Brasília consagra longa mineiro "Arábia"

Festival de Brasília decola com homenagens, protesto e filme de fronteira

Neusa Barbosa, de Brasília
 Brasília – O 50º. Festival de Brasília começou como se poderia esperar – com homenagens emocionadas – a três diretores/produtores locais que morreram recentemente, Márcio Curi, Manfredo Caldas e Geraldo Moraes e também ao veterano Nelson Pereira dos Santos, que não pôde vir pessoalmente -, um longa inédito no país (Não devore meu coração, de Felipe Bragança, que debutou em Sundance e Berlim) e uma apresentação teatral que homenageou a história do festival, conduzida por um sempre magnético Matheus Nachtergaele que, no final, puxou um “Fora, Temer!” que tomou a plateia lotada do Cine Brasília.
Não faltou a lembrança a Paulo Emílio Salles Gomes, o criador do festival, em 1965, através da exibição do curta Festejo muito pessoal, de Carlos Adriano, que empresta seu nome de um texto deixado inédito pelo professor e crítico, promovendo um mergulho em fragmentos de filmes comentados ou amados por ele, de Mário Peixoto, Humberto Mauro e outros, culminando com uma breve aparição do próprio personagem, numa rara filmagem que documenta seu encontro com o poeta italiano Giuseppe Ungaretti.As músicas que embalam o curta vieram das pesquisas realizadas por Mário de Andrade em sua célebre expedição de pesquisa pelo país, em 1938.
A competição dá a largada nesta noite de sábado (16), com a exibição dos curtas O Peixe, de Jonathas de Andrade, Nada, de Gabriel Martins, Peripatético, de Jessica Queiroz, e dos longas Música para quando as Luzes se Apagam, de Ismael Caneppele, e Vazante, de Daniela Thomas.
 
 Entre onírico e realista
Numa pegada que incorpora mais toques realistas do que seus filmes anteriores – A Fuga da Mulher-Gorila e A Alegria, com codireção de Marina Meliande -, Felipe Bragança realizou, em Não devore meu coração uma coprodução entre Brasil, França e Holanda que entrelaça o romance juvenil, o comentário histórico e referências a filmes de gênero, entre o fantástico e a aventura policial de motocicleta.
Já não é de hoje que o diretor procura um cinema assim, multifacetado e cheio de arestas, remetendo a incômodos nas próprias situações a que se refere – e que aqui partem da inspiração livre em contos de Joca Reiners Terron. É, até literalmente, um cinema de fronteira, ambientado numa cidadezinha na beira do Paraguai e do Brasil, onde indígenas guaranis enfrentam brasileiros, ainda impregnados dos ressentimentos da malfadada Guerra do Paraguai, em que o Brasil, vitorioso, promoveu um massacre no século 19.
No meio disso, nasce um romance entre o menino Joca (Eduardo Macedo) e a índia Basano (Adeli Benitez), que nada tem de adocicado, até porque a garota resiste ao envolvimento com o garoto, irmão de Fernando (Cauã Reymond), violento agroboy local.
O título poético refere-se à magia inerente a essa cultura indígena, que persiste no fundo da memória, cada vez mais sitiada por uma realidade social inóspita à superação de conflitos, porque não permite o nascimento de nenhuma forma de integração entre essas populações diferentes, em disputa de espaço, território, riqueza, domínio.
Um problema é a articulação de todas essas camadas que a história atinge, que se sobrepõem às vezes um tanto mais bruscamente do que o adequado à sua fluência. Há uma preocupação em fazer referências, como a cena da corrida de motos que remete a Juventude Transviada, de Nicholas Ray, e alguns momento Apichatpong Weerasethakul ao longo das sequências que abordam a mitologia indígena, assim como um toque Tsai Ming Liang na colocação do rio como personagem. A pegada pop está em citações a personagens de quadrinhos (como Batman) e na configuração destas corridas de motocicletas.
Um pouco mais poderia ter sido investido na forma como os personagens se desenham na história, que ocorre de modo um tanto artificioso. Falta uma verdade maior, um aprofundamento a personagens como a mãe de Joca e Fernando (Cláudia Assunção) e mesmo o pai (Leopoldo Pacheco), que afinal parece quase uma caricatura. Mas, acima de tudo, falta organicidade à maneira como se articula essa camada realista à camada fantástica, que aspira a ser simbólica, mas não alça voo suficiente para isso.
 
Novo polo no DF
Foi anunciado ontem (15) a criação de um novo polo de produção cinematográfica, com a criação do Parque Audiovisual de Brasília, que será instalado num terreno à beira do Lago Paranoá, de 147 mil metros, cujo uso foi cedido. O parque substituirá o Polo de Cinema e Vídeo Grande Otelo, que funcionava em Sobradinho. 

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