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Abre-alas para Antonio Pitanga e suspense sobre identidade em tempos hiperconectados

Equipe Cineweb

Entre as novidades da reta final da Mostra, o adorável documentário “Pitanga”, de Beto Brant e Camila Pitanga, sobre o ator baiano Antonio Pitanga, e o suspense “Desconhecida”, com Rachez Weisz. Mas ainda é tempo de ver os documentários “Correspondências”, “Curumim” e “Arlette, a coragem é um músculo”, sem perder de vista as ficções “Paterson”, “Beduíno”, “Las Plantas” e “Nunca vas a estar solo”. 
 
 Pitanga
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O documentário, assinado por Beto Brant e Camila Pitanga, assinala de maneira íntima e pessoal o percurso de um artista maior e um ser amoroso – o ator baiano Antonio Pitanga. Muito apropriadamente, o filme evita qualquer narrativa didática ou cronologicamente linear e se constrói a partir de muitos encontros, que dão conta da extensa carreira de um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos. Intérprete de filmes de Glauber Rocha, Cacá Diegues, Walter Lima Jr., Ruy Guerra, Roberto Pires, Anselmo Duarte e muitos outros, Pitanga é a própria história desse cinema, além de intérprete carismático em teatro e televisão, em que simboliza a presença de uma negritude tantas vezes escamoteada, mas que ele sempre empunhou e engrandeceu.
Assim, Pitanga ocupa a cena com seu sorriso grande e papo solto, conversando com artistas com quem veio dividiu a cena e a vida, como Ítala Nandi, Tamara Taxman, Zezé Mota, Maria Bethânia, Ney Latorraca, Hugo Carvana, José Celso Martinez Corrêa, Jards Macalé, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Seus filhos, Rocco e Camila, seus netos, e sua mulher, Benedita da Silva, também comparecem para completar o retrato de uma família adorável, que lida com suas dores (como a doença de Vera Manhães, sua ex-mulher e mãe de seus filhos) de maneira discreta e longe dos holofotes.
Mas a ribalta é toda de Pitanga. O filme é uma experiência vital para qualquer espectador de coração aberto, necessária hoje como em tantos outros tempos bicudos deste País, aos quais Pitanga sobrevive há 77 anos com sua verve, sensualidade e alegria. (Neusa Barbosa)
CINEARTE 1 – 28/10 – 15:30
CINEMATECA – SALA BNDES – 30/10 – 17:00
 
 Desconhecida
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O diretor americano Joshua Marston, vencedor do Grande Prêmio do Júri da 28ª Mostra com Maria Cheia de Graça (2004), e de Perdão de Sangue (2011 - 35ª Mostra) deixa de lado seu habitual realismo social mas não a complexidade de seus personagens neste conturbado romance,  Desconhecida.
Estrelada por Rachel Weisz e Michael Shannon, a trama focaliza a mudança de identidade e na capacidade de uma pessoa ser senhora de sua imagem, em um mundo hiper conectado, com a avassaladora presença de mídias sociais em que nada é necessariamente privado. Embora toque superficialmente em como isso é possível, apresenta Alice (Weisz), que já na introdução é mostrada em diferente contextos e disfarces.
O mistério sobre essa figura múltipla começa a revelar-se quando ela força uma amizade com Clyde (Michael Chernus),este amigo de Tom (Shannon), aparentemente o real alvo da protagonista. Ela acaba convidada para uma festa na casa de Tom, em que conta como passou anos na Tasmânia como bióloga, estudando sapos. Porém, o dono da casa desconfia e fica obcecado com as histórias da convidada. Tudo isso até ficarem a sós para a verdade vir à tona.
Com excelentes atuações, incluindo a participação especial de Kathy Bates e Danny Glover, encontra-se um equilíbrio entre a tensão sobre a identidade de Alice, ao mesmo tempo em que Marston compõe a narrativa da sedução que exala da dupla em uma estrutura de diálogos cativantes. Com sua identidade fluida, que beira a sociopatia, Alice experimento uma inquietação existencial, que o diretor oferece crua à audiência. (Rodrigo Zavala)

