Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Uma Mostra com o coração cinéfilo

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
 À frente da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo desde 2011, quando morreu seu marido, fundador e diretor do evento Leon Cakoff, Renata Almeida não brinca em serviço.
Este ano, traz a São Paulo, entre 19 de outubro e 1º de novembro, quase 400 filmes, entre longas, curtas, inéditos e retrospectivas – quase 100 a mais do que no ano passado. Diante de um festival gigantesco como esse, ela diz que o que a guia é: “Fazer a Mostra com um coração cinéfilo”.
 
 É claro que, como todo ano, alguns dos grandes destaques são os filmes premiados em festivais de ponta, como Cannes (a Palma de Ouro: The Square (foto ao lado), de Ruben Östlund; e Loveless, de Andrey Zvyagintsev, ganhador do Grande Prêmio do Júri), Berlim (O outro lado da esperança, que deu prêmio de direção a Aki Kaurismaki; Félicité, de Alain Gomis, que levou o Grande Prêmio do Júri; e Ana, Meu amor, que deu à sua montadora, Dana Bunesco, um troféu de contribuição artística), e Veneza (Custódia, prêmio de direção para o estreante Xavier Legrand; Doce País, de Warwick Thornton; e o ganhador do prêmio de roteiro, Três anúncios para um crime, de Martin McDonagh, que também levou o principal prêmio em Toronto).
 
 Um tema com forte presença no festival deste ano é a questão dos refugiados e imigrantes, permitindo uma visão ampla sobre a questão. Desde o longa de abertura, Human Flow – Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir (foto ao lado), do artista chinês Ai Weiwei (autor também da arte da Mostra e que virá a São Paulo), passando pelo documentário Lutando através da noite, de Sylvain L’Espérance, Bem-vindo à Suíça, de Sabine Gisiger, Happy End, de Michael Haneke, Pescadores de corpos, de Michele Penneta, e o próprio O outro lado da esperança.
 
 Neste ano, a belga Agnès Varda será homenageada no festival. Além da exibição de seu mais novo trabalho, Visages, Villages (codirigido pelo fotógrafo e muralista J.R.), está na seleção uma retrospectiva com 10 títulos da cineasta – entre eles seus filmes mais importantes: Cléo das 5 às 7, de 1962, O universo de Jacques Demy (1995), e Os Renegados (1985). A cineasta receberá o troféu Humanidade pelo conjunto de sua obra que destaca valores humanistas e a preocupação social. Outro homenageado será o francês Paul Vecchiali, que virá ao evento para receber o prêmio Leon Cakoff. Ao todo, serão exibidos oito filmes do diretor, inclusive o novo e inédito, Os 7 desertores, e obras raras, como O café de Jules (1988), Mulheres, Mulheres (1974) e O Estrangulador (1970).
 
 O Brasil faz parte da Mostra com 64 produções, contando com apresentações especiais e filmes inéditos na cidade, como é o caso de A moça do calendário (foto ao lado), de Helena Ignez, As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, Construindo pontes, de Heloísa Passos, O Beijo, que marca a estreia de Murilo Benício na direção, Pela Janela, de Carolina Leone, e Vazante, de Daniela Thomas.
 
O Foco Suíça, por sua vez, resgata um clássico do cinema do país, Jonas que terá 25 anos no ano 2000 (1976), e sua continuação, Jonas e Lila, até amanhã (2000), ambos de Alain Tanner. O diretor, aliás, ganha uma retrospectiva no evento, que também exibirá o trabalho da nova geração de cineastas do país, como Alice Schmid (A garota do Lago Änzie), Olga Ballif (Ao Redor de Luisa), Cyril Schäublin (Aqueles que estão bem) e Samuel Chalard (Favela Olímpica), entre outros.
 
 Em que tempo vivemos, que tem sua estreia mundial na Mostra, é um filme coletivo idealizado e produzido pelo cineasta chinês Jia Zhangke, que conta com trabalho de diretores dos países dos BRICS. O Brasil é representado por Walter Salles e tem como tema o desastre em Mariana, em 2015, quando o rompimento de uma barragem destruiu comunidades, deixando mortos e pessoas desabrigadas. A Rússia conta com filme de Alexey Fedorchenko; a Índia, de Madhur Bhandarkar; a China, com um do próprio Jia; e a África do Sul, com título assinado por Jahmil X. T. Qubeka. Todos os curtas têm como tema uma questão sociopolítica que angustia cada um dos países.
 
Até de cineastas que morreram recentemente, ainda são resgatados novos trabalhos. É o caso de 24 Frames, que reúne um trabalho original do iraniano Abbas Kiarostami (1940-2016), realizado nos últimos três anos de sua vida, costurando seu amor pelo cinema e a fotografia; e também do chileno Raul Ruiz (1941-2011), de quem veremos A telenovela errante, um filme deixado inacabado em 1990 pelo cineasta que sua mulher, a montadora Valeria Sarmiento, finalizou, a partir dos apontamentos de um roteiro por ela localizado.

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