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Festival de Brasília mostra filmes sobre casais e erotismo

Neusa Barbosa, de Brasília
 Brasília – Dois filmes envolvendo casais dominaram a programação do festival neste domingo (17). Na mostra competitiva, Pendular, de Júlia Murat, e, na mostra paralela Esses Corpos Indóceis, Antes do Fim, de Cristiano Burlan – que reuniu na tela dois mitos, Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet. E, iniciando a mostra 50 anos em 5 Dias, com curadoria da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, o clássico A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, exibido pela primeira vez em sua versão restaurada.
Premiado na mostra Panorama do mais recente Festival de Berlim, Pendular ofereceu uma visão fluida de um romance ocupando um território físico e emocional, desenrolando-se no cenário de um velho galpão de fábrica que passa a ser o estúdio e a moradia do casal formado por uma bailarina (Raquel Karro) e um escultor (Rodrigo Bolzan). Eles pouco se conhecem e a paixão evolui ao mesmo tempo em que eles dividem o espaço de suas atividades profissionais com uma fita vermelha colada no chão, que se torna símbolo de como a intimidade pode ou não ser demarcada por alguma fronteira num relacionamento.
 
 Com uma linguagem que o aproxima de outras artes – não por acaso, sua inspiração inicial veio de uma performance de Marina Abramovic -, Pendular poderá gerar alguma polêmica nestes tempos conservadores pela franqueza de suas cenas de sexo, que terminaram por subir sua classificação etária nos cinemas, onde tem estreia prevista para esta quinta (21), para 18 anos. É, de todas as maneiras, um filme que se equilibra muito nos corpos e se materializa melhor na pele de Raquel Karro, através de sua dança e de um rosto muito expressivo.
As lacunas na história, propositalmente deixadas num filme que se pretende mais sensorial, tornam a proposta mais exigente, solicitando do espectador um envolvimento maior que é um pouco dificultado por uma duração que poderia ser ligeiramente mais enxuta.
Na mesmo programa, o curta da noite foi Inocentes, de Gabriel Soares, que revisita a obra do fotógrafo Alair Gomes (1921-1992), fascinado pelo nu masculino, reencenado um percurso voyeur igualmente com grande franqueza e beleza plástica.
De frente para a morte
Na mostra paralela Esses Corpos Indóceis, foi de se celebrar o encontro na tela entre dois mitos do cinema brasileiro, a atriz Helena Ignez e o crítico-ator Jean-Claude Bernardet, no filme Antes do Fim, de Cristiano Burlan.
Os dois vivem um velho casal, junto há quase 60 anos, cuja cumplicidade vai além das palavras e que agora experimenta um desafio – ele lhe pede ajuda num pacto de suicídio. Embora não esteja doente, ele não quer estender sua vida além deste ponto, em que ainda está lúcido e bem, recusando-se a entrar num processo artificial de longevidade apoiado na indústria médica e farmacêutica.
Dito assim, parece macabro, mas o envolvimento dos dois atores transforma esse ritual de despedida numa convivência tão rica, em que os dois compartilham sua intimidade pelas ruas de São Paulo, compondo uma espécie de cartão postal de sua vida na cidade – especialmente no centro velho, no viaduto do Chá, na zona boêmia dos bares e teatros da Praça Roosevelt, mas também pelas alamedas do cemitério do Araçá. No início do filme, fotos antigas dos dois recontam seu percurso – além da cena de Copacabana mon amour, de Rogério Sganzerla, em que a jovem Helena Ignez diz frase impagável sobre a velhice.
As conversas entre estes dois versam sobre tudo, sentimentos, livros, tudo com uma serenidade que flui de uma abertura diante da vida que os transforma numa espécie de sábios irreverentes, que nunca pretendem levar-se demasiadamente a sério. Fazendo seu contraponto de uma outra geração, Henrique Zanoni e Ana Carolina Marinho participam de sequências muito belas, como aquela que mostra esta dupla num terraço, Helena e Jean-Claude num outro, olhando do alto uma paisagem dos prédios do centro de São Paulo.
 
 Opressão à negritude
Numa outra chave, encerrou a mostra Esses Corpos Indóceis o documentário baiano Diários de Classe, dos estreantes Maria Carolina da Silva e Igor Souza, que visita cursos de alfabetização para adultos na periferia de Salvador e também numa prisão feminina. Nestes cenários, destaca os trajetos de personagens que simbolizam um mecanismo crônico de exclusão, particularmente contra a população pobre e negra.
Uma das personagens, uma mulher acusada de envolvimento com o tráfico, contou no debate após o filme, no Cine Brasília, que sua primeira audiência judicial, após quatro meses de prisão – mesmo sem antecedentes criminais – só aconteceu devido à presença da equipe de filmagem (ela não aconteceria por falta de escolta policial, que acabou sendo providenciada de última hora pelo governo estadual). Outra personagem, que é doméstica, é obrigada a levar diariamente a filha pequena nas aulas noturnas devido ao fechamento, sem solução, de uma creche no bairro onde mora. 

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