Festival de Cannes 2010

Palma de Ouro vai para filme tailandês

Neusa Barbosa
Cannes – No final, deu Tailândia na cabeça – Apichatpong Weerasethakul levou a Palma de Ouro por seu exótico Uncle Boonme who can recall his past lives. Estava na cara que Tim Burton, presidente do júri, ia adorar esta fantasia muito livre, em que vivos e mortos compartilham a mesma mesa e macacos fantasmas são parte da fauna normal do mundo.
 
No agradecimento, Apichatpong foi carinhoso e poético. Disse que queria “beijar todos os membros do júri”,especialmente Tim Burton, que ele admitiu amar. No palco do Grand Théâtre Lumière, Burton apenas sorriu. O diretor tailandês não esqueceu de agradecer também, além dos pais e colaboradores, também “os espíritos e fantasmas que nos permitiram estar aqui”. Diretor de Mal dos Trópicos, vencedor de um Prêmio do Júri em Cannes em 2004 e exibido apenas em mostras e festivais brasileiros, o tailandês nunca teve até agora um filme distribuído comercialmente no Brasil.
 
O cinema oriental ficou ainda com o prêmio de melhor roteiro, dado ao coreano Lee Changdong,que é também o diretor de Poetry – um drama que segue uma avó, confrontada com o comportamento violento do neto adolescente que ela cria,e que encontra num curso de poesia uma forma de expressar seus sentimentos mais intraduzíveis.
 
O Grande Prêmio do Júri, a segunda premiação mais importante, ficou para um dos quatro filmes franceses, provavelmente o mais fraco deles, Des hommes et des dieux, de Xavier Beauvois – que focaliza um tema pertinente, o assassinato de frades franceses, missionários na Argélia, em 1996, mas de uma forma mais preocupada com o politicamente correto do que com um quadro mais profundo da questão.
 
Outro filme francês premiado foi Tournée, do também ator Mathieu Amalric, vencedor do troféu de melhor diretor. Contando com um elenco de atrizes norte-americanas, performers de um tipo de cabaré conhecido como new burlesque, Amalric contou uma história que focaliza os altos e baixos da profissão teatral. Um filme modesto, irregular, comparado com outros da seleção deste ano, mas certamente isento do pecado do excesso de pretensão.
 
Único filme africano da seleção – continente que é uma raridade absoluta em Cannes em toda a sua história, aliás –, o concorrente chadiano A Screaming Man, de Mahamat-Saleh Haroun, levou o Prêmio do Júri. Um filme despojado, que deu conta de seu recado, ao retratar o dilema de um pai, dividido entre as pressões de autoridades para que entregue seu filho como soldado para a guerra civil e a desordem econômica e social do Chade.
 
Atores e porta-vozes
 
Não houve muitas surpresas nas premiações de atuação – exceto a divisão do prêmio masculino entre dois atores, o espanhol Javier Bardem, por Biutiful, drama de Alejandro González Iñárritu, e o italiano Elio Germano, de La Nostra Vita, de Daniele Luchetti. Os dois, aliás, interpretando dois pais que se encarregam integralmente dos filhos, o primeiro pela instabilidade da ex-mulher, o segundo, por causa de sua morte.
 
Nos agradecimentos, que dedicou aos pais, ao diretor do filme e a diversos colaboradores, Bardem mudou do inglês que vinha usando para o espanhol para enunciar um agradecimento muito especial à sua companheira, Penélope Cruz, com quem compartilhou o prêmio. Na plateia, Penélope foi focalizada com uma expressão apaixonada, abraçando a mãe de Javier, a atriz Pilar Bardem.
 
Mais político foi o comentário do italiano Germano, que dedicou sua premiação “à Itália e aos italianos, que fazem de tudo para tornar o país melhor, apesar de seus dirigentes”.
 
Mais longe ainda no engajamento foi a francesa Juliette Binoche, uma esperada vitoriosa do prêmio de melhor atriz, por Copie Conforme, de Abbas Kiarostami, que levantou uma pequena placa onde se lia o nome do cineasta iraniano Jafar Panahi – que está preso no Irã sem acusação formal há quase três meses. “Penso nele especialmente nesta noite. Espero que ele esteja aqui no ano seguinte. Um país necessita de seus artistas”, disse Juliette.
 
Dirigindo-se diretamente a Kiarostami em inglês, ela disse também: “Que alegria, que alegria, que alegria trabalhar com você, Abbas”. Ela agradeceu aos pais, lembrando que a mãe a criou sozinha, mas que tinha perdoado o pai; aos filhos, “que aguentaram as suas ausências”; a “todos os homens que a amaram e suportaram”. Brincando, disse que “acredita no amor” e que “algum dia se casará, apesar de tudo”. O comentário refere-se ao tema do filme Copie Conforme, um criativo retrato das idas e vindas de um encontro amoroso entre uma mulher (Juliette) e um homem (William Shimell).
 
Outros prêmios
 
A Palma de Ouro de curta-metragem (seção em que havia um curta brasileiro, Estação, de Márcia Faria), acabou ficando para um filme francês, Chienne d’histoire, de Serge Avédikian. Um prêmio do júri foi para Micky Bader, de Frieda Kempf (Suécia).  
 
O Caméra d’or, troféu para o diretor de um primeiro filme, ficou para o mexicano Año Bisiesto, de Michael Rowe.

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Comentários:
  • 25/05/2010 - 22h39 - Por Henrique Oi Neusa,
    Vc sabe dizer algo sobre o último filme que passou em Cannes, "A Árvore"? Como o filme foi recebido?
    Ele tem uma sinópse instigante e é da diretora de "Desde que Otar partiu", que é muito bonito.
    Obrigado.


  • 26/05/2010 - 05h06 - Por Neusa Barbosa oi Henrique - o filme "A Árvore" passou no encerramento de Cannes. Gostei muito!! É um outro filme intimista, sensível, sobre uma família que sofre a perda do pai, de repente. A mãe (vivida com muita intensidade por Charlotte Gainsbourg)tenta reconstruir a vida, inclusive a vida amorosa dela mesma, mas tem todas as dificuldades - ela tem quatro filhos pequenos e especialmente uma dessas criaças, garotinha de 8 anos, reclama da manutenção da memória do pai.
    O filme tem distribuidor no Brasil e deve estrear nos próximos meses. Pelo menos, dá para o público brasileiro esperar por isso.
    abs
    Neusa
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