Espaço Itaú de Cinema - Augusta 1 - Dia 28/10  - 19:20
 
 Her Composition
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Rodado em Nova York, o primeiro longa do alemão Stephan Littger expõe um amadorismo inicial, com enquadramentos, especialmente no começo, que recordam trabalhos universitários, naquela ânsia de conferir grande profundidade e significado a cada plano, esquecendo-se da execução e efetividade. Mas logo isso contrasta com planos detalhes interessantes na fotografia, aliados a uma rápida montagem para criar a viagem sensorial de texturas físicas, visuais e sonoras que a protagonista mergulha no decorrer de Her composition.
Dividida em quatro movimentos, como uma sinfonia, a trama apresenta o momento de crise na vida da estudante de música Malorie (Joslyn Jensen). Quando a sua composição para a banda da instituição não agrada ao professor responsável e ela perde a bolsa de estudos, ela encontra uma oportunidade de ganhar dinheiro para financiar o curso e ainda inspirar-se em uma nova criação quando tem acesso – de uma forma bem confusa no roteiro de Littger, diga-se de passagem – a uma lista de clientes que usam os serviços de acompanhantes de luxo.
No momento em que ela começa a fazer os programas, a narrativa engrena e o obsessivo processo criativo para a composição – a que o filme acaba não dando a devida exposição no final – correndo junto à descoberta de sua própria identidade dão esse gás visual, sonoro e técnico no longa. Há nas entrelinhas um questionamento entre a luta feminista e a liberdade individual de escolha sobre o próprio corpo, embora pouco elaborado e sem respostas, que não é algo que a obra procura. (Nayara Reynaud)
 
CINEMATECA - SALA BNDES  - 23/10 - 17:00
CIRCUITO SPCINE OLIDO                   - 28/10 - 19:00
CINE CAIXA BELAS ARTES S/1 Villa Lobos - 1/11 - 19:50
 
 As ruas
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Quando a jovem cineasta argentina María Aparício diz que um de seus cineastas favoritos é Eduardo Coutinho, seu filme As Ruas faz mais sentido ainda. Combinação entre documentário e ficção, o longa se passa numa pequena cidade pesqueira, Puerto Pirámides, na região da Patagônia, onde as ruas não tem nome, mas uma professora, com ajuda de um grupo de adolescentes, começa um processo de votação para escolha dos nomes - e isso funciona também como  um resgate da história e da memória do local.
O filme, contou a diretora que está em São Paulo convidada pela Mostra, começou de uma ideia da produtora Natalia Gamarro, que conhecia a professora que teve essa ideia. “O filme foi perfeito para abordar assuntos que me interessam, como memória e democracia.” Há uma parte encenada, que recupera o processo de pesquisa e votação dos nomes das ruas, mas há o documental com os moradores da cidade.
“Minha equipe era pequena e passamos um bom tempo lá, para ganharmos a confiança, ficarmos amigos dos moradores, para que eles estivessem à vontade na frente das câmeras”, explica a diretora. María conta que, inicialmente, o filme seria uma ficção, mas, conforme as filmagens avançaram, percebeu que o documental traria uma riqueza para o longa.
Foi mais de um ano de montagem de As Ruas, com duas versões finais, e María ainda não estava satisfeita com o resultado. “Chegou um momento em que eu percebi que precisava de alguém sem qualquer vínculo afetivo, com distanciamento”. Entrou em cena Martín Sappia, que a ajudou a construir uma nova versão. “Foi ele quem encontrou a melhor forma de relacionar o documental e o ficcional”.
A Mostra marca a primeira exibição do filme fora da Argentina, e, para María, está sendo um momento especial. “Há muito em comum entre os dois países, especialmente em relação à democracia, por isso acho que o filme viaja tão bem”, comentou ela após a primeira sessão no evento. No seu país, o filme foi exibido em festivais e estreou em algumas poucas salas. Mas a melhor exibição do longa, para ela, aconteceu na própria Puerto Pirámides, quando o mostrou para os moradores. “Eles se viram na tela. Foi uma descoberta, e, para mim, uma sensação de um trabalho bem feito. Para todos nós, o filme se tornou um patrimônio, que registra a vida daquelas pessoas e aquele lugar”. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 - 28/10 - 21:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 29/10 - 14:00
 
