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Documentário sobre tropa de choque abre polêmica em Brasília

Neusa Barbosa, de Brasília
 Brasília – Documentário assinado pelo pernambucano Marcelo Pedroso (Brasil S.A., Pacific), Por trás da linha de escudos arriscou-se à polêmica, penetrando no cotidiano do batalhão de choque do Recife.
A narrativa começa no contraponto, mostrando a violenta ação repressiva dessa tropa na recente desocupação da Estelita – região disputada por ocupantes e empreendedores imobiliários na capital pernambucana – e o cotidiano dos soldados, que são vistos falando de seu treinamento e atividades.
Entrando no quartel, o cineasta se coloca, a princípio, entre essas duas instâncias hoje inconciliáveis num Brasil que desaprendeu o diálogo, esse “nós” e “eles” em pé de guerra – afinal, Pedroso mesmo admite aos soldados que esteve do lado de lá, nos protestos da Estelita.
 É possível vislumbrar algumas sequências de significado evidente – como a entrevista do tenente-coronel, comandante do batalhão, jogando um torneio de peteca no dia seguinte ao impeachment de Dilma Rousseff (dia em que o destacamento ficou de prontidão); ou um oficial veterano que mostra olhos lacrimejantes quando lembra do pai que não viveu o suficiente para vê-lo dentro da farda; ou ainda a oficial, ex-bancária, que não esconde a empolgação de quem sente viver uma aventura épica todos os dias, mostrando fotos que postou de seu duro treinamento no facebook.
 
Do outro lado
A polêmica que o filme despertou – e que começou na exibição no Cine Brasília, com vaias e gritos misturados aos aplausos  – veio das escolhas do diretor a partir do momento em que começa a compartilhar sessões de treinamento. Assim, vê-se Pedroso e membros de sua equipe, junto com soldados, sendo submetidos a cargas de gás lacrimogêneo, além de  ensinados a como resistir aos ataques (isso na verdade foi encenado para o filme, porque esse treinamento, para os aspirantes à tropa, acontece em recinto fechado).
Mais problemáticos são os momentos em que o diretor decide empunhar uma das armas no treinamento, disparando duas vezes no alvo montado, que imita o corpo de uma pessoa. Numa outra cena, é visto usando a farda de seus entrevistados – mesma vestimenta de um professor de ioga, vítima da tropa no caso Estelita, numa sequência em que executa seus suaves movimentos todo paramentado (numa montagem paralela, a tropa realiza uma aula de ioga com este professor, ali em seu traje normal).
Parte da plateia interpretou o filme como uma humanização excessiva dos soldados que reprimem com notória violência as manifestações públicas, enxergando ali mesmo uma certa empolgação com esse “outro lado” – como se o diretor tivesse, de certo modo, perdido o distanciamento crítico. Evidentemente, pode-se ter outras interpretações, já que o filme é fluido o bastante para isso e recorre a imagens ficcionais – como uma espécie de coreografia de atores com escudos azuis estrelados, imitando o centro da bandeira brasileira. Talvez o documentário seja mesmo fluido demais, perdendo uma oportunidade preciosa de promover realmente este diálogo entre “nós”, os manifestantes que se engajam em diversas causas nas ruas, e “eles”, os que empunham seus escudos, cassetetes e bombas de efeito moral com violência suficiente para intimidar, ferir ou até matar.
Nas entrevistas no batalhão, o diretor parece um pouco tímido em suas perguntas, embora em pelo menos um momento tenha ido ao ponto, quando indaga um oficial como eles veem as pessoas do outro lado nas manifestações – e que, no dia a dia, entre eles, chamam de “turba”. Na resposta, fica muito claro que os soldados são ensinados a não pensar nisso, estando ali para cumprir uma missão, impor a norma, ainda que esta possa ser, como observa Pedroso, injusta.
 
Curtas
A seção competitiva de curtas apresentou o belíssimo Torre, de Nádia Mangolini (SP), uma animação de extrema delicadeza, que arma com precisão o relato das memórias de quatro irmãos, filhos do preso político, morto pela ditadura militar, Virgílio Gomes dos Santos.
O outro curta da noite, o pernambucano Baunilha, de Leo Tabosa, desafiou os ventos conservadores ao retratar o universo dos praticantes de sadomasoquismo a partir das experiências de um personagem. Acompanhando a equipe do filme, integrantes da comunidade BDSM subriam ao palco do Cine Brasília paramentados com máscaras e justíssimas roupas pretas.
 
 Helena Ignez
Em sessão hors concours ontem à tarde, a atriz e diretora Helena Ignez apresentou seu novo trabalho, o instigante A moça do calendário, um banho de frescor, imaginação e também humor. Partindo de um roteiro de Rogério Sganzerla – seu marido, morto em 2004 –, a cineasta explora o universo de personagens inconformados e sonhadores, a partir do mecânico Inácio (André Guerreiro Lopes).
Filho de um latifundiário, ele estudou em bons colégios mas, depois de romper com este pai, entrou numa vida dura, trabalhando como gari, depois mecânico, embora tenha seus sonhos como bailarino.
Ambientada predominantemente na São Paulo do centro velho, a história elege alguns núcleos, como a oficina mecânica Barato da Pesada, povoada por figuras como o “pré-capitalista” Celso Patrão e um filósofo chamado Grande Otelo; um apartamento onde intelectuais formaram uma comunidade, que eles sabem vigiada pela repressão, de olho numa professora (Naruna Costa) que participou de manifestações contra o fechamento de 94 escolas (qualquer semelhança com a realidade de São Paulo não é mesmo mera coincidência); e um bar, onde vários personagens se cruzam.
Djin Sganzerla interpreta um duplo papel, como uma espécie de musa – a garota do calendário que enfeita a parede da oficina onde trabalha Inácio. Mas não uma musa indolente, e sim questionadora, que assombra os sonhos de Inácio cobrando-o sobre sua posição sobre reforma agrária. Seu outro papel é Iara, moça criada num assentamento de sem-terra.
Como no filme de Cristiano Burlan, Antes do fim, aqui exibido há dias – em que Helena atua -, a diretora refere-se à “sociedade do cansaço”, obra do autor coreano Byung-Chul Han, inserindo-a no contexto de uma história que reflete sobre a super-exploração do tempo dos homens através do trabalho de uma maneira poética, irreverente, sedutora. Nada de se estranhar, vindo de uma artista e mulher tão inteligente que, como ela mesma fez questão de lembrar na apresentação do filme, interpretou a primeira personagem feminista da história do cinema brasileiro, Angela carne e osso, de A mulher de todos, de Sganzerla. 

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