mais velho (Lukasz Simlat), com quem tem uma relação bem intensa, que beira o doentio. Depois a vemos com a irmã (Lieke Scholman), com quem tem uma relação de amor e ódio pautada por uma constante rivalidade.
O maior problema de Satã disse dance é exatamente esse: contenta-se em apenas mostrar, sem nunca ir a fundo em sua personagem. O resultado fica aquém da proposta, que não deixa de ter potencial como raio-X da Geração Z da Polônia pós-soviética. Talvez esse monte de rótulos tenha ficado na frente da câmera e atrapalhado olhar da diretora, assim, Katarzyna não conseguiu um distanciamento mais crítico. (Alysson Oliveira)
 
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP - 31/10/17 - 15:00
CINESALA - 01/11/17 - 15:45
 
Zama
Nove anos depois de seu A mulher sem cabeça, até hoje inédito em circuito comercial no Brasil, a argentina Lucrecia Martel finalmente conseguiu completar sua adaptação do romance modernista Zama, de seu conterrâneo Antonio Di Benedetto. Os minutos iniciais do filme são, estranhamente, uma verdadeira ode à globalização com os créditos que trazem empresas e nomes de diversas partes do planeta, passando por Pedro Almodóvar, Danny Glover, Gael García Bernal e a brasileira Vânia Catani.
Desde sua primeira exibição mundial no Festival de Veneza, em agosto passado,  Zama dividiu opiniões. Aqueles que esperam algo mais próximo do cinema que caracteriza a obra de Lucrecia até aqui – que também inclui O Pântano e A Menina Santa – deverão se decepcionar. É seu primeiro longa a não trazer uma personagem feminina forte – em cena, além de algumas índias, apenas uma aristocrata interpretada pela catalã Lola Dueñas e uma escrava muda e manca (a brasileira Mariana Nunes).
Don Diego de Zama é interpretado pelo espanhol Daniel Giménez Cacho. Ele é um oficial da coroa espanhola, estacionado na América do Sul, à espera de uma promoção que nunca vem. A cada ano que passa, sua sanidade é consumida e seus atos vão tornando-se ensandecidos.
No que diz respeito à narrativa, Zama faz as obras elípticas da diretora parecerem convencionais. A trama, se é que se pode chamar assim, é propositalmente caótica e lacunar. Anos e anos se passam, personagens entram e saem sem deixar uma impressão mais forte. Nada disso é gratuito. Mas tudo isso já está no romance original. Em sua primeira adaptação literária – até então os roteiros de seus longas eram ideias originais suas –, Lucrecia parece sentir o peso da importância de Di Benedetto em seus ombros. O filme não traz muito de novo em relação à obra original, a diretora parece apenas ilustrar com imagens aquilo que já está nas páginas do livro. Faltou-lhe se apropriar do romance, tomá-lo para si, jogá-lo fora e fazer o seu filme. Algo como, digamos, Francis Ford Coppola fez com o seu Apocalypse Now, originado de O coração das trevas, do polonês Joseph Conrad.
A menção a esse romance sobre a colonização belga no Congo não é gratuita aqui. Zama, de La Martel, toma muito emprestado desta obra em sua construção de uma atmosfera de distopia e enlouquecimento. A certa altura, tal qual o narrador de Conrad e o protagonista de Coppola que saem em busca da mítica figura de Kurtz, Zama procura um personagem cuja captura poderá ser catalisadora de seu sucesso. Ou não.
É louvável que a diretora leve seu filme junto com o personagem na descida do abismo da insanidade. Seu longa é insano tal qual o protagonista. A fotografia do português Ruy Poças (Tabu) contrasta um modo de vida europeu sufocante nos trópicos com a liberdade da natureza e dos nativos que se expandem pela região. Zama cresce exatamente na sua reta final quando o protagonista já não tem mais um pingo de juízo, abandona a colônia e se junta a um bando de renegados – entre eles, o personagem de Matheus Nachtergaele. É quando a diretora parece finalmente se apossar dos personagens, das tramas. Mas aí é tarde, e o filme já está dando seus últimos suspiros. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 31/10/17 - 13:30
 