 Lobo e ovelha
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A iraniana Shahrbanoo Sadat foi a pessoa mais jovem escolhida para participar do programa de residência do Cinéfondation do Festival de Cannes, e seu primeiro longa, Lobo e Ovelha, ganhou o principal prêmio na Quinzena dos Realizadores deste ano. Combinando realismo e fantasia, numa região longe da civilização – e mais próxima de temas como terrorismo e guerras, mais comuns no cinema afegão –, seu filme é uma combinação entre documentário etnográfico e ficção.
Numa paisagem caracterizada por formações rochosas e terra – muito bem fotografada por Virginie Surdej –, Lobo e ovelha é marcado por uma meditada simplicidade que confere o que há de mais denso no filme, observando uma comunidade de pastores, na qual os dois animais do título têm a mesma importância.
Chamar de “filme etnográfico” pode trazer a ideia equivocada de que é um olhar para uma cultura exótica apenas pelo exotismo, mas esse longa não poderia ser mais diferente disso. Embora seja atuado por pessoas vivendo mais ou menos versões de sua vida, o filme é inspirado em memórias da diretora, que, segundo a Variety, é a primeira afegã da dirigir um longa.
Os elemento fantásticos vêm de uma lenda contada por um ancião sobre um lobo que anda sobre duas patas, e, ao remover sua pele, liberta uma fada esverdeada de dentro de si. As duas figuras são vistas andando pelas montanhas no filme, mas, ao centro, estão as personagens mirins e suas relações umas com as outras, num mundo onde quase não há adultos, e de como a fantasia pode ser catártica.
A narrativa, no entanto, é solta quase episódica, num ritmo de crônica que observa com curiosidade e carinho, o que evita transformar tudo aquilo em exótico. É quase um universo perdido, distante, numa outra época ou planeta. Mas, ao final, a realidade assustadora da violência do mundo contemporâneo bate à porta, e Lobo e Ovelha nos lembra da crueldade do presente.  (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   - 28/10 - 22:15
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 - 29/10 - 14:00
 
 Correspondências
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A amizade entre os poetas portugueses Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen, registrada de forma comovente na prolífica correspondência que os dois mantiveram entre 1957 e 1978, no período em que Sena se exilou no Brasil e nos Estados Unidos, durante a ditadura salazarista, é visitada no documentário Correspondências, da diretora lisboeta Rita Azevedo Gomes.
A diretora classifica o filme como um diálogo cinematográfico no qual temas presentes durante os 20 anos de troca de cartas, literários ou não, são abordados de forma franca e muitas vezes áspera. Não a aspereza de confronto entre os amigos, mas a aspereza dos temas, como o da ditadura salazarista que une os poetas e amigos numa jornada de pessimismo, amargura e impotência.
A diretora escolheu algumas cartas e poemas e fez um ensaio poético, intercalando os textos e construindo uma textura de imagens que conduz o espectador no conhecimento e compreensão da vida desses dois amigos ao longo da narrativa das cartas. Os poemas são declamados por atores próximos da diretora em ambientes familiares, como uma cozinha no campo e quintais acolhedores. Imagens de países visitados pelos amigos também servem para contextualizar o que se aborda nas cartas. Aliás, cartas e poemas parecem ser uma extensão. Ou, numa outra leitura, os textos poéticos refletem também a realidade daquele tempo.
Esse é o sexto longa da diretora, apresentado este ano no Festival de Locarno. Mesmo falando de autores e de temas portugueses, o filme pretende também ultrapassar o mundo lusófano. “Como é que esta conversa portuguesa, de um período que nós conhecemos por dentro, mas do qual lá fora não se tem bem a ideia, com dois poetas portugueses, fala aos outros?”, indagou a cineasta em entrevista ao jornal Pùblico. E ela própria respondeu: “Comecei a perceber que, se calhar, pode ser uma coisa entendida por qualquer pessoa.” (Luiz Vita)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA 1 - 28/10 - 21:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA FREI CANECA 5 - 30/10 - 16:50 
 
