11ª Cine BH

Cine BH encerra mostra contemporânea com ácido retrato da Tailândia

Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
 Belo Horizonte – A 11ª edição do Cine BH encerrou-se neste domingo (27) com a exibição dos últimos títulos da programação. Entre eles, na Mostra Contemporânea, Bangkok Nites, de Katsuya Tomita, uma coprodução entre Tailândia, Japão, França e Laos que fornece um dilacerante retrato de relações humanas e sociais na Tailândia contemporânea. O filme fez parte da competição internacional do mais recente Festival de Locarno.
A protagonista é Luck (Subenja Pongkorn), prostituta de luxo em Thanya Road, região frequentada pelos empresários, turistas e executivos japoneses. Ela é considerada a “garota número 1”, um destaque que lhe garante altos ganhos, uma vida confortável e também sustentar sua família, que vive na zona rural, na fronteira com o Laos.
 Transformando a própria Bangcoc numa personagem através de frequentes deslocamentos em suas ruas, um contraste de becos escuros, onde ratos se esgueiram à clara vista, e avenidas feericamente iluminadas e repletas de carros de luxo, o filme toma o pulso de um país profundamente devastado por processos colonialistas, expondo particularmente o resultado de intervenções norte-americanas, até esse recente domínio japonês no ramo dos negócios. Ou seja, um país espoliado, de economia dependente.
 
Trajetória comum
Bem-sucedida dentro das regras capitalistas gerindo seu próprio corpo, Luck reflete a história de tantas e tantas garotas do interior, como ela mesmo diz numa fala – aos 16 anos, parte da família para Bangcoc, mergulhando nesse submundo de bordeis como o que ela pertence para sustentar a família empobrecida que fica atrás. A maioria dessas mulheres, é claro, não consegue nem tanto sucesso nem independência, já que os cafetões e o vício por drogas são uma constante.
Atuando também no elenco, como Ozawa, um ex-cliente com quem Luck mantém um relacionamento afetuoso, o diretor Katsuya Tomita não se apega, no entanto, a um discurso melodramático, impregnando sua narrativa de uma ironia pop – as músicas, especialmente, emolduram momentos distintos, em geral com um humor sarcástico. Não faltam, igualmente, cenas à la Apichatpong Weerasethakul (que recebe agradecimentos nos letreiros finais), injetando um tom de fantasia mística – como quando Ozawa encontra um velho que seria um fantasma veterano do Vietnã e enxerga um grupo de soldados deslocando-se num bosque nas trevas.
De todo modo, mesmo sem se dispor a um tratado sociológico, até por durar um pouco mais do que três horas, o filme delineia uma curiosa galeria de personagens, entre os habitantes do bordel, seu entorno e também a cidade do interior onde mora a família de Luck – onde se passa um vasto segmento na segunda metade do filme. Assim, Bangkok Nites enriquece suas camadas de uma percepção de um lado do mundo que a superficialidade dos noticiários e dos folhetos turísticos tendem a mascarar como meramente exótico.

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