Beijos de Borboleta
Ganhador do principal prêmio na mostra Geração do Festival de Berlim, que exibe filmes protagonizados por crianças ou adolescentes, o inglês Beijos da Borboleta é um típico exemplar de realismo social do cinema de seu país. Com uma fotografia em preto e branco de alto contraste, assinada por Nick Cooke, o longa também evoca a New Wave inglesa dos anos de 1960, com uma juventude em busca de seu lugar no mundo e de um rumo na vida.
O ponto forte da direção do estreante Rafael Kapelinski é a direção de atores – em especial, seu protagonista Jake (Theo Stevenson, ex-ator mirim que se firma como uma promessa do cinema inglês). O rapaz faz parte de um grupo de garotos da mesma idade e se destaca como o tímido e sensível que, para ganhar um dinheiro, trabalha como babá de uma menina que mora no prédio em frente ao seu, e também sente falta de seu pai que abandonou a família
A chegada de uma nova garota no bairro, Zara (Rosie Day), o leva a pensar que está apaixonado. Não é apenas vontade de perder a virgindade com ela de uma vez, é vontade de a levar para jantar, de a apresentar à sua mãe. Eles moram num conjunto habitacional no sul de Londres, repleto de famílias de classe média a baixa.
Do último andar de seu prédio, Jake consegue ver a janela do apartamento de Zara, observando-a quase que diariamente. Assim, sua paixonite se transforma em algo sério. Ela, por sua vez, não está muito interessada em nada muito formal, quer curtir sua juventude.
Jake, no entanto, tem um segredo que, quando vem à tona, parece um tanto gratuito, mas faz sentido em alguns detalhes. Trabalhando a partir de um roteiro de Greer Ellison, Kapelinski transita entre a comédia e o drama com segurança, esmiuçando o cotidiano melancólico e sem rumo do protagonista e seu grupo de amigos. O que o filme faz nesse movimento é transformar a dinâmica entre presa e predador.
Kapelinski constrói em fogo brando sua trama. O primeiro interesse de Beijos da borboleta é o cotidiano do grupo de garotos. Leva um tempo até o filme se interessar exclusivamente por um deles, e passar a acompanhá-lo. A cada cena, então, se torna menos cômico e mais sombrio. Nessa dinâmica, desvenda um personagem tão complexo quanto humano. (Alysson Oliveira)
 
CINUSP NA ECA - USP -31/10/17 - 16:00
 
Não devore meu coração
Numa pegada que incorpora mais toques realistas do que seus filmes anteriores – A Fuga da Mulher-Gorila e A Alegria, com codireção de Marina Meliande -, Felipe Bragança realizou, em Não devore meu coração uma coprodução entre Brasil, França e Holanda que entrelaça o romance juvenil, o comentário histórico e referências a filmes de gênero, entre o fantástico e a aventura policial de motocicleta.
Já não é de hoje que o diretor procura um cinema assim, multifacetado e cheio de arestas, remetendo a incômodos nas próprias situações a que se refere – e que aqui partem da inspiração livre em contos de Joca Reiners Terron. É, até literalmente, um cinema de fronteira, ambientado numa cidadezinha entre o Paraguai e do Brasil, onde indígenas guaranis enfrentam brasileiros, ainda impregnados dos ressentimentos da malfadada Guerra do Paraguai, em que o Brasil, vitorioso, promoveu um massacre no século 19.
No meio disso, nasce um romance entre o menino Joca (Eduardo Macedo) e a índia Basano (Adeli Benitez), que nada tem de adocicado, até porque a garota resiste ao envolvimento com o garoto, irmão de Fernando (Cauã Reymond), violento agroboy local.
O título poético refere-se à magia inerente a essa cultura indígena, que persiste no fundo da memória, cada vez mais sitiada por uma realidade social inóspita à superação de conflitos, porque não permite o nascimento de nenhuma forma de integração entre essas populações diferentes, em disputa de espaço, território, riqueza, domínio.
Um problema é a articulação de todas essas camadas que a história atinge, que se sobrepõem mais bruscamente do que seria adequado à sua fluência.  (Neusa Barbosa)
 
CINESALA                                31/10/17 - 19:45
 
Quando este vento parar
O drama dos tártaros da Crimeia é retratado com muita emoção pela diretora polonesa Aniela Gabryel, em seu primeiro longa documental.  Dando voz a quatro famílias da etnia, que só por serem entrevistadas para a produção podem sofrer represálias por parte da Rússia, ela constrói uma narrativa em que explora o sofrimento de seus personagens.
Para entender o que se passa na tela, é preciso conhecer um pouco de história. Apesar dos grandes êxodos dessa população causados pelas guerras nos séculos XVIII e XIX com a Rússia, foi no final da Segunda Guerra Mundial que Josef Stalin mandou milhares deles para bem longe dali, grande parte para Uzbequistão. Décadas depois, quando começaram a voltar para casa e a se restabelecer, a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, os obriga a uma nova migração.
A diretora não faz questão de ser didática, focalizando sua atenção para a penúria com a qual, aparentemente, os últimos tártaros da Crimeia coabitam com o constante clima de insegurança. "Sofremos em silêncio porque não há ninguém para ouvir", resume um dos entrevistados, mostrando a impotência de não poder mais chamar de sua a própria terra. (Rodrigo Zavala)
 