 Las Plantas
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Com um espírito que transita, ao mesmo tempo, entre a passividade e a ousadia, o chileno Roberto Doveris faz de sua estreia em longas um coming of age de surrealismo único sobre o momento de descobertas sexuais que marca a adolescência. Vencedor do Urso de Cristal no Festival de Berlim, dentro do prêmio da juventude Generation 14plus, o filme parte de uma interessante premissa, descrita em uma fictícia história em quadrinhos homônima, de que o espírito das plantas se apossa dos corpos humanos durante a noite para satisfazer a sua ânsia por liberdade e mobilidade, inspirando neles os seus desejos libidinosos.
A alusão de Las Plantas é direta ao irmão de Flor (Violeta Castillo), Sebastián (Mauricio Vaca), que vive em estado vegetativo após um acidente lhe causar danos cerebrais. Como sua mãe (Ingrid Isensee) está doente no hospital e a cuidadora (Marcela de la Carrera) vai embora, cabe à garota cuidar do irmão acamado. Sua solidão é quebrada pelas visitas constantes de seus amigos, que vem ensaiar uma coreografia, e por visitas noturnas que ela caça na internet para alimentar sua curiosidade sexual, já que, a princípio, ela é uma voyeur fixada em ver homens masturbando – aqui, em cenas explícitas.
Elementos da cultura contemporânea, como o cosplay, resultante da influência da cultura pop oriental nas terras ocidentais, e a própria HQ que inspira a protagonista neste desbravamento de sua sexualidade. Violeta Castillo – não confundir com a personagem da novela juvenil do Disney Channel – conduz Flor de forma contida e ainda assina a trilha sonora, atmosférica em seus sintetizadores, com Ignacio Redard. O mesmo efeito de ambientação sombria, entre o onírico e o melancólico, é dado pelos planos estáticos, especialmente, aqueles pontuais em a câmera de Patricio Alfaro dá a visão das plantas do jardim, que se misturam com a steadycam que passeia pela casa no calar da noite. São esses elementos que dão potência à obra de Doveris, cujas ideias, por si sós, não se completam. (Nayara Reynaud)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6   28/10 - 19:15
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   29/10 - 17:30
 
 Arlette, a coragem é um músculo
O documentário suíço-alemão, dirigido por Florian Hoffman, retrata a trajetória de Arlette, uma garota da República Central Africana cuja vida foi drasticamente alterada pelas idas e vindas de uma interminável guerra civil. Menina ainda, ela foi atingida no joelho por estilhaços de uma bomba, o que lhe causa dores constantes, há alguns anos.
Depois que o documentarista filma seu drama, surgem patrocinadores alemães para uma viagem da menina para recuperar-se na Alemanha. Assim, a garota deixa, pela primeira vez na vida, sua aldeia e sua família para receber tratamento médico na Alemanha. O filme retrata essa jornada de observação desta adolescente muito viva e curiosa, que documenta tudo à sua volta com uma Polaroid. Sempre que possível, ela relata momentos desta viagem à sua família por meio do Skype.
Longe de esgotar-se neste choque cultural de Arlette com o Velho Continente, o filme capta a explosão de sua adolescência e novos problemas que vêm pelo caminho – quando ela vai voltar, eclodem outros conflitos políticos em seu país e ela é obrigada a permanecer na Alemanha. Seus pais lhe dizem para não voltar, mas ela também não tem lugar ali, pois nem mesmo tem status de refugiada. Exibido no mais importante festival de documentários do mundo, o IDFA da Holanda, além de Helsinque, Munique e do Visions du Réel, esta obra é um refinado mergulho na contemporaneidade, filtrado pela expressão de uma jovem africana, que merece, mas não encontra, seu lugar num mundo conturbado demais. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI  CANECA 5 - 28/10 – 13:30
CINESALA –  30/10 – 14:00
 
