Festival do Rio consagra "As boas maneiras"

Reta final destaca ativismo anti-AIDS e experimentação

Neusa Barbosa, do Rio
 Nestes últimos dias do Festival, algumas boas atrações são o filme argentino A vendedora de fósforos, que experimenta tons e linguagens, o documentário Ex Libris, sobre a Biblioteca Pública de Nova York, e o premiado drama francês 120 Batimentos por Minuto, que relembra o auge da crise da AIDS, nos anos 1980. 
 
A vendedora de fósforos
Vem do BAFICI, festival de cinema independente de Buenos Aires, este filme instigante de Alejo Moguillansky, que usa o argumento de uma história de Hans Christian Andersen para disparar em várias direções. O conto clássico retratava o drama de uma menina pobre, que morre de frio em Copenhagem na noite de Natal, tentando vender fósforos. O drama inspira um músico veterano alemão, Helmut Lachenmann, a realizar uma ópera iconoclasta, cuja direção cabe a Walter (Walter Jakob). Este quebra a cabeça em busca de uma fórmula criativa de encenação, enquanto sua mulher, Marie (María Villar), só encontra emprego como cuidadora diurna de uma velha pianista (Cleo Moguillansky), uma atividade imprescindível para o sustento do casal e sua filha pequena.
O enredo estrutura-se numa série de incidentes, dentro e fora do teatro Colón, no apartamento da velha pianista e também numa Buenos Aires que se prepara para uma greve geral de transportes. De todo modo, não é um filme linear, nem realista. A graça está em acompanhar as metáforas de inúmeras situações, colocando a imaginação para funcionar diante deste emaranhado de referências – inclusive ao burrinho Balthazar de Robert Bresson em seu filme A Grande Testemunha (1966).
 
Sexta (13), Reserva Cultural Niteroi 2, 13h15
Domingo (15), Kinoplex São Luiz 1, 19h45
Segunda (16), Estação Net Rio 5, 21h.
 
Ex Libris – Biblioteca Pública de Nova York
Documentarista premiado, o norte-americano Frederick Wiseman, especializado no retrato de instituições das mais variadas, de hospitais psiquiátricos ao cabaré parisiense Crazy Horse, volta seu foco aqui a uma impressionante organização, a Biblioteca Pública de Nova York. Percorrendo o interior de suas várias unidades pela cidade, ele flagra rostos de frequentadores, que ali vêm buscar coisas tão diferentes quanto cópias de jornais antigos, alfabetização, orientações em chinês, palestras de escritores, shows de música e uma gama de atividades que normalmente não se associa a uma biblioteca. Wiseman destaca inclusive a fala de uma arquiteta holandesa que discute como o próprio conceito de biblioteca em tempos digitais é totalmente outro – e uma das principais tarefas desta instituição é a inclusão digital.
Ao longo de suas vivazes 3 horas e 17 minutos, o documentário focaliza palestrantes inusitados, como o músico Elvis Costello, e também espia os bastidores de maçantes reuniões de diretoria, em que se discutem as formas de continuidade de financiamento das múltiplas atividades ali. Ao final, tem-se um retrato fascinante de um corpo vivo de cultivo da liberdade e do amor pela cultura para todos sob várias formas.
 
Última sessão: Quarta (18), Estação Net Rio 5, 20h30.
 
120 Batimentos por Minuto
Vencedor do Grande Prêmio do Júri e também do prêmio FIPRESCI no mais recente Festival de Cannes, o drama de Robin Campillo resgata um dos maiores pesadelos dos anos 1980, a epidemia de AIDS. Em meio à indiferença das autoridades e laboratórios, e sua lentidão em oferecer respostas eficazes a uma doença que matava diariamente muitas pessoas – encaradas com preconceito, ainda mais se eram gays, toxicômanos ou prostitutas – levantaram-se os ativistas do Act Up, em sua seção francesa (o original era de Nova York). Promovendo ações espetaculares, invadindo reuniões de autoridades, jogando sangue falso em empresários farmacêuticos e outras atitudes visando chamar a atenção pública, o grupo vive também seus dilemas pessoais. Um dos ativistas, Sean (Nahuel Pérez Biscayart), envolve-se com outro colega, Nathan (Arnaud Valois). A paixão entre os dois materializa dramaticamente o dilema de estar vivo naqueles tempos, ainda mais carregando um vírus para o qual não se tinha qualquer medicação eficiente e as poucas que existiam tinham severos efeitos colaterais.
A história dedica uma boa porção igualmente aos conflitos internos dentro do grupo ativista, liderado por Thibault (Antoine Reinartz), servindo para demonstrar também o quanto foi importante a atuação de grupos como este, certamente inspirador em tempos tão sombrios como o nosso, atolado de causas que se necessita igualmente abraçar.
 
Sexta (13), Reserva Cultural Niteroi 2, 21h15
Sábado (14), Estação Net Botafogo 1, 21h
Domingo (15), Roxy 1, 14h
Domingo (15), Estação Net Ipanema 2, 18h45

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