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP   31/10 - 18:00
 
Outrage Coda
O grande cineasta japonês Takeshi Kitano encerra a trilogia (Outrage, de 2010, e Beyond Outrage, de 2012, inéditos no Brasil) de Otomo , seu anti-herói e yakuza da velha-guarda, que personifica nas telas, com Outrage Coda. Uma saga que reflete o trabalho deste diretor e entertainer, sobre a guerra de gangues, com muita violência, agilidade e humor.
A história começa na Ilha de Jeju (Coréia do Sul), onde vive agora Otomo, chefiando cassinos e uma rede de prostituição para o chefão Chang (Tokio Kaneda). Quando o yakuza Hanada (Pierre Taki), da família Hanabishi, arranja confusão por lá e ainda manda matar um homem de Otomo. Como uma bola de neve, graças também às reviravoltas do roteiro de Kitano, o que era um problema isolado ganha proporções de guerra entre gangues em Tóquio. E Otomo estará lá para resolver.
Mestre em cenas de ação bastante violentas, Kitano, no entanto, consegue, com muito sucesso, um visual estilizado, com humor e, ao mesmo tempo, impacto dramático. Além disso, povoa a narrativa com as mais diferentes personalidades e tipos, transformados em personagens que complementam esse equilíbrio.
Como terceiro filme, e para quem conhece o trabalho do cineasta, pode parecer que não há um efeito surpresa na produção. Mas no que pode faltar em originalidade, sem dúvida, sobra em engenhosidade e na capacidade de manter uma qualidade inquestionável.  (Rodrigo Zavala)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 31/10  - 13:30
 
Pela janela
Caroline Leone estreia na direção com esse longa que ganhou o prêmio da Crítica na Seção Bright Future (que destaca jovens cineastas promissores) do Festival de Rotterdan, em fevereiro passado, e traz como protagonista Rosália (Magali Biff), uma mulher de mais de 60 anos que precisa repensar sua vida depois de perder o emprego numa fábrica de eletrônicos.
O longa é um road movie, e como tal, o destino pouco importa, a jornada (que se confundirá com a de sua protagonista) é mais forte do que o destino. Rosália cai numa depressão depois de dar metade de sua vida à fábrica de onde foi dispensada sem qualquer cerimonia. Sem rumo e sem ter o que fazer, seu irmão (Cacá Amaral), motorista de uma família rica, irá de carro para a Argentina, onde entregará o veículo para a filha do patrão e voltará de ônibus. Com receio de deixar a irmã solitária, acaba por convencê-la a acompanhá-lo na viagem.
Rosália vê o mundo pela janela do carro. A viagem é longa, mas com alguma beleza, que talvez possa espantar a sua melancolia. Muita árvore, muito asfalto, algumas paradas em hotéis pequenos para passar a noite. Ela e o irmão, Zé, conversam de vez em quando, e a primeira grande parada é nas Cataratas do Iguaçu – uma verdadeira força da natureza, que pode despertar a força adormecida na protagonista.
Caroline, que também assina o roteiro, cria um longa de tramas interiores, impulsionado pelos quilômetros que avançam na estrada. Passam a fronteira e Rosália nem percebe: “É tudo igual!”. É tudo igual, até que deixa de ser. Assim como na vida dela. O filme é contido, em seu tom em suas interpretações, o que gera uma potência quase descomunal.
A diretora sabe extrair a beleza da dureza da vida, que se mostra repleta de possibilidades. Com pouco mais de 35 anos, Caroline é capaz de investigar com precisão a vida interior de uma dupla de personagens com quase o dobro de sua idade. Mas nada disso não funcionaria não fossem as inspiradas interpretações de Magali e Amaral. É na simplicidade aparente de seus personagens que eles encontram um volume ensurdecedor de quem precisa gritar para não explodir – mesmo que esse grito jamais seja verbalizado. (Alysson Oliveira)
 
CINESESC - 31/10/17 - 16:40

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