 Nunca vas a estar solo
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Musico pop chileno e cineasta estreante, Alex Anwandter escolheu um tema espinhoso para seu filme Nunca vas estar a solo, um ataque homofóbico que afeta a vida de um jovem e seu pai. Pablo (Andrew Bargsted) tem 18 anos, e tenta viver sua sexualidade de forma livre, apesar do cenário machista de onde mora, e passa o tempo ensaiando para um teste de um show de drag queen. Ele vive com seu pai, Juan (Sergio Hernández), funcionário de uma fábrica de manequins.
Pablo mantém, há um bom tempo, um caso com seu vizinho e amigo de infância, Felix (Jaime Leiva), que tem dificuldades em aceitar sua própria homossexualidade, a ponto de agredir seu amante, na rua, com a ajuda de outros rapazes dos arredores. O ataque é tão brutal que deixa o protagonista em coma.
Nesse momento, o filme, também roteirizado por Anwandter, muda seu foco, concentrando-se na figura paterna e sua batalha pela punição dos culpados ao ataque de seu filho, além de lidar com o remorso que ele sente por ter sido incapaz de proteger seu filho. A única testemunha do ataque é a melhor amiga do rapaz (Astrid Roldan), que estava com ele, mas conseguiu fugir, o que a faz se sentir culpada, mas também temerosa de denunciar os agressores (que moram todos no mesmo bairro).
Juan é mostrado, então, como uma figura solitária, com dificuldade de pagar as contas hospitalares, e sofrer com o vazio da ausência de um filho que ele descobre que mal conhecia. Sua missão é que os culpados paguem pelo crime, mas ele também esbarra num sistema conivente e homofóbico.
Baseado num caso real, de um rapaz chamado Daniel Zamudio, morto em 2012, em Santiago, o filme de Anwandter é repleto de boas intenções, necessário, mas nem sempre com a  força que poderia ter. Sua narrativa se abre em pequenos personagens e dramas – como um envolvendo um confronto entre Juan e seu patrão – que nem sempre contribuem na construção da narrativa, e enfraquecem o que há de importante. O filme ganhou o prêmio especial do júri do Teddy Award no Festival de Berlim, troféu concedido a obras com temática LGBT. (Alysson Oliveira)
 
CINE CAIXA BELAS ARTES  S/1 Villa Lobos -  29/10 - 14:00
 
 Beduíno
Lançado em première mundial no mais recente Festival de Locarno, em agosto, e nacionalmente em Brasília, em setembro – fora de competição -, o mais recente trabalho doveterano Julio Bressanelevou 14 anos para ser concluído.Aos 70 anos, como sempre dedicado a um tipo particular de invenção cinematográfica, o cineasta articula suas habituais divagações literário-pictórico-poéticas, com a parceria dos atores Alessandra Negrini e Fernando Eiras, seus habituês, encenando esquetes lembrando um estrangulador de louras (objeto de filme anterior seu), a obsessão de uma mulher por um sonho que se repete, interações de um casal e outros temas que se sucedem na tela, embalando a imaginação e o intelecto naquela mistura tão cara ao diretor. Não é filme “pra entender”, é filme “pra viver”. E faz um bem danado à sensibilidade e à inteligência. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 5 – 28/10 – 15:15
                                                                                                                        
 Curumim
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O documentário de Marcos Prado (Estamira), que teve première mundial no Festival de Berlim, em fevereiro, traça o perfil de Marco “Curumim” Archer, um dos brasileiros executados na Indonésia por tráfico de drogas em 2015. Contando com recursos como uma câmera clandestina – contrabandeada para dentro da prisão pelo próprio Archer -, acompanha-se vários meses de sua vida no cárcere, ao longo dos 11 anos que permaneceu no corredor da morte, permitindo uma rara visão interna dessas condições no limite.  
O diretor situa seu filme de maneira a evitar julgar seu personagem – que ele conheceu ligeiramente na adolescência, quando Archer era um “menino do rio”, que surfava no píer de Ipanema. Foi, aliás, o próprio Archer quem lhe pediu que fizesse um filme sobre ele, de algum modo pressentindo que não teria saída. Prado o faz com distanciamento, procurando descobrir quem foi este homem, que nasceu bonito, em família rica e talentoso para esportes (foi professor de asa-delta), mas enveredou por um caminho autodestrutivo, terminando seus dias dividindo uma cela com terroristas islâmicos e assassinos perigosos (alguns dos quais foram poupados da pena capital por terem obtido os meios para corromper as autoridades locais, um fenômeno crônico que o filme explora a partir de diversos depoimentos, como de um italiano que dividiu também a cela com Marco, foi condenado à morte por tráfico mas conseguiu safar-se com a ajuda de sua família para “financiar” sua libertação).
O filme não suaviza aspectos mais polêmicos do personagem, ouvindo também amigos que o conheceram na juventude dourada em Ipanema. De um modo oblíquo, fornece material para uma discussão séria sobre drogas e pena de morte, sem querer ter um discurso pronto nem a palavra final sobre nenhum dos dois temas. (Neusa Barbosa)
 
CINEMARK CIDADE DE SÃO PAULO – 28/10 – 21:30
 
 Paterson
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O novo filme do norte-americano Jim Jarmusch, pousou em Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro em 2016, com uma nota densa de sutileza e literal poesia – já que é esse o tema que impregna tudo em torno de Paterson, o protagonista interpretado com calor intimista por Adam Driver.
Motorista de ônibus que compartilha o nome da cidade em que nasceu e onde vive, Paterson é um fino observador do mundo à sua volta – só que, ao contrário dos anjos de Wim Wenders em Asas do Desejo, não é invisível (embora ninguém à sua volta pareça notá-lo). Ele escreve poemas num caderno, em que anota pensamentos e especula em torno das mínimas coisas de seu cotidiano. Uma simples caixa de fósforos, por exemplo.
Seu mundo parece estreito: as ruas da pequena Paterson, uma casinha modesta e rosada, que compartilha com a mulher Laura (Goshifteh Farahani) e o cachorro, Marvin (que é um personagem com função na história e, sem ironia, ótimo intérprete).
O filme é conduzido com rigor, retratando um cotidiano que se repete, aparentemente sem mudanças. Todo dia Paterson faz tudo igual, Laura nem tanto – mas as variações dela guardam uma certa afinidade interna, já que ela é obcecada por atividades artísticas e culinárias em torno de padrões em preto-e-branco.
A repetição permite aos poucos enxergar as brechas onde se insinua a grandeza da vida, por mais simples que pareça. A própria história da cidade de Paterson, afinal, não é tão insignificante, já que ali nasceram ou viveram poetas e atores, como William Carlos Williams, Allen Ginsberg e Lou Costello (da dupla Abbott & Costello), entre muitos outros. Um mural no bar, frequentado por Paterson toda noite, guarda as pegadas dessas célebres passagens pela cidade.
Habilmente, Jarmusch provoca nossas expectativas viciadas como espectadores. Cria pistas que levam a temer grandes tragédias e violência. E aí, também, nos lembra de que tantos outros caminhos se sucedem diariamente, ao largo dessa espetaculosidade enganosa que o próprio cinema, em geral, estimula. E aí está o grande prazer de descobrir este filme sutilmente grandioso. (Neusa Barbosa)
 
CINE CAIXA BELAS ARTES S/1 VILLA LOBOS – 28/10 – 21:35

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