Festival do Rio consagra "As boas maneiras"

Momentos de intimismo, musical e denúncia no Festival do Rio

Neusa Barbosa, do Rio
A terça-feira reserva momentos intimistas, com o drama espanhol Verão 1993 e o romance francês Um segredo em Paris, uma ousada versão musical pop do diretor Bruno Dumont para a infância da heroína Joana D’Arc e uma pungente denúncia dos crimes da ditadura no documentário Pastor Cláudio. Confira:
 
 Verão 1993
Ganhador do Grande Prêmio da mostra Geração e também do prêmio de Melhor Filme de Estreia do Festival de Berlim 2017, este delicado drama familiar catalão delineia com profunda serenidade as mudanças, decorrentes da orfandade, na vida da menina Frida (Laia Artigas), de 6 anos.
O pai e a mãe morreram de complicações decorrentes do HIV e a menina vai morar com os tios (Bruna Cusí e David Verdaguer), que têm uma filha pequena, Anna (Paula Robles). A diretora Carla Simón vai desdobrando as situações com segurança num filme que se vale menos das palavras e mais da linguagem visual – e a garota é um achado, um rosto onde se podem ler todas as emoções mais sutis, capaz de carregar a história que se pretende contar.
É uma crônica da orfandade, da dureza da infância, de um processo de crescimento que foi acelerado drasticamente por um corte abrupto e também das etapas de assimilação de uma nova vida, tanto por parte de Frida quanto de seus novos guardiães e mesma da pequena Ana, que deixa de ser filha única. O grande acerto do filme é conseguir encenar todo esse emaranhado de complicações com ternura, humor, medo e raiva mas sem derramamentos artificiais, deixando que as emoções entrem e saiam de foco naturalmente, como se fosse um documentário. E o talento da diretora para dirigir crianças é realmente o elemento que dá a liga a todo este material.
 
Terça (10), Roxy 2, 13h45
Domingo (15), Reserva Cultural Niteroi 2, 13h30
 
 Um segredo em Paris
O simpático drama romântico francês, que tem uma pitada de suspense, equilibra-se em torno do relacionamento inusitado entre um recluso setentão, Georges (Jean Sorel), e uma jovem interiorana e sonhadora, Mavie (Lolita Chammah, a filha de Isabelle Huppert). Vinda do interior há poucos meses, ela se instalou em Paris no apartamento de uma amiga, Félicia (Virginie Ledoyen). Mas sente-se uma intrusa, ainda mais que a amiga mantém relacionamentos amorosos um tanto intensos. Um pequeno anúncio no café frequentado por Mavie lhe dá uma oportunidade de sair do impasse: Georges, dono de um sebo, oferece o uso de um pequeno apartamento acima do estabelecimento em troca de alguma horas de trabalho por dia.
Mavie muda-se com seu único bem – o gato Jacques, que rouba algumas cenas, diante de um espelho e sobre uma escrivaninha. O que não esperava é que ela e o velho Georges se dessem tão bem, apesar da aparente rabugice dele. A grande sacada do filme da diretora e roteirista Élise Girard, aqui em seu segundo longa de ficção, é desenhar com precisão este quase romance, que encontra um obstáculo no momento da vida em que estes dois se encontraram – com uma enorme diferença de idade funcionando como um muro.
O roteiro, também de Élise Girard com colaboração de Anne-Louise Trividic, explora as possibilidades deste encontro de gerações, abrindo espaço para uma discussão sobre o ativismo em épocas diferentes e também para a participação de outras pessoas – como Roman (Pascal Cervo, de Dois, Rémi, Dois) – e a cidade de Paris, que ocupa várias cenas como um cenário ativo na trajetória destes personagens.
 
Quinta (12), Reserva Cultural Niteroi 2, 15h45
Sexta (13), Roxy 1, 17h.
 
 Jeannette: A Infância de Joana D’Arc
Depois de consagrar-se como um cineasta do despojamento mais extremo, em filmes como A Vida de Jesus e A Humanidade, o francês Bruno Dumont tem se lançado cada vez mais em experiências ousadas, entre o seriado policial de humor negro com crianças (O Pequeno Quinquin), o humor grotesco (Mistério na Costa Chanel) e, agora, o musical de época de fundo religioso. Trata-se de uma adaptação certamente livre de um poema e uma peça teatral do começo do século XX do autor Charles Péguy, que imagina a infância da heroína Joana D’Arc – interpretada, aos 8 anos, por Lise Leplat Prudhomme e, adolescente, por Jeanne Voisin. Recorrendo ao compositor Igorr, a música que se ouve desliza do eletropop ao heavy metal, passando pelo rap (nas falas do tio de Jeanne, interpretado pelo rapper Nicholas Leclaire) e com direito a toques de head banging, tanto de Jeanne nas duas fases quanto da freira madame Gervais, interpretada pelas gêmeas Aline e Elise Charles (que, numa outra cena, aparecem como as Santas Catarina e Margarida numa visão de Jeannette).
Por essa irreverência, que não dispensa seus atores, um elenco amador – esta sim uma marca registrada de Dumont, assim como as filmagens no norte da França – de enunciarem longos e complicados textos nas letras das músicas. O tema das letras, não menos complicado, passa pelos dilemas existenciais, morais, religiosos de Jeanne, obcecada pela libertação da França dos invasores ingleses no século XV, delineando a formação daquela que seria sua líder traída e sacrificada. Por essa combinação ousada de elementos, que requer uma entrega peculiar de seus espectadores, não é um filme simples de atravessar. Mas há quem se divirta com toda essa encenação, embora a mão de Dumont mostre-se um pouco pesada para sustentar toda esta duração.
 
Terça (10), Museu da República, 20h.
Quarta (11), Reserva Cultural Niteroi 2, 16h45.
Sábado (14), Estação Net Ipanema 2, 17h.
 
 Pastor Cláudio
O psicólogo Eduardo Passos coloca-se como o interlocutor deste longo e doloroso diálogo com o ex-policial e assassino a serviço da repressão política, Cláudio Guerra. Trata-se de uma longa conversa, uma verdadeira confissão, relembrando uma formidável sucessão de mortes, torturas e desaparecimentos forçados, além da eliminação de cadáveres (alguns, queimados numa fornalha na propriedade particular de um empresário) testemunhadas ou executadas pelo protagonista na recente ditadura civil-militar de 1964.
É o tipo do filme capaz de revelar – ou lembrar – o sinistro arsenal de violência a serviço do poder de que se valem regimes de exceção. E a serenidade no tom dos participantes da conversa (e Passos revela-se um arguto entrevistador) não ameniza a gravidade dos fatos que expõe. Sem dúvida, o grande enigma é Cláudio Guerra e sua disposição de falar, sentindo-se talvez protegido por sua nova fase religiosa. De todo modo, é um filme poderoso e necessário a um esforço contra o esquecimento dos crimes da ditadura, de quem alguns insensatos dizem sentir-se saudosos.
 
Terça (10), Cinépolis Lagoon 1, 2 e 3, 19h
Quarta (11), Cine Odeon Net Claro, 13h
Quinta (12), Kinoplex São Luiz 1, 